— Ana, eu faço a ementa e tu tratas da comida — disse Helena, estendendo-lhe três folhas preenchidas de alto a baixo. — Cozinhava eu, se pudesse, mas as mãos não me dão descanso. Esta artrite está a acabar comigo.
Ana pegou nos papéis. Entradas frias, pratos quentes, saladas, três sobremesas diferentes. Para assinalar o aniversário dela e de Pedro, a sogra tinha convidado oito pessoas. Tudo decidido sem lhe pedir opinião.
— Helena, não seria mais simples encomendar? — perguntou Ana, erguendo os olhos.
— Encomendar? — Helena levou as mãos ao ar, mãos essas onde não se via o menor sinal de artrite. — E que iam pensar as minhas amigas? Que nesta casa já nem sabemos receber? Nem pensar, Ana. Mostra lá do que és capaz.
Ana dobrou a lista ao meio. Depois outra vez. E mais uma. O papel transformou-se num quadradinho minúsculo, que ela pousou sobre a mesa.

— Está bem. Vou mostrar.
Sete meses antes, logo a seguir ao casamento na conservatória, Pedro anunciara que, por enquanto, ficariam em casa da mãe. Esse “por enquanto” depressa ganhou ar de definitivo. Helena, viúva havia sete anos, morava sozinha num apartamento de três quartos e sofria imenso. Não de solidão. Sofria por ter de cozinhar, limpar e manter a casa em ordem.
No segundo dia depois do casamento, a sogra foi atacada por uma enxaqueca.
— Ana, minha querida, tenho a cabeça a rebentar. Nem consigo levantar-me. Faz qualquer coisinha para o jantar, sim?
Ana fez. Depois arrumou a cozinha. Depois pôs roupa a lavar. Ao fim da tarde, Helena já estava recuperadíssima e saiu para o cabeleireiro. Voltou fresca, impecável, com o cabelo brilhante e a cheirar a champô caro.
As enxaquecas passaram a aparecer sempre antes de cozinhar. As tonturas surgiam quando era preciso limpar. A artrite atacava mal havia loiça para lavar, mas desaparecia por completo quando Helena folheava revistas ou passeava pelas lojas.
Pedro não via. Ou preferia não ver.
— E então? A minha mãe não pode, tem problemas de saúde. Tu és nova, aguentas.
E Ana aguentava. Levantava-se às cinco da manhã, preparava o pequeno-almoço para três, ia dar aulas aos miúdos do primeiro ano, regressava por volta das seis e, até às onze da noite, lavava, esfregava, arrumava e deixava a comida do dia seguinte adiantada. Pedro chegava, jantava e estendia-se no sofá a ver televisão. De vez em quando ainda lhe perguntava por que razão andava “sempre de má cara”.
Ela foi emagrecendo. As olheiras cavaram-se-lhe debaixo dos olhos. A pele das mãos ficou áspera, as unhas começaram a lascar. Quando se via ao espelho, Ana já não reconhecia a mulher que tinha diante de si: parecia-lhe uma estranha, exausta, envelhecida e vazia.
Três semanas antes, Helena comunicara a celebração do aniversário.
Na manhã da festa, Ana acordou às cinco, como de costume, mas não entrou na cozinha. Vestiu umas calças de ganga, uma blusa clara e maquilhou-se com cuidado. Do armário, retirou uma caixa onde guardava um envelope: um vale de spa para um dia inteiro. Tinha gasto nele as últimas poupanças que conseguira juntar.
