Era o dinheiro que, durante meses, tinha posto de lado para comprar o casaco de que tanto precisava.
Helena apareceu para o pequeno-almoço envolta num robe de seda. Ao ver a nora vestida com cuidado, de rosto maquilhado e ar composto, apertou os lábios num gesto de reprovação.
— Mas que ideia é essa? Para que te arranjaste assim? Hoje vais passar o dia inteiro agarrada ao fogão. Vai mudar de roupa.
Ana não se alterou. Estendeu-lhe o envelope.
— Tenho uns assuntos a tratar. Isto é para si. Um presente pelo aniversário.
A sogra abriu-o, desconfiada. Quando percebeu do que se tratava, os olhos iluminaram-se.
— Um spa? Ana, que delicadeza… Mas logo hoje não posso. Tenho de estar aqui, ver a mesa, receber as pessoas…
Ana sentou-se diante dela e fitou-a sem baixar os olhos.
— Helena, não quer que a Margarida a veja deslumbrante? Imagine a cara dela. Vai morrer de inveja. Todos vão perguntar onde foi que ficou tão rejuvenescida. Da mesa trato eu, não se preocupe.
Fez-se silêncio. Helena ficou a passar os dedos pelo envelope, pensativa. A vaidade acabou por falar mais alto.
— Bem… talvez não seja má ideia. A Margarida está sempre a gabar-se da esteticista dela. O Pedro leva-me?
— Claro que leva — respondeu Ana, chamando o marido.
Pedro surgiu ainda meio adormecido, de mau humor. Ouviu a explicação, resmungou qualquer coisa e acabou por aceitar. Meia hora depois, os dois saíam de casa. O apartamento ficou finalmente em silêncio.
Ana foi ao quarto. Tirou do armário um vestido preto comprado na véspera numa loja em segunda mão e um par de sapatos de salto. Depois telefonou a uma conhecida de Inês, que fazia maquilhagens para ganhar algum dinheiro. Às cinco da tarde, tudo estava pronto: cabelo, maquilhagem, vestido. Quando se olhou ao espelho, Ana quase não se reconheceu. Desta vez, porém, a mulher refletida parecia viva.
Na cozinha, nem sequer entrou.
Os convidados começaram a chegar por volta das seis e meia. Teresa, uma mulher corpulenta e de voz espalhafatosa, foi a primeira a entrar na sala. Parou de repente.
A mesa estava impecável. A toalha branca caía lisa, sem uma única ruga. Havia velas acesas, copos de cristal, talheres alinhados para oito pessoas. Cada detalhe ocupava o seu lugar.
Só faltava uma coisa.
Comida.
— Ana… e as entradas? — perguntou Teresa, olhando em redor.
— É surpresa — disse Ana, com um sorriso calmo. — Estamos à espera dos protagonistas da festa.
Pouco a pouco, chegaram os restantes: amigas de Helena, colegas de Pedro, todos arranjados, com flores, embrulhos e sorrisos de ocasião. Sentavam-se, trocavam olhares discretos, observavam a mesa vazia. Alguém tentou fazer uma piada sobre dietas modernas. Riram-se, mas o riso saiu curto e constrangido.
Ana limitava-se a servir água mineral. Sorria. E esperava.
Às sete em ponto, Pedro regressou com a mãe. Helena entrou no corredor como se desfilasse: a pele brilhava depois do tratamento, o cabelo caía em ondas perfeitas, as unhas estavam irrepreensíveis. Tirou o casaco com elegância e avançou para a sala.
Então, estacou.
Diante dela estavam a mesa vazia, oito convidados sentados com expressão confusa e Ana, de vestido preto, segurando um copo de água.
— O que… o que é isto?! — a voz de Helena subiu, já à beira de um grito.
