“Então eu sou uma parasita, é isso?” disse Ana, com uma calma que gelou a cozinha

Histórias
Silêncio cúmplice, covarde e profundamente injusto.

— Então eu sou uma parasita, é isso? Muito bem. A partir de agora, cada um paga o que é seu — disse Ana, com uma calma que gelou a cozinha.

Antes de pronunciar aquelas palavras, já tinha ouvido mais do que precisava.

Nesse dia, Ana regressara a casa mais cedo do que era habitual. No átrio do prédio pairava um cheiro a sapatos encharcados e a tinta fresca, por causa das obras no rés do chão. Subiu até ao seu piso, abriu a porta do apartamento e preparava-se para chamar o marido, quando ficou imóvel no corredor de entrada.

Da cozinha chegavam vozes.

— João, tu és homem, tens de perceber quem anda pendurado em ti dentro desta casa — dizia Maria, a mãe dele. — Eu não sou cega. Tu carregas tudo às costas, enquanto ela se limita a andar bonita e a fazer de conta que está cansada.

Ana tirou o casaco devagar e pendurou-o no cabide. Desta vez, porém, não largou as chaves sobre a cómoda, como fazia sempre. Apertou-as na mão. O metal cravou-se-lhe na pele dos dedos, desagradável e frio, mas ela nem sequer abriu o punho.

— Mãe, por favor, não comeces — respondeu João, num tom exausto. — Está tudo bem connosco.

— Tudo bem? — A sogra soltou uma pequena gargalhada, como se a expressão lhe parecesse ridícula. — Não me venhas contar histórias. Eu vejo muito bem quem traz compras para casa, quem trata do carro, quem ajuda a mãe, quem pagou obras.

Ana semicerrrou os olhos. A parte das obras, em especial, teve a sua graça. A renovação do apartamento tinha sido feita antes do casamento. Com o dinheiro dela e segundo as escolhas dela. Na altura, João limitara-se a ajudar a escolher os azulejos da casa de banho e a ir três vezes receber entregas. Mas, nas versões de Maria, pelos vistos, aquilo já se transformara num grande feito dele.

— Ela também contribui — disse João, sem convicção.

Não a defendeu. Não se indignou. Apenas lançou aquela frase como quem tenta encerrar um assunto incómodo, e não como quem põe a mãe no seu devido lugar.

— Contribui? — Maria baixou a voz, mas as palavras ficaram ainda mais ásperas. — Com quê? Com frasquinhos bonitos na casa de banho? Com caixas de encomendas? Olha bem para a quantidade de coisas que ela tem. Ora compra isto, ora compra aquilo. Depois ainda te pergunta porque estás cansado. Claro que ficas cansado, se tens alguém às costas.

Ana avançou lentamente pelo corredor e parou à entrada da cozinha. Não entrou logo. Quis ouvir até ao fim. Não porque aquilo lhe desse prazer, mas porque, pela primeira vez em muito tempo, decidiu que não ia salvar ninguém do embaraço.

Sentados à mesa estavam João e Maria. Diante deles havia faturas das despesas da casa, um talão do supermercado e um caderno onde a sogra escrevia qualquer coisa com a sua letra larga e pesada. Ao lado, uma caneta. Maria sempre gostara de fazer contas, sobretudo às vidas dos outros.

— Eu não digo que ela seja má pessoa — continuou a sogra. — Mas convém chamar as coisas pelo nome. Há alguém neste apartamento a viver à custa de outra pessoa.

Foi nesse momento que Ana entrou.

Maria foi a primeira a erguer os olhos. O rosto dela alongou-se, mas apenas durante um segundo. Logo a seguir, endireitou as costas, como se nada de especial tivesse acontecido. João virou a cabeça de repente. Os dedos dele cobriram imediatamente o caderno, como se quisesse esconder o que lá estava escrito.

— Ana, já chegaste? — perguntou ele, levantando-se da cadeira. — Nós estávamos só… a falar…

— De despesas — completou ela.

A voz saiu-lhe lisa. Até demasiado lisa. Por causa disso, João pestanejou mais do que o normal e, durante alguns instantes, pareceu não saber onde pôr as mãos.

— É uma parvoíce — apressou-se ele a dizer. — A mãe está só preocupada. Tu sabes como ela é.

Ana olhou para Maria. A sogra aguentou-lhe o olhar, embora os seus dedos tenham empurrado discretamente o talão para mais perto do caderno.

— Então eu sou uma parasita, é isso? Muito bem. A partir de agora, cada um paga o que é seu — repetiu Ana, tranquila.

Maria abriu a boca, mas não saiu som nenhum. João deu um passo na direção da mulher.

— Ana, espera. Entendeste mal.

— Entendi perfeitamente — respondeu ela. — A diferença é que, antes, eu fingia que não ouvia.

João deixou escapar um sorriso fraco, como se esperasse que tudo descambasse numa discussão familiar igual a tantas outras. Mas Ana não levantou a voz. Não bateu com portas. Não exigiu desculpas. Aproximou-se da mesa, pegou no caderno e virou-o para si.

Na primeira página lia-se: “Comida, casa, carro, mãe, miudezas.” Debaixo de “miudezas”, Maria tinha alinhado vários itens: cosmética, entregas, cafés, roupa.

Ana percorreu a lista com os olhos. Um canto da boca tremeu-lhe, mas aquilo não chegou a ser um sorriso.

— Maria, desde quando é que a senhora faz inventário dos meus cremes?

— Eu não faço inventário de coisa nenhuma — respondeu a sogra, ajeitando a camisola sobre o peito. — Estamos apenas a conversar. Numa família, é preciso perceber para onde vai o dinheiro.

— Então vamos perceber — disse Ana, pousando o caderno de novo. — Mas vamos perceber tudo. Não apenas a parte que lhe dá jeito.

— Ana, não faças isto — pediu João, em voz baixa.

Ela virou-se para ele.

— Não faço porquê? Quando me chamam, pelas costas, alguém que vive à custa dos outros, pode ser. Mas quando eu proponho contas claras, já não convém?

João desviou os olhos. Maria reparou nisso e ganhou novo ânimo.

— Ninguém te chamou nada pelas costas. Tu ouviste um pedaço da conversa e agora estás a montar uma cena.

— Não, uma cena ainda não comecei a fazer — Ana pousou as chaves sobre a mesa. — Para já, estou apenas a explicar as novas regras.

Saiu da cozinha, foi até ao quarto, abriu uma gaveta e retirou uma pasta com documentos. Quando voltou, João ficou ainda mais tenso. Ele conhecia muito bem aquela pasta. Ali estavam os papéis do apartamento, recibos, garantias, contratos dos eletrodomésticos e tudo aquilo que Ana juntava, meticulosamente, havia anos.

O apartamento era dela. Não tinha sido oferecido pelo marido, nem comprado em conjunto, nem posto em nome de familiares “por precaução”. Antes de se casar, Ana herdara-o da avó e tratara de toda a documentação após os seis meses legais. Depois disso, passara muito tempo a pôr a casa em condições. Quando João se mudou para lá, depois do casamento, ela não lhe exigiu nada de extraordinário. Apenas participação normal nas despesas e nas tarefas comuns.

Nos primeiros meses, ele participou de facto. Comprava mantimentos, pagava parte das contas do dia a dia, oferecia ajuda sem ser preciso pedir. Depois, pouco a pouco, tudo mudou.

Primeiro, começou a esquecer-se de transferir dinheiro para as despesas da casa. Depois dizia que pagava da próxima vez. Mais tarde, surgiu a necessidade de ajudar Maria com medicamentos. Depois com uma viagem. Depois com um frigorífico novo. Depois com mais qualquer coisa. Ana nunca discutiu por causa disso. O que a irritava não era o marido apoiar a mãe. O que a irritava era esse apoio passar cada vez mais pelo orçamento da casa deles, enquanto a gratidão da sogra diminuía a olhos vistos.

Maria aparecia lá em casa com cada vez mais frequência. Abria o frigorífico e avaliava o que havia lá dentro. Entrava na casa de banho e reparava num creme novo. Perguntava para que queria Ana outro par de botas de inverno, se o anterior ainda estava decente. Já para o filho, curiosamente, nunca havia perguntas.

João podia encomendar uma peça cara para o carro, e a mãe comentava:

— Um homem tem de cuidar da máquina.

Ana podia comprar um casaco, e ouvia:

— Hoje em dia, as mulheres adoram mimar-se e depois admiram-se de o dinheiro não chegar.

No início, Ana respondia com piadas. Depois, calou-se. Parecia-lhe que não valia a pena alimentar conflitos. Estava convencida de que João sabia, no fundo, onde estava a verdade.

Agora percebia que não sabia. Ou preferia fingir que não sabia.

— Aqui estão as despesas da casa dos últimos meses — disse Ana, retirando vários comprovativos da pasta. — Foram pagas com o meu cartão. Aqui está a internet. Também saiu da minha conta. Aqui está a compra da máquina de lavar roupa, depois de a antiga avariar. Também fui eu. E aqui está a entrega dos materiais para a marquise, aquela obra que, segundo acabei de ouvir, foi paga pelo João.

João levantou a cabeça de súbito.

— Eu ajudei!

— Recebeste a entrega porque eu estava no trabalho — respondeu Ana, sem raiva, mas com uma firmeza tão direta que ele voltou a calar-se. — Isso é ajuda. Não é pagamento.

Maria tamborilou os dedos na mesa.

— E então? Agora vais humilhar um homem com papéis?

— Não. Vou defender-me com factos.

— Factos? — A sogra bufou. — E quem é que troca lâmpadas nesta casa? Quem é que trata do carro? Quem é que carrega os sacos das compras?

Ana assentiu uma vez, devagar.

— Ótimo. Também apontamos isso. Lâmpadas, sacos, carro. Só que o carro é do João, eu quase não o uso. E as compras que vêm nesses sacos sou eu que normalmente pago; simplesmente nem sempre lhe peço que os leve lá para cima.

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