— A partir de agora, fazemos tudo de forma mais transparente. Cada um compra o que é seu. As despesas da casa dividem-se ao meio, já que o João vive aqui. Produtos de limpeza, alimentação, internet, tudo passa a ficar registado. Quanto às suas despesas, Maria, essas não fazem parte do orçamento desta casa.
A sogra endireitou-se na cadeira, como se a frase lhe tivesse batido no peito.
— O que é que isso quer dizer?
— Quer dizer que, se o João quiser ajudá-la, ajuda-a com a parte dele. Não com dinheiro comum, nem à custa das contas que eu pago.
— Mas quem és tu para contabilizar a ajuda que um filho dá à mãe?
— A mesma pessoa a quem a senhora acabou de contabilizar os frascos da casa de banho.
Fez-se um silêncio pesado na cozinha. Até João, que até ali respirava de forma ruidosa e nervosa, pareceu suspender o ar.
Maria agarrou na mala que estava na cadeira vazia ao lado.
— João, estás a ouvir a maneira como ela fala com a tua mãe?
— Mãe…
— Não me venhas com “mãe”! — cortou ela, virando-se de repente para o filho. — És homem ou és o quê? Estão a pôr-te no teu lugar dentro da tua própria casa!
Ana levantou ligeiramente as sobrancelhas.
— Dentro de que casa?
João empalideceu. Não muito, mas o suficiente para Ana notar. Maria também percebeu, embora o orgulho a impedisse de recuar.
— Da casa da família! Ele mora aqui!
— Mora, sim — concordou Ana. — Mas o apartamento é meu. Isto não é uma provocação, é um facto. E, já que hoje decidimos falar com rigor, talvez seja melhor não fingirmos que esta casa apareceu por milagre depois do casamento.
Maria apertou as pegas da mala com tanta força que os nós dos dedos se lhe marcaram.
— Ah, então agora vais atirar isso à cara dele?
— Não estou a atirar nada. Estou a repor limites. A senhora entrou na minha casa, sentou-se à minha mesa e decidiu avaliar até que ponto eu sou útil ao seu filho. Pois bem, agora sou eu que avalio até que ponto isto é aceitável para mim.
João passou a mão pelo rosto, cansado, como se quisesse apagar a conversa inteira.
— Ana, chega. Estamos todos de cabeça quente.
— Não, João. De cabeça quente estava a tua mãe quando me chamou parasita. Eu, neste momento, estou perfeitamente calma.
E era verdade. Dentro dela não havia histeria, nem tremor, nem vontade de chorar. Havia uma frieza nítida, quase limpa, como antes de uma reunião difícil com alguém desagradável. Ana já não sentia necessidade de se justificar. Sentia apenas lucidez. Como se alguém lhe tivesse tirado de cima uma manta pesada sob a qual ela estivera demasiado tempo a suportar o calor e a falta de ar.
— A partir de hoje — continuou —, eu não compro comida “para todos” sem combinação prévia. Não pago despesas do teu carro quando dizes que depois acertamos. Não cubro a totalidade das contas da casa porque te esqueceste. E não aceito reparos de uma pessoa que não participa nas nossas despesas, mas que, por algum motivo, se acha no direito de fazer auditorias.
Maria levantou-se de rompante.
— Vou-me embora. Não fico aqui a ouvir isto.
— Está bem — respondeu Ana. — As suas coisas estão no hall.
A sogra olhou para o filho. Esperava, certamente, que ele a travasse, que dissesse qualquer coisa dura à mulher, que restaurasse a ordem antiga com uma frase de autoridade. Mas João não disse nada. Continuava junto à mesa, os olhos presos nos recibos, como se fossem cartas de outra pessoa que lhe tivessem ido parar às mãos por engano.
— João, vens acompanhar-me? — perguntou Maria.
— Vou já, mãe.
— Não é “já”. É agora.
Ana pegou no molho de chaves que estava em cima da mesa e separou uma delas.
João franziu o sobrolho.
— O que estás a fazer?
— A recuperar a chave suplente que deste à tua mãe.
Maria encostou a mala ao corpo, num gesto brusco.
— Essa chave era para uma emergência!
— A emergência acabou.
— Eu sou mãe dele! Posso entrar em casa do meu filho se for preciso.
— Em casa do seu filho, sim. Mas este apartamento é meu. A partir de agora, ninguém entra aqui sem a minha autorização.
O rosto de Maria ficou vermelho. As manchas nas faces surgiram vivas e irregulares. Ela remexeu dentro da mala, puxou um molho de chaves e atirou uma para cima da mesa. O metal bateu na madeira com um som seco.
— Toma lá. Fica com a tua preciosa casa e engasga-te com ela.
— Não dramatize, Maria. Limitou-se a devolver uma chave que não era sua.
João estremeceu, como se estivesse prestes a repreendê-la, mas Ana olhou para ele antes que abrisse a boca. E ele calou-se.
Quando a porta se fechou atrás da sogra, o apartamento mergulhou num silêncio estranho, quase artificial. João foi acompanhá-la até ao elevador. Voltou alguns minutos depois e encontrou Ana ainda na cozinha, a guardar os recibos dentro da pasta. Os seus movimentos eram calmos, exatos, cuidadosos. Nem uma folha ficou amarrotada.
— Para que é que fizeste aquilo? — perguntou ele.
Ana não ergueu a cabeça.
— Aquilo o quê?
— À frente da minha mãe. Podíamos ter falado depois.
— Ela falou de mim à tua frente. Por que razão eu devia esperar por uma altura mais conveniente?
— Ela só se preocupa comigo.
Ana fechou a pasta e só então encarou o marido.
— E tu preocupas-te com quem?
Ele não respondeu de imediato. Esfregou a cana do nariz, caminhou até à janela, voltou para trás. Noutra altura, aquele ar perdido tê-la-ia amolecido. Ana teria ido ter com ele, teria pegado na sua mão e dito que estavam apenas cansados. Mas, naquele dia, não viu cansaço. Viu uma velha habilidade para fugir ao essencial.
— Eu não acho que sejas uma parasita — disse ele por fim.
— Mas permitiste que ela o dissesse.
— Eu não queria armar uma discussão.
— Então preferiste que a humilhação fosse minha.
João fez uma careta.
— Estás a levar isto demasiado a peito.
Ana soltou uma gargalhada curta. Não havia alegria nela. Foi apenas ar a sair-lhe do peito com violência.
— Que frase útil. Primeiro uma pessoa fica calada enquanto me insultam. Depois diz que eu é que exagero.
— Está bem, a culpa é minha. Satisfeita?
— Não.
Ele olhou-a, surpreendido.
— Como assim, não?
— Assim mesmo. Um “a culpa é minha” não chega. Eu preciso de atitudes.
João sentou-se à mesa e afastou para o lado o bloco de notas que a mãe tinha deixado.
— Que atitudes?
— A partir de amanhã, pagamos mesmo cada um a sua parte. Vou fazer uma lista das despesas fixas do apartamento. Metade fica por tua conta. A tua comida compras tu, ou então participas no orçamento comum antes. Se quiseres ajudar a tua mãe, ajudas. Mas não de maneira que, no fim, seja eu a tapar os buracos dos teus compromissos.
— Estás mesmo a propor que vivamos como colegas de casa?
— Não. Estou a tentar perceber se temos um casamento ou se eu sou apenas um serviço cómodo e gratuito.
João apertou os dedos contra o tampo da mesa. Não os lábios: os dedos. Com tanta força que as articulações ficaram brancas.
— Estás a rebaixar-me.
— Não, João. Estou a retirar a parte gratuita do meu cuidado, aquela que tu e a tua mãe decidiram chamar descaramento.
As palavras acertaram no ponto certo. Ele não teve resposta.
Nessa noite, deitaram-se na mesma cama, mas entre os dois parecia ter surgido uma divisória estreita e invisível. João virou-se de um lado para o outro durante muito tempo. Depois levantou-se e foi à cozinha beber água. Ana ouviu-o abrir o armário, tirar um copo, pousá-lo, regressar. Antes, teria perguntado se estava tudo bem. Dessa vez, não perguntou.
De manhã, Ana acordou mais cedo. Abriu a aplicação do banco, conferiu os últimos movimentos e passou para uma folha as despesas comuns. Não escreveu salários, não comparou capacidades, não discutiu quem ganhava mais ou menos. Apenas factos: água, luz, gás, condomínio, internet, alimentação, produtos de limpeza, pequenos arranjos, garrafões de água.
Quando João entrou na cozinha, encontrou a lista no centro da mesa.
— O que é isto? — perguntou.
— O nosso novo funcionamento.
Ele pegou na folha e leu por alto. A expressão foi mudando aos poucos: primeiro incredulidade, depois irritação, por fim uma confusão quase infantil.
— Até o detergente meteste aqui?
— Sim. O detergente não aparece sozinho.
— Ana, isto é ridículo.
— Ridículo foi a tua mãe ontem estar a contar as minhas compras pessoais. Hoje é só justo.
Ele largou a folha de novo sobre a mesa.
— Eu não vou viver preso a um papel.
— Então apresenta outra proposta.
— A proposta normal é esquecermos a conversa de ontem.
Ana serviu café para si. Pôs a cafeteira no lava-loiça, segurou a chávena com as duas mãos e encostou a anca à borda da mesa.
— Não.
Uma única palavra, curta e lisa, teve mais efeito do que um discurso inteiro. João olhou para ela como se, pela primeira vez, percebesse que ela não estava a negociar.
Os dias seguintes foram inesperadamente difíceis para ele.
Antes, chegava a casa, abria o frigorífico e tirava o que lhe apetecia. Agora havia uma caixa numa prateleira com uma etiqueta simples: “Ana”. Não era por vingança. Era para não haver confusões. Os produtos comuns ficavam separados, mas só apareciam depois de João transferir a parte dele.
Antes, atirava uma frase pelo ar:
— Tenho de passar numa loja para comprar umas coisas para o carro, depois devolvo-te.
E Ana pagava, porque era mais rápido e evitava conversa. Agora respondia:
— O carro é teu. Resolve tu.
Antes, Maria telefonava ao fim da tarde e anunciava:
— Amanhã passo aí, estou farta de estar sozinha em casa.
Agora Ana perguntava, sem alterar o tom:
— O João vai estar em casa?
