— E até já escolheu o quarto dela — acrescentou Ana.
João encolheu os ombros, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— E qual é o problema? O apartamento é grande. Cabe lá toda a gente.
— João, aquele apartamento é uma herança minha. O meu avô deixou-mo a mim, não à nossa família inteira.
— Lá estás tu outra vez! — atirou ele, irritado. — Que diferença faz? Somos marido e mulher!
— Não é essa a questão — tentou Ana, mantendo a voz firme. — Eu quero decidir por mim o que fazer com a casa. Talvez a arrendasse e ficasse com algum rendimento extra. Ou talvez a vendesse e aplicasse o dinheiro.
— Vendesses? — O rosto de João ficou vermelho. — Queres vender um T3 no centro? Perdeste o juízo?
— A decisão é minha.
— Não, é nossa! — elevou ele a voz. — Somos uma família! E a minha mãe tem razão: estás a portar-te como uma egoísta.
Ana pousou a faca com que cortava os legumes e voltou-se devagar para ele.
— Sabes que mais? Se sou assim tão egoísta, talvez seja melhor mudar-me sozinha para o apartamento do meu avô.
— Que disparate é esse? — perguntou João, atónito.
— Não é disparate nenhum. Fico lá uma ou duas semanas. Ponho a casa em ordem, vejo as coisas do meu avô e nós os dois descansamos um pouco um do outro.
João não respondeu. Virou costas e fechou-se no quarto, batendo a porta. Do outro lado da casa, voltaram a ouvir-se os lamentos de Maria.
Na manhã seguinte, Ana juntou o indispensável numa mala e foi-se embora. O apartamento do avô recebeu-a com silêncio e cheiro a livros antigos. Percorreu as divisões, uma a uma, lembrando-se das visitas da infância.
Os primeiros dias passaram entre limpezas, caixas e gavetas abertas. Ana estranhou, mas também saboreou, aquela solidão tranquila. Ninguém lhe perguntava o que havia para o jantar. Ninguém comentava a roupa que vestia. Ninguém ligava a televisão aos berros desde manhã cedo.
Ao quarto dia, a campainha tocou. Quando abriu a porta, encontrou Maria no patamar, radiante, com uma enorme mala de viagem na mão.
— Ana, minha querida! — exclamou a sogra. — Como estás aqui sozinha? Aposto que nem tens comida feita, nem isto está em condições!
E entrou sem esperar convite.
— Meu Deus, que horror! — disse, juntando as mãos ao olhar em volta do hall. — Este papel de parede tem de sair já. E o linóleo também. Está tudo velho, gasto, acabado!
— Eu gosto — respondeu Ana, seca. — Faz-me lembrar o meu avô.
— Lembranças são lembranças — concedeu Maria, abanando a cabeça. — Mas uma pessoa tem de viver decentemente. Vá, eu ajudo. Primeiro faço o almoço, depois traçamos um plano para as obras.
— Obrigada, mas não é preciso — disse Ana, com firmeza. — Eu trato de tudo.
— Ora essa! Desde quando é que uma nora recusa a ajuda da sogra? Somos família!
A palavra “família” já começava a provocar em Ana uma espécie de arrepio.
— Maria, eu vim para aqui precisamente para estar sozinha. Preciso de organizar a cabeça e perceber o que sinto.
— Perceber o quê? — admirou-se a outra. — Está tudo mais do que claro. Ficaste ofendida com o João e queres dar-lhe uma lição. Mas já chega. O meu menino está a sofrer.
O “menino” tinha trinta e dois anos, mas, para Maria, continuaria eternamente criança.
— Eu não estou ofendida — explicou Ana, com paciência. — Só quero perceber se desejo continuar a viver como vivi nos últimos anos.
Maria estreitou os olhos.
— E isso quer dizer o quê?
— Quer dizer viver com todas as minhas decisões postas em causa. Quer dizer nem poder dispor daquilo que herdei. Quer dizer ser chamada egoísta só por querer um espaço meu.
Maria deixou-se cair na cadeira do corredor e levou a mão ao peito, com ar teatral.
— Ai, sinto-me mal! Os meus comprimidos! Água!
Ana foi buscar um copo. A sogra bebeu dois goles e depois fitou-a, magoada e acusadora.
— Olha ao ponto a que chegámos. Estás a dar cabo de uma pessoa de idade.
— Maria, tem cinquenta e oito anos. Que pessoa de idade?
— Ah, então só se pode estar doente depois dos oitenta? — indignou-se ela. — Tenho a tensão alta, doem-me as articulações. Passei a vida inteira a contar convosco.
