“Abre, vamos mudar-nos para o teu apartamento!” contei eu, com ironia, enquanto já marcava o número da polícia

Histórias
Uma vitória amarga e profundamente injusta.

— E é assim que me pagam!

Ana soltou um suspiro cansado, sem forças para prolongar aquele teatro.

— Maria, por favor, vá para casa. Descanse um pouco.

— Para casa? — A sogra levantou-se de repente, como se a palavra a tivesse ofendido. — E onde é a minha casa, diz-me? Ao pé do meu filho, abandonado pela mulher? Naquele cubículo apertado?

— Isso é provisório — respondeu Ana, mantendo a voz firme. — Quando eu e o João resolvermos a nossa situação, tudo ficará decidido.

— E se não resolverem? — Maria apertou os olhos. — Se se divorciarem?

— Então cada um seguirá o seu caminho.

— E este apartamento fica para ti? O meu filho sai de mãos a abanar?

Ali estava. Finalmente, a verdadeira razão daquela visita vinha ao de cima.

— Este apartamento sempre foi meu — recordou Ana. — Foi o meu avô que mo deixou.

— Se amasses mesmo o João, punhas metade no nome dele! — disparou Maria. — Numa família decente, tudo é dos dois!

— Numa família decente, as pessoas respeitam o espaço umas das outras.

— Espaço? Que conversa é essa? — exaltou-se a sogra. — Agora inventam palavras bonitas para justificar egoísmo. Antigamente vivia tudo junto e ninguém falava dessas modernices.

— E as noras calavam-se e aguentavam — observou Ana.

— Ninguém aguentava nada! — ripostou Maria. — Sabiam era qual era o seu lugar e respeitavam os mais velhos.

A conversa morreu ali. Maria saiu quase a marchar, batendo a porta com força. Ana ficou sozinha, envolvida pelo silêncio do apartamento do avô.

Nessa noite, João telefonou-lhe.

— Ana, a minha mãe disse que a puseste na rua.

— Pedi-lhe que se fosse embora — corrigiu ela. — Não é bem a mesma coisa.

— Ela só queria ajudar.

— Eu não lhe pedi ajuda.

— Meu Deus, Ana! — A irritação transbordava-lhe da voz. — Que espécie de pessoa és tu? A minha mãe quer o nosso bem e tu tratas-a assim?

— João, a tua mãe quer o bem dela. Quer mandar na nossa vida.

— Isso é mentira.

— Não é. E tu sabes, só não queres admitir.

— Sabes que mais? — explodiu ele. — Fica aí sozinha o tempo que quiseres. E quando finalmente ganhares juízo, talvez eu já nem te aceite de volta.

Ana desligou com calma. As ameaças de João tinham deixado de lhe provocar medo.

Passou-se uma semana. Ana instalou-se no apartamento do avô, arranjou profissionais para pequenas obras e começou, devagar, a reorganizar a própria vida.

Na sexta-feira à noite, a campainha tocou com insistência, quebrando a paz da casa. Ana aproximou-se da porta e espreitou pelo óculo. No patamar estavam João e Maria. Ele trazia uma mala de desporto na mão.

— O que querem? — perguntou ela, sem abrir.

— Abre a porta. Temos de falar! — gritou João.

— Falem daí.

— Ana, não sejas ridícula. Trouxe as nossas coisas. Vamos mudar-nos para aí.

Ana ficou imóvel, a olhar para a porta.

— Quem é que se vai mudar?

— Eu e a minha mãe. Não eras tu que querias que ficássemos juntos?

— Eu queria esclarecer a nossa relação. Não queria brincar às mudanças em família.

— Ana, querida, abre lá — interveio Maria, com voz melosa. — Os vizinhos estão a ver.

— Que vejam. Vão-se embora.

— Este apartamento também é meu! — berrou João. — Somos marido e mulher. Tenho direito a viver aí!

— Não tens. A casa está em meu nome.

— Então chamo a polícia! — ameaçou ele.

— Chama — respondeu Ana, gelada.

Do outro lado ouviu-se um murmúrio abafado. Depois, Maria voltou a falar, já num tom mais doce:

— Ana, meu amor, não faças uma birra dessas. Abre, bebemos um chá e conversamos como pessoas civilizadas.

— Já conversámos. Vão para casa.

— Ana, estou a pedir-te pela última vez! — rugiu João. — Ou abres, ou arrombo a porta.

— Experimenta. Eu ligo à polícia e passas a noite na esquadra.

Seguiu-se novo sussurro. Depois, passos a afastarem-se. Ana esperou alguns minutos antes de voltar a espreitar. A escada estava vazia.

No dia seguinte, procurou um advogado. Era um homem de cabelo branco e olhar penetrante, que a escutou com atenção até ao fim.

— O seu marido não tem qualquer direito sobre este apartamento — afirmou ele, com segurança. — Trata-se de um bem próprio, recebido por herança antes do casamento.

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