“Ana, perdeste de vez a vergonha na cara ou estás só a fazer-te de sonsa?” — gritou a sogra desde a cozinha quando Ana abriu a porta

Histórias
Foi uma humilhação escandalosamente injusta e intolerável.

— Ana, perdeste de vez a vergonha na cara ou estás só a fazer-te de sonsa? — a voz da sogra rebentava vinda da cozinha como se aquele apartamento de duas assoalhadas, num bloco banal nos arredores de Lisboa, fosse uma sala de assembleias cheia de microfones.

Ana nem teve tempo de tirar a chave da fechadura. Ficou parada no hall, com um saco do supermercado numa mão e o portátil na outra. Dentro de casa havia um ruído espesso, estranho, invasivo: gargalhadas, talheres a bater nos pratos, bancos a arrastar no chão, uma tosse masculina, sacos de plástico a crepitar. E, por cima de tudo, aquele cheiro que lhe fazia a pálpebra tremer: perfume masculino barato, tabaco entranhado e frango frito.

No tapete da entrada estavam largadas umas botas enormes, que tinham empurrado para o lado os seus sapatos alinhados. Encostadas à parede, amontoavam-se malas aos quadrados, tão cheias que pareciam prontas a rebentar. Aquilo não tinha ar de visita. Tinha ar de desembarque.

Ana fechou a porta devagar, deixou a alça da mala escorregar do ombro e perguntou, alto o bastante para ser ouvida:

— Estou a perceber bem? Fizeram outra reunião na minha casa sem me convidarem?

Da cozinha veio logo uma voz animada:

— Ah, chegou! João, diz à tua mulher para não ficar aí no corredor, que entra frio!

Ana entrou na cozinha sem sequer tirar o casaco. E a cena que encontrou foi tão absurda que, por um instante, a cabeça dela ficou de uma clareza quase gelada.

À mesa, coberta com a toalha clara dela, estava Helena, sentada como presidente vitalícia da comissão da vida alheia. Ao lado, uma mulher pesada, na casa dos cinquenta e muitos, com uma camisola cor de framboesa, unhas berrantes e olhos de quem avaliava tudo para tomar posse. Junto à janela, num banco, encontrava-se João, o marido de Ana, roendo uma perna de frango com ar muito ocupado. No centro da mesa havia uma fita métrica, um lápis, um bloco de notas e um catálogo de mobiliário aberto. A jarra dela, com ramos secos decorativos, tinha sido empurrada para junto do lava-loiça, mesmo ao lado de uma taça onde alguém deixara uma colher engordurada.

— Pronto, apareceu a dona da casa — disse a sogra, toda expedita, sem se levantar. — Já agora, estamos a tratar de assuntos importantes.

— Estou a ver — respondeu Ana. — Sobretudo pela fita métrica e pelo frango, nota-se logo que não andam aqui a perder tempo. Só gostava que me explicassem que assunto é esse que estão a resolver dentro do meu apartamento.

A mulher da camisola cor de framboesa abriu um sorriso como se fossem amigas de infância.

— Eu sou a Maria, tia do João. Isto é tudo em família. Não somos estranhos.

— Que maravilha — disse Ana, inclinando ligeiramente a cabeça. — Então, já que é tudo tão familiar, expliquem-me por que razão está sentada na minha cozinha uma pessoa que eu nunca vi na vida.

Helena fez um gesto impaciente com a mão.

— Lá estás tu a começar mal, ainda nem tiraste o casaco. Sempre disse que tens um feitio que parece lixa. Podíamos sentar-nos e conversar como gente civilizada. Estamos a falar de coisas normais. Coisas da vida.

— Ótimo. Falemos com calma, então. Sobre o quê?

João, sem levantar os olhos do prato, resmungou:

— Ana, não comeces logo aos gritos.

— Eu ainda nem comecei — respondeu ela. — Isto é só o motor ao ralenti. O programa principal vem a seguir.

A sogra puxou o bloco para mais perto e bateu com o dedo em cima dele.

— Vou dizer-te sem rodeios, porque não tenho paciência para essas tuas manias de escritório. Vocês vivem de qualquer maneira. Esta casa está mal aproveitada. O corredor é comprido e não serve para nada. A cozinha está entupida de tralha. Não há sítio para guardar coisas. E o João, convém lembrar, também mora aqui. Tem o direito de se sentir dono da casa, não um hóspede tolerado.

— Foi isso que ele te disse? — Ana fixou o marido.

João encolheu os ombros.

— E não é verdade?

— Portanto, estás sentado num apartamento que eu já tinha antes de casar, a comer o meu frango, e ainda te falta sensação de proprietário?

— Não comeces — disse ele, franzindo a cara. — Contigo tudo acaba sempre em discussão.

— E querias que isto acabasse em quê? Num concurso de decoração? Tenho uma fita métrica em cima da mesa. Tenho uma colher alheia no lava-loiça. Tenho umas botas tamanho quarenta e cinco no meu tapete. Ou isto é uma discussão, ou é uma telenovela.

A tia Maria soltou um riso curto enquanto se servia de compota do jarro dela.

— Graça não te falta, rapariga. Mas família não é espetáculo de comédia.

— Já aparecer com malas e intenção de ficar deve ser digressão, então — cortou Ana.

Helena inclinou-se para a frente, já irritada.

— Chega de veneno. Ouve bem. Nós conversámos e chegámos à conclusão de que este apartamento deve ser posto em condições como deve ser.

— Em condições como?

— Como gente normal faz. Metade em nome do João. Ou, melhor ainda, uma doação completa para ele. Vocês são marido e mulher. Pessoas decentes fazem assim quando pensam viver juntas muitos anos, em vez de andarem nessa brincadeira do “isto é meu, não toques”.

Durante um segundo, a cozinha mergulhou num silêncio tão pesado que se ouvia a torneira a pingar na casa de banho.

Ana olhou para a sogra. Depois para João. Em seguida, para a tia Maria. E voltou a olhar para o marido.

— Esperem lá. Quero ter a certeza de que ouvi bem este disparate. Vocês entram na minha casa, espalham instrumentos em cima da minha mesa, trazem público para assistir e decidem que eu devo passar para o nome do meu marido um apartamento que já era meu antes do casamento?

— Entramos? — indignou-se Helena de imediato. — O meu filho tem chave.

— Por pouco tempo — disse Ana, com uma calma afiada.

João levantou finalmente os olhos.

— Porque é que estás a olhar assim? É uma conversa normal. Somos família. A minha mãe tem razão: até quando vou viver aqui como se não fosse ninguém?

— E o que és tu aqui, João?

— Sou teu marido.

— Marido não é uma medalha que se usa sentado num banco. É atitude. É responsabilidade. É, no mínimo, ser capaz de dizer à mãe: “Mãe, trava, esta casa não é tua.” Mas tu ficas aí a mastigar enquanto decidem a melhor forma de me passar a perna com elegância.

— Ninguém te está a passar a perna — murmurou ele. — Não faças drama.

— Claro que não. Vieram só três pessoas com malas, catálogo de móveis e fita métrica por puro amor à arquitetura.

A tia Maria pousou a caneca na mesa.

— Olha que eu não vim para me divertir. Preciso de ficar algures durante um mês. Estou à procura de trabalho. E vocês têm espaço. Além disso, eu ajudava: obras, limpezas, comida. Não seria só encosto.

Ana virou-se devagar para ela.

— Desculpe, mas quem é que a convidou?

— Como assim, quem? A família.

— A família de quem?

A tia Maria abriu a boca, mas Helena antecipou-se:

— A família do João. E tu agora és mulher dele. Logo, também é a tua.

— Não, Helena — a voz de Ana tornou-se lisa, quase sem emoção. — Não me venha agora com esse circo das almas aparentadas. Vocês não são família só porque entram pela porta a dizer que vêm ajudar.

Casa da Encarnação