“Ana, perdeste de vez a vergonha na cara ou estás só a fazer-te de sonsa?” — gritou a sogra desde a cozinha quando Ana abriu a porta

Histórias
Foi uma humilhação escandalosamente injusta e intolerável.

São “família” quando há metros quadrados para arrancar, malas para instalar e direitos para exigir.

— Olha lá como falas! — Helena incendiou-se de imediato. — Eu só quero o vosso bem! Achas que me dá gosto ver o meu filho a viver numa casa alheia, como se estivesse ali de favor?

— Ele não está de favor. Está na posição de um homem adulto que, há dois anos, promete que “qualquer dia começa a ganhar mais”, mas que, curiosamente, antes de cada ordenado acaba sempre a pedir dinheiro à mulher.

João pousou o osso no prato com um estalido seco.

— Para que é que estás a trazer isso agora?

— Porque me cansei de fingir que isto é tudo muito equilibrado. E já que resolveram convocar esta assembleia familiar, ao menos tiremos a decoração do palco. Quem paga as contas da casa? Eu. Quem ajudou a liquidar a prestação atrasada da casa da tua mãe no outono passado? Eu. Queres que te recorde os valores? O carro de quem foi arranjado à minha custa porque “no trabalho atrasaram o pagamento”? Também fui eu. E agora ainda tenho de ouvir que o pobre menino não se sente dono de nada.

— Estás a atirar-me isso à cara? — João levantou-se de um salto. — A sério?

— Não. Estou a descrever a realidade. Há uma diferença.

Helena bateu com a palma da mão na mesa.

— Tu esmagaste-o com dinheiro! É isso que tu és! Para ti tudo se mede em recibos e transferências. Uma mulher deve respeitar o marido, não andar a fazer-lhe contabilidade!

— Uma mulher não deve coisa nenhuma a ninguém quando tentam fazê-la passar por parva dentro da própria cozinha — cortou Ana, sem levantar a voz. — E poupem-me às palestras sobre “como uma casa deve funcionar”. Mandem na vossa. Aqui, não.

A tia Maria abriu um sorriso nervoso, daqueles que pedem paz sem largar o prato.

— Também não vale a pena ficarem logo assim, de unhas de fora. Isto podia resolver-se com calma. Passava-se uma parte para o nome dele e pronto. O João ficava mais seguro. Tu ficavas descansada. A Helena punha a alma em sossego. E ainda se fazia a obra.

Ana soltou uma pequena gargalhada, sem alegria.

— O que mais me enternece é esse “e ainda se fazia a obra”. Pelo menos já desenharam o plano todo? Primeiro uma quota da casa, depois a morada oficial, a seguir “a tia Maria fica só uns tempos”, depois “é só um armário, nem ocupa nada”, depois “vamos fechar a varanda, o dinheiro é dos dois”, e no fim ainda me explicam que eu sou mesquinha e ingrata?

João fez uma careta.

— Vês? É por isso que não dá para falar contigo. Procuras sempre uma armadilha.

— Porque, normalmente, a armadilha já está sentada à mesa a acabar o frango.

Ele deu um passo na direção dela.

— Estás a passar dos limites.

— Não, João. Passar dos limites é a tua mãe medir a casa da tua mulher, com a tua mulher viva e presente, e decidir que paredes se deitam abaixo. Eu, por enquanto, só estou a chamar as coisas pelo nome.

Helena ergueu-se, fincando as mãos na cintura.

— Então ouve bem. Ou deixas de armar em dona de quinta, ou esse casamento não vai durar muito.

— Isso é uma ameaça? — Ana arqueou uma sobrancelha.

— É um aviso. Homem nenhum fica muito tempo num sítio onde lhe lembram todos os dias que nada lhe pertence.

— Ah, sim? E não conta o facto de ele próprio nunca ter apresentado uma proposta que não viesse mastigada pela mãe?

— Eu apresentei! — explodiu João. — Disse que devíamos viver como pessoas normais! Sem esse teu eterno “isto é meu, isto era da minha avó, nisso não mexas”. O que sou eu aqui, o guarda de um museu?

— Não és guarda de museu. És uma pessoa que confundiu casamento com entrada gratuita num imóvel.

— Então engasga-te com a tua querida casa!

— Perfeito. Assim o assunto fica encerrado.

Ana pousou o saco no parapeito da janela, abriu o armário do corredor e começou a retirar, uma a uma, as coisas de João. O casaco foi para o chão. As calças de ganga, para cima dele. O saco de desporto caiu-lhe aos pés. A caixa onde ele guardava cabos, carregadores e pequenas tralhas ficou por cima, como uma tampa improvisada.

— Que raio estás a fazer? — perguntou ele, atónito.

— Estou a ajudar-te a recuperar o conforto espiritual. Se aqui te sentes tão deslocado, vai para onde te reconhecem como dono mal entras. Para casa da tua mãe.

— Ana! — gritou Helena. — Perdeste o juízo?

— Pelo contrário. Acho que nunca estive tão lúcida nos últimos cinco anos.

— Estás a pôr o teu marido na rua?

— Não, Helena. Estou a retirar de dentro da minha casa um problema que vocês insistiam em chamar família.

João avançou para o armário e agarrou a manga do casaco.

— Para com esta palhaçada.

— A palhaçada acabou no minuto em que decidiram repartir a minha casa sem me perguntar. Agora é só a cena final. Saída dos artistas pela esquerda.

A tia Maria foi a primeira a levantar-se.

— Eu, se calhar, vou andando. Sinceramente, estas confusões não são para mim.

— Sensato da sua parte — Ana acenou com a cabeça. — E não se esqueça das malas. São tão expressivas que estragam logo o ambiente.

Helena ficou vermelha até ao pescoço.

— Mas quem julgas tu que és para falar assim comigo? Tenho o dobro da tua idade!

— E daí? A idade devia trazer tato, não descaramento.

— Ingrata! Nós viemos de coração aberto!

— De coração aberto costuma vir-se com um bolo e tocando à campainha. Não com fita métrica e um plano para enfiar alguém cá dentro durante um mês.

João tentou segurá-la pelo cotovelo.

— Vamos falar com calma. Sem cenas. Ainda se pode discutir tudo.

Ana soltou o braço de imediato, como se se tivesse queimado.

— Tarde demais. Com calma podia ter sido ontem. Anteontem. Na semana passada. Quando podias ter dito: “Mãe, não te metas.” Não disseste nada. Ficastes todos à espera que eu engolisse. Pois não engulo.

— Estás a dramatizar.

— E tu estás a fazer-te pequeno. Por meia casa, vendeste-te inteiro, banco incluído.

Ele riu-se, seco e venenoso.

— Claro. Eu sou logo um vendido. E tu és a santa da história.

— Não. Sou uma mulher cansada. E furiosa. Ainda assim, é mais honesto do que o vosso teatro familiar.

Helena quase sibilava:

— Vais acabar sozinha. Com esse feitio, ninguém te aguenta.

— Ótimo. Pelo menos ninguém vai medir o meu corredor para ver onde cabe um roupeiro.

— Quem é que te vai querer?

— Hoje, de certeza que não vocês. E isso já é uma festa.

A tia Maria, parada no hall, murmurou:

— João, anda lá. Para quê prolongar isto?

Mas João não se mexeu. Ficou a olhar para Ana como se a visse pela primeira vez.

— Então é isto? Acaba assim? Por causa de uma conversa?

— Não, João. Não é por causa de uma conversa. É por tua causa. Porque não és um marido, és um anexo da tua mãe. Porque, perante qualquer coisa séria, a tua resposta é sempre: “Ana, não te enerves.” Porque te dá jeito viver à minha custa e ainda ficar ofendido por eu não te entregar, de uma vez, as chaves de tudo. Porque nem agora consegues perceber qual é o problema.

João agarrou na mala com uma fúria muda.

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