“Vais desocupar a casa da aldeia. A minha família vai mudar-se para lá” — anunciou a sogra, deixando Ana atónita junto ao lavatório de verão

Histórias
Inaceitável e doloroso: tomar-lhe o refúgio sagrado.

Ao ficar diante daquelas caixas, Ana deu por si a imaginar, sem querer, uma certa Beatriz a circular pela casa como se fosse dona daquilo tudo: toalhas penduradas onde lhe apetecesse, sacos estranhos espalhados pelo chão, crianças trepadas a um banco para espreitarem pela janela. E, mais tarde ou mais cedo, a frase inevitável: “Nós agora já estamos instalados.”

A imagem teve nela mais efeito do que uma chávena de café forte. Pegou no telemóvel e ligou a um serralheiro da vila, o mesmo que no outono lhe tinha colocado um trinco novo no portão.

— Consegue passar cá amanhã? — perguntou, sem rodeios. — Preciso de trocar a fechadura da porta principal. E também a do barracão.

— Depois do almoço consigo — respondeu ele.

— Fico à sua espera.

No dia seguinte, recebeu o homem junto ao portão, mostrou-lhe exatamente o que queria substituído e acompanhou o trabalho até ao fim. Fez questão de ver as fechaduras antigas saírem dali nas mãos dele. Só depois foi a casa de Catarina, a vizinha que vivia o ano inteiro duas portas abaixo.

— Catarina, se vir alguém junto ao meu quintal com malas ou sacos, ligue-me logo. Sobretudo se disserem que têm autorização.

A mulher levou as mãos ao peito, aflita.

— Olha que eu ia mesmo falar contigo! A tua sogra esteve cá no sábado passado. E não veio sozinha. Trazia uma mulher e um rapaz. Ficaram ali encostados à vedação, a apontar para o terreno, a falar da horta, do anexo… Eu pensei que tu soubesses.

Ana ficou calada durante alguns segundos, com os olhos presos na vizinha. Nesse instante, as peças encaixaram todas. Não tinha sido uma conversa espontânea, nem uma ideia mal explicada, nem uma grosseria dita no calor do momento. Eles já tinham mostrado a casa. Já tinham levado gente até ao portão. Já tinham discutido a melhor maneira de se acomodarem ali.

— Obrigada por me contar — disse ela, num tom baixo.

Regressou à cidade já tarde. O apartamento era dela, comprado antes do casamento, um T2 simples, mas seu. Depois de casarem, João fora viver para lá, e durante muito tempo isso parecera a coisa mais natural do mundo. Agora, porém, tudo adquiria outro sentido. Nos últimos tempos, ele começara a portar-se demasiadas vezes como se aquilo que pertencia a Ana estivesse automaticamente à disposição dele. Não apenas a casa da aldeia. Também as horas dela, a energia dela, a paz dela.

João esperava-a no corredor.

— Porque é que não atendias o telefone?

— Estava ocupada.

— A minha mãe ficou ofendida, já agora.

Ana despiu o casaco devagar, pendurou-o no cabide e só então olhou para o marido.

— Mudei as fechaduras.

Ele pestanejou, sem compreender de imediato.

— Que fechaduras?

— As da casa. E as do barracão. Ninguém mais tem chaves.

— Tu estás boa da cabeça? — A voz dele subiu. — Para quê este teatro?

— Porque a tua mãe anda a levar pessoas lá e a mostrar-lhes o meu terreno. A vizinha contou-me.

João hesitou por uma fração de segundo. Bastou isso para Ana confirmar tudo.

— Portanto, tu sabias — disse ela.

— Não é bem saber… A minha mãe pediu-me para lá passar, só para ver. Eu não pensei que fosses reagir como uma louca.

— Eu não reagi como uma louca. Apenas não vou permitir que me façam de parva.

Ele entrou na cozinha, abriu o frigorífico, tirou uma garrafa de água e bebeu alguns goles. Quando voltou a falar, já não tentava disfarçar a irritação.

— Ana, tu levas sempre tudo ao limite. Podias ter ajudado como uma pessoa normal. Nem sequer vives lá o ano inteiro. Custava-te assim tanto?

Ela encostou o ombro ao aro da porta. O rosto permaneceu imóvel, mas os dedos apertaram-se com força.

— Custar? Não. O que me enoja é terem decidido pelas minhas costas que o que é meu passa a ser de todos, e o que é de todos passa a ser da tua mãe. É isso que me enoja.

— Lá estás tu outra vez.

— Não, João. Quem começou foste tu, no momento em que levaste a tua mãe a visitar uma casa alheia como se fosse alojamento disponível.

Ele pousou a garrafa na mesa com tanta força que a água transbordou pelo gargalo.

— Alheia, alheia… Então eu sou o quê para ti? Um estranho?

— És o meu marido. Alguém que devia proteger os meus limites, não servir de intermediário numa ocupação.

— Que palavras bonitas…

— São palavras exatas.

Ana foi para o quarto, abriu o roupeiro e puxou uma mala de viagem.

— Que estás a fazer? — perguntou ele, brusco.

— A juntar as tuas coisas. Hoje dormes em casa da tua mãe.

— Perdeste completamente o juízo?

— Não. Finalmente deixei de fingir que isto não foi grave.

Ele avançou um passo na direção dela.

— Tu não tens o direito de me pôr fora.

Ana virou-se com tal firmeza que ele parou sozinho.

— Este apartamento é meu. Foi comprado antes do casamento. E vais sair daqui agora, sem cenas. Se preferires, chamo a polícia e explico que há uma pessoa a recusar-se a abandonar a casa da proprietária depois de um conflito.

João ficou a olhá-la como se a visse pela primeira vez. Talvez fosse mesmo isso. Antes, Ana tinha engolido demasiadas coisas. Calara-se quando a sogra criticava a comida dela. Não discutira quando Maria aparecia sem avisar. Suportara as vezes em que João prometia ir ajudá-la na aldeia e, à última hora, arranjava sempre uma urgência mais importante. De cedência em cedência, sem se aperceber, transformara-se aos olhos daquela família numa mulher que aguentava tudo.

— Por causa da casa? — perguntou ele, com a voz abafada. — Vais destruir a nossa família por causa de uma casa?

— Não é por causa da casa. É porque achaste que podias dispor de uma coisa que não te pertence. Hoje é a casa. Amanhã será o quê? Quem mais vais enfiar na minha vida só porque a tua mãe quer?

Ele ainda tentou discutir. Disse que Ana era exagerada, que tudo podia ter sido resolvido de outra forma, que a mãe apenas queria ajudar familiares. Mas, enquanto falava, ia metendo roupa na mala. Abria gavetas com estrondo, atirava camisolas lá para dentro, fazia barulho de propósito, como se o ruído pudesse substituir argumentos.

Ana não o impediu. Ficou junto à janela, a ouvir, e a certa altura percebeu que não sentia nem pena nem medo. Apenas um cansaço antigo, acumulado por anos de fingimento.

Antes de sair, João largou as chaves em cima da cómoda do hall.

— Quando arrefeceres a cabeça, liga-me.

— Não fiques à espera — respondeu ela.

A porta fechou-se. Ana rodou a fechadura de imediato e retirou a chave do lado de dentro. Depois aproximou-se da cómoda, recolheu o molho que ele deixara, guardou-o numa gaveta e só então se sentou. Não caiu no chão, não chorou em desespero, não fez nenhuma cena digna de novela. Sentou-se simplesmente no banco estreito do corredor.

Durante alguns minutos permaneceu imóvel. Depois ergueu a cabeça, viu o próprio reflexo no vidro escuro e soltou uma breve gargalhada seca, quase amarga. Era aquilo, afinal. Bastava uma única vez não ficar calada para as pessoas se lembrarem depressa do que era delas e do que pertencia aos outros.

No dia seguinte, foi Maria quem telefonou.

— Mas tu pensas que és quem? — começou, sem sequer dizer bom dia. — O João passou a noite na minha casa por causa das tuas manias.

— Não foi por causa das minhas. Foi por causa das dele.

— Não dás valor nenhum ao teu marido. Por causa de uma casinha, armaste este drama todo.

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