“Vais desocupar a casa da aldeia. A minha família vai mudar-se para lá” — anunciou a sogra, deixando Ana atónita junto ao lavatório de verão

Histórias
Inaceitável e doloroso: tomar-lhe o refúgio sagrado.

Maria apressou-se então a preencher aquele silêncio, como se bastasse explicar melhor para tudo ficar decidido.

— A Beatriz está numa situação muito complicada. Anda de casa em casa com duas crianças, sempre em quartos alugados. O marido passa a vida fora, ajuda pouco ou nada. Aqui, pelo menos, está tudo pronto. A casa passa quase sempre vazia. Tu vens cá só de vez em quando. Não faz sentido deixar uma coisa destas parada.

Ana virou lentamente os olhos para o marido.

— João?

Ele pigarreou, esfregou a cana do nariz e respondeu num tom quase prático, como se não estivessem a falar de pôr estranhos dentro da casa dela, mas apenas de mudar uns sacos de terra para debaixo do alpendre.

— Ana, não comeces logo a enervar-te. A minha mãe tem razão numa coisa: a casa está mesmo vazia a maior parte do tempo. E a Beatriz tem filhos, as crianças precisam de ar puro. Ficavam cá uns tempos, tomavam conta disto. Até te facilitava a vida.

Ana afastou a chávena. A loiça raspou na madeira da mesa.

— Quem é a Beatriz? — perguntou.

— Filha de uma prima minha — adiantou Maria, depressa. — Não é gente de fora.

— Para si talvez não seja. Para mim, é.

— Também não precisas de reagir assim — disse a sogra, franzindo a cara. — Família é família.

Ana levantou-se. Não o fez de forma teatral nem brusca. Apenas se pôs de pé, foi até à janela e ficou a olhar para o quintal, onde uma caixa de mudas, retirada da estufa, repousava junto ao muro. Sentia o rosto a endurecer por dentro, como se o sangue lhe pesasse nas faces. Sabia que, se falasse mais um pouco, a voz sairia fria. E isso não a assustava. Havia momentos em que só assim certas pessoas percebiam.

— Então vamos esclarecer uma coisa — disse, sem se voltar. — Quem convidou alguém para vir morar na minha casa?

Atrás dela, fez-se uma pausa curta.

— Bem… nós falámos sobre isso — respondeu Maria, já menos segura. — Eu e o João. Ele é teu marido, também se preocupa.

Ana virou-se.

— Não perguntei com quem falaram. Perguntei quem convidou.

João acabou por erguer a cabeça, mas não teve coragem de a encarar.

— Eu disse à mãe que se podia pensar no assunto — murmurou. — Só pensar, Ana. Sem fazer uma cena.

— Sem fazer uma cena? — repetiu ela. — Vieram à minha casa herdada, olharam para o quintal, para os quartos, para o barracão, para o anexo, discutiram onde pôr camas de gente estranha, e a tua mãe já fala em datas de mudança. Chamas a isso pensar?

Maria perdeu parte daquela segurança com que tinha entrado. A voz mandona abriu uma fenda, embora ela ainda tentasse manter a postura.

— Mas qual é o problema? Estou a falar como gente. Não estamos a pôr ninguém na rua, pelo contrário. A casa ficava vigiada. No inverno, tens aqui alguém? Não tens. Assim havia pessoas a viver, acendiam o lume, limpavam a neve se fosse preciso, olhavam pelo terreno.

— Pelo meu terreno? — Ana inclinou ligeiramente a cabeça. — E por que motivo?

— Porque eles estão aflitos.

— Metade do país está aflita. Isso não dá a ninguém o direito de entrar numa casa que não é sua e distribuir quartos enquanto a dona lava chávenas na cozinha.

João mexeu os ombros, incomodado.

— Não fales assim com a minha mãe.

— E como devo falar? Fico a ouvir os dois a disporem do que é meu e ainda aceno com a cabeça?

— Lá estás tu outra vez com “o que é meu” — disse ele, irritado. — Somos uma família.

O olhar que Ana lhe lançou cortou-lhe a frase ao meio. Ela detestava quando aquela palavra era usada como cobertor para tapar abuso e atrevimento.

— Precisamente por seres meu marido, devias ter sido o primeiro a dizer à tua mãe: não, isto não se decide sem a Ana. Em vez disso, trouxeste-a cá para lhe mostrar a casa.

Maria suspirou alto e tentou recuperar terreno:

— Estás a complicar porquê? Ninguém vem para sempre. Era por algum tempo. No outono, se quiserem, procuram outra coisa. Ou talvez a vida deles melhore. Estás a falar como se isto fosse um palácio.

— Não estou a falar de palácio nenhum. Estou a falar da minha casa. Da casa que herdei da tia Helena, que legalizei, arranjei e mantenho. E ninguém se instala aqui só porque isso vos dá jeito.

— Portanto, não queres ajudar? — perguntou a sogra, semicerrando os olhos.

— Se quero ou não quero, essa pergunta nem sequer lhe pertence. A senhora não veio pedir. Veio mandar.

João levantou-se de repente.

— Ana, vamos conversar com calma. A mãe falou mal, pronto. Mas podemos discutir isto normalmente.

— O momento de discutir era antes de ela começar a escolher o quarto das crianças.

Maria soltou um riso seco.

— Que sensibilidade. Agarras-te logo às palavras.

— Não me agarrei às palavras. Agarrei-me ao significado.

Ana caminhou até ao cabide, retirou do gancho um molho de chaves e pousou-o diante do marido.

— Estas eram as chaves que tinhas para alguma emergência, não eram?

João assentiu.

— Entrega-me as outras.

— Agora?

— Agora.

Ele tirou uma chave do bolso e colocou-a ao lado das restantes. O metal bateu na mesa com um tilintar breve. Ana recolheu os dois conjuntos na palma da mão e, já sem levantar a voz, continuou com uma serenidade quase dura:

— Hoje almoçam e vão-se embora. A partir de agora, ninguém aparece aqui sem telefonar primeiro. Eu não convidei ninguém para vir ver a casa. Não autorizei ninguém a viver nela. Se alguém da vossa família já fez planos para se mudar para cá, transmitam-lhe a resposta: não.

— Olhem só, que grande proprietária nos saiu — murmurou Maria, entre dentes.

— Sim. Proprietária. Exatamente.

Depois daquilo, a conversa nunca mais voltou ao tom de antes. Maria deixou de elogiar as divisões espaçosas. João parou de fingir que tudo acabaria por se resolver sozinho. Continuavam sentados na cozinha dela, mas a confiança com que tinham atravessado aquela porta tinha desaparecido.

O almoço decorreu preso e desagradável. Maria tentou duas vezes falar do tempo e das mudas no quintal, mas perdia-se a meio das frases e calava-se. João mastigava sem quase levantar os olhos do prato. Ana levantou a mesa, levou os restos para as galinhas e, quando regressou, encontrou a sogra já no corredor, a ajeitar nervosamente as mangas do casaco.

— É melhor irmos andando — disse Maria. — Daqui a pouco fica tarde.

Ana não disse “boa viagem” com a ironia que lhe veio à cabeça. Limitou-se a acenar e abriu a porta.

Quando o carro desapareceu depois da curva, ficou ainda muito tempo junto ao portão. O ar cheirava a terra húmida e ao fumo da lareira de algum vizinho. O dia era o mesmo, o terreno também, a casa não mudara de lugar; ainda assim, dentro dela, qualquer coisa se tinha deslocado. Não era apenas por Maria ter ido longe demais. A isso, Ana já estava habituada há anos. O pior era outra coisa: João sabia de tudo. Mais do que saber, tinha participado.

Ao cair da tarde, percorreu a casa uma vez mais. Fechou as janelas, verificou o barracão e o anexo. Na prateleira de cima da despensa, onde quase nunca mexia, encontrou caixas cuidadosamente arrumadas com loiça de criança, que a tia Helena guardara em tempos para a filha de uma vizinha.

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