“Vais deixar livre a casa da aldeia” — anunciou a sogra; Ana ficou imóvel junto ao lavatório, atônita

Histórias
O gesto cruel soou traiçoeiro e profundamente injusto.

Aproveitou, por isso, para avançar, como se já tivesse encontrado a brecha por onde enfiar a decisão.

— A Sara está numa situação muito complicada. Anda de casa em casa, sempre em quartos arrendados, com duas crianças atrás. O marido passa a vida fora, pouco ou nada ajuda. Aqui, pelo contrário, está tudo pronto. A casa fica vazia quase o ano inteiro. Tu vens cá de vez em quando, mais nada. Não faz sentido deixar uma coisa destas ao abandono.

Ana desviou lentamente os olhos para o marido.

— João?

Ele pigarreou, esfregou a zona entre as sobrancelhas e falou num tom quase prático, como se não estivessem a discutir a entrada de estranhos na casa dela, mas apenas a mudança de uns sacos de terra para debaixo do alpendre.

— Ana, não comeces já a irritar-te. A minha mãe tem alguma razão. A casa passa mesmo muito tempo sem ninguém. E a Sara tem filhos, as crianças precisam de ar puro. Ficavam cá por uns tempos, tomavam conta disto, davam uma vista de olhos ao terreno. Até te tiravam trabalho de cima.

Ana afastou a caneca. O barro raspou na madeira da mesa.

— Quem é a Sara? — perguntou.

— Filha de uma prima minha — apressou-se Maria a responder. — Não é gente de fora.

— Para si, talvez não seja. Para mim, é.

— Também não precisas de levar tudo a peito logo à primeira — retorquiu a sogra, franzindo o rosto. — Família é família.

Ana levantou-se. Não o fez de rompante nem para causar efeito. Limitou-se a pôr-se de pé, caminhou até à janela e ficou a olhar para o quintal, onde se via uma caixa de mudas retirada da estufa. Sentia o rosto endurecer, como se uma camada pesada lhe assentasse sobre a pele, e sabia que, dentro de instantes, a voz lhe sairia mais fria. Não se assustava com isso. Havia alturas em que só assim certas pessoas percebiam.

— Vamos então esclarecer uma coisa — disse, sem se voltar. — Quem é que autorizou alguém a vir morar na minha casa?

Atrás dela instalou-se uma pausa breve.

— Bem… nós falámos sobre isso — respondeu Maria, agora com menos segurança. — Eu e o João. Ele é teu marido, não lhe pode ser indiferente.

Ana virou-se.

— Eu não perguntei com quem conversaram. Perguntei quem convidou.

João, por fim, ergueu a cabeça, mas evitou encarar a mulher.

— Eu disse à mãe que se podia pensar no assunto — murmurou. — Só pensar, Ana. Sem fazer uma cena.

— Sem fazer uma cena? — repetiu ela. — Vieram à minha casa herdada, observaram o quintal, os quartos, o anexo, a casa de banho antiga, combinaram onde se podiam pôr camas de outras pessoas, e a tua mãe já fala em datas para a mudança. É a isso que chamas pensar?

Maria perdeu parte da imponência. A voz mandona com que entrara naquela cozinha abriu uma fissura, embora ela ainda tentasse manter a pose.

— Mas qual é o problema? Estou a falar como gente. Não estamos a pôr ninguém na rua, pelo contrário. A casa ficava vigiada. No inverno, tens aqui alguém? Não tens. Assim, havia pessoas dentro, acendiam o fogão, limpavam a neve, tomavam conta do pátio.

— Do meu pátio? — Ana inclinou ligeiramente a cabeça. — E por que motivo?

— Porque eles estão a passar dificuldades.

— Metade do país passa dificuldades. Isso não dá a ninguém o direito de entrar numa casa alheia e distribuir divisões enquanto a dona está na cozinha a lavar canecas.

João mexeu o ombro, incomodado.

— Não fales assim com a minha mãe.

— E como devo falar? Devo ouvir-vos aos dois a decidirem sobre aquilo que é meu e ainda abanar a cabeça?

— Lá estás tu outra vez com o “meu” e o “meu” — disse ele, já irritado. — Somos uma família.

Ana lançou-lhe um olhar tão duro que ele se calou a meio da frase. Detestava quando essa palavra era usada como cobertor para tapar abusos.

— Precisamente por seres meu marido, devias ter sido o primeiro a dizer à tua mãe: não, sem a Ana isto não se decide. Em vez disso, trouxeste-a cá para lhe mostrar a casa.

Maria suspirou ruidosamente e tentou recuperar o ataque:

— Estás a complicar a vida a quem? Não é para sempre, é só por algum tempo. No outono, se quiserem, arranjam outra coisa. Ou pode ser que até lá a situação deles melhore. Falas como se isto fosse um palácio.

— Não estou a falar de palácio nenhum. Estou a falar da minha casa. Da casa que recebi da minha tia, que legalizei, que arranjei, que tenho mantido. E ninguém se instala aqui só porque isso dá jeito à senhora ou a quem quer que seja.

— Quer dizer que não queres ajudar? — perguntou a sogra, estreitando os olhos.

— Querer ou não querer não é sequer uma questão que lhe caiba colocar. A senhora não veio pedir. Veio mandar.

João levantou-se de repente.

— Ana, vamos falar com calma. Está bem, a mãe expressou-se mal. Mas podemos conversar como pessoas civilizadas.

— A conversa devia ter acontecido antes de ela começar a escolher um quarto para as crianças.

Maria soltou um muxoxo.

— Que delicadeza. Agarras-te logo às palavras.

— Não me agarrei às palavras. Agarrei-me ao significado.

Ana atravessou a cozinha até ao cabide, tirou do gancho o molho de chaves e pousou-o diante do marido.

— Estas são as chaves que tinhas para uma emergência, não são?

João assentiu.

— Entrega as tuas.

— Agora?

— Sim. Agora.

Ele meteu a mão no bolso, retirou uma chave e colocou-a ao lado das outras, sem dizer nada. O metal bateu na madeira com um som curto. Ana fechou os dois molhos na palma da mão e continuou, agora de uma serenidade quase absoluta, sem qualquer excesso na voz:

— Hoje almoçam e vão-se embora. A partir de agora, ninguém aparece aqui sem telefonar antes. Eu não convidei ninguém para vir ver a casa. Não autorizei ninguém a viver aqui. Se alguém da vossa família já se convenceu de que pode mudar-se para cá, façam o favor de lhe transmitir a resposta: não.

— Ora vejam lá a grande proprietária que nos saiu — soltou Maria entre dentes.

— Sim. Proprietária. Exatamente.

Depois disso, a conversa perdeu por completo o tom de antes. Maria já não mencionou divisões espaçosas nem vantagens para toda a gente. João deixou de fingir que aquilo se resolveria sozinho, como tantas outras coisas. Continuavam sentados na cozinha de Ana, mas a confiança com que tinham atravessado a porta daquela casa desaparecera.

O almoço decorreu num desconforto pegajoso. Maria ainda tentou, duas ou três vezes, falar do tempo, das sementeiras e das mudas, mas a própria voz lhe falhava e ela acabava por se calar. João mastigava sem quase levantar os olhos do prato. Ana retirou a loiça, levou as sobras para as galinhas, voltou para dentro e encontrou a sogra já no corredor, de pé, a alisar nervosamente as mangas do casaco.

— Talvez seja melhor irmos andando — disse Maria. — Senão fica tarde.

“Boa viagem e não voltem tão cedo”, pensou Ana. Não o disse. Limitou-se a acenar com a cabeça e abriu a porta.

Quando o carro desapareceu depois da curva, ela permaneceu muito tempo junto ao portão. O ar cheirava a terra húmida e ao fumo que vinha da chaminé dos vizinhos. O dia era o mesmo, o terreno era o mesmo, a casa também não tinha mudado; ainda assim, dentro dela, qualquer coisa se deslocara do lugar. Não por Maria ter passado dos limites. A esse tipo de investidas Ana já se habituara havia anos. O pior era outra coisa: João sabia. Mais do que isso, participara.

Ao fim da tarde, percorreu a casa inteira uma vez mais. Fechou todas as janelas, verificou o anexo e a velha casa de banho do quintal, conferiu a porta da arrecadação. Na prateleira mais alta da despensa, onde quase nunca mexia, encontrou umas caixas bem arrumadas com loiça de criança, que a tia Helena guardara, em tempos, para a menina da vizinha.

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