Ao vê-las, Ana ficou parada, de olhos presos àquelas caixas, e a imaginação fez o resto. Viu, com uma nitidez desagradável, uma tal Sara a tomar conta da casa como se sempre tivesse sido dela: toalhas penduradas onde lhe apetecesse, sacos de gente estranha espalhados pelo corredor, crianças empoleiradas num banco para espreitarem pela janela. E depois, passado algum tempo, aquela frase dita com naturalidade insolente: «Nós, entretanto, já nos instalámos.»
A ideia teve sobre ela um efeito mais forte do que qualquer café. Ana pegou no telemóvel e ligou ao serralheiro da vila, o mesmo que no outono lhe tinha colocado um fecho novo no portão.
— Conseguia passar por cá amanhã? — perguntou. — Preciso de trocar a fechadura da porta principal. E a do anexo também.
— Amanhã, depois de almoço, consigo — respondeu ele.
— Fico à espera.
No dia seguinte, recebeu o homem junto ao portão, mostrou-lhe o que era para substituir e ficou atenta até ter a certeza de que os canhões antigos não ficavam por ali. Pediu-lhe que os levasse consigo. Depois passou por casa de Inês, a vizinha que vivia duas casas abaixo durante todo o ano.
— Inês, se vir alguém à porta do meu terreno com malas ou sacos, telefone-me logo. Sobretudo se disserem que têm autorização.
A vizinha levou as mãos ao peito, aflita.
— Olha que eu até te queria contar uma coisa! A tua sogra esteve aqui no sábado passado. E não vinha sozinha. Trazia uma mulher e um rapaz. Ficaram ali junto à vedação, a apontar para o quintal, a falar da horta e da casa de banho do anexo. Eu pensei que tu soubesses.
Ana ficou calada por alguns segundos, a olhar para ela. Nesse instante, as peças encaixaram todas. Não tinha sido uma conversa repentina. Não era uma ideia infeliz largada sem pensar. Nem uma grosseria saída no calor do momento. Eles já tinham mostrado a casa. Já tinham levado alguém até ao portão. Já estavam a discutir como tudo seria prático.
— Obrigada por me dizer — respondeu ela, num tom baixo.
Regressou à cidade já tarde. O apartamento era dela, comprado antes do casamento: dois quartos, pequeno, mas seu. Depois de casarem, João mudara-se para lá. Antes, isso parecera-lhe normal; agora, de repente, ganhava outro significado. Nos últimos tempos, ele habituara-se demasiado a comportar-se como se o que era alheio lhe coubesse por direito. Não apenas a casa da aldeia. Também o tempo dela. A disponibilidade dela. A paz dela.
João apareceu no corredor assim que ela entrou.
— Porque é que não atendeste o telefone?
— Estava ocupada.
— A minha mãe ficou ofendida, já agora.
Ana despiu o casaco, pendurou-o devagar no cabide e só então o encarou.
— Mandei mudar as fechaduras.
Ele piscou os olhos, sem compreender de imediato.
— Que fechaduras?
— As da casa. E a do anexo. Mais ninguém tem chaves.
— Tu estás boa da cabeça? — A voz dele subiu. — Para quê este espetáculo todo?
— Porque a tua mãe já anda a levar pessoas ao meu terreno e a mostrar-lhes a minha casa. Foi a vizinha que me contou.
João hesitou por uma fração de segundo. Bastou isso. Para Ana, a resposta ficou dada antes de ele abrir a boca.
— Então tu sabias — disse ela.
— Não é bem saber… A minha mãe pediu-me para ir lá ver umas coisas. Eu não pensei que fosses reagir dessa maneira.
— Eu não reagi mal. Apenas deixei de aceitar que me façam de parva.
Ele entrou na cozinha, abriu o frigorífico, tirou uma garrafa de água e bebeu vários goles. Quando voltou a falar, já não tentava disfarçar a irritação.
— Ana, tu tens a mania de levar tudo ao extremo. Podia ter-se ajudado como gente normal. Tu nem sequer moras lá o ano inteiro. Custava-te assim tanto?
Ana encostou o ombro ao aro da porta. O rosto manteve-se imóvel, mas os dedos fecharam-se com força.
— Custar? Não. O que me enoja é vocês terem decidido pelas minhas costas que o que é meu afinal é de todos, e que o que é de todos pertence à tua mãe. Isso, sim, dá-me nojo.
— Lá estás tu outra vez.
— Não, João. Quem começou foste tu. Começaste no momento em que levaste a tua mãe a visitar uma casa que não era tua, como se estivesse disponível para entrega.
Ele pousou a garrafa na mesa com tanta força que a água saltou pelo gargalo.
— Não era minha, não era minha… Então eu sou o quê para ti? Um estranho?
— És o meu marido. Ou devias ser. Alguém que respeitasse os meus limites, não um intermediário numa ocupação.
— Que palavras tão bonitas…
— Exatas.
Ana passou por ele, foi ao quarto, abriu o roupeiro e puxou uma mala de viagem.
— O que é que estás a fazer? — perguntou João, seco.
— A juntar as tuas coisas. Hoje dormes em casa da tua mãe.
— Enlouqueceste?
— Não. Apenas deixei, finalmente, de fingir que isto não foi grave.
Ele avançou um passo na direção dela.
— Tu não tens o direito de me pôr fora.
Ana virou-se tão bruscamente que ele parou por si.
— Este apartamento é meu. Foi comprado antes do casamento. E agora vais sair daqui pelo teu pé, sem cenas. Caso contrário, chamo a polícia e explico que uma pessoa se recusa a abandonar a casa da proprietária depois de um conflito.
João fitou-a como se a visse pela primeira vez. Talvez fosse mesmo a primeira. Durante anos, Ana tinha suavizado tudo. Calara-se quando a sogra criticava a comida que ela fazia. Não discutira quando Maria aparecia sem avisar. Aguentara quando João prometia ir ajudá-la à aldeia e, à última hora, arranjava assuntos mais urgentes. De cedência em cedência, sem se aperceber, tinha-se transformado aos olhos daquela família numa mulher que engolia tudo.
— Por causa de uma casa? — perguntou ele, com a voz abafada. — Estás a destruir a família por causa de uma casa?
— Não é por causa da casa. É porque decidiste dispor daquilo que não te pertence. Hoje foi a casa. Amanhã será o quê? Quem mais vais trazer para a minha vida porque a tua mãe assim quis?
Ele ainda tentou argumentar. Disse que Ana era dura demais, que tudo se podia resolver com calma, que a mãe apenas queria ajudar uma parente. Mas, enquanto falava, ia atirando roupa para dentro da mala. Abria gavetas com estrondo, lançava camisolas sem cuidado, fazia barulho de propósito. Ana não o impediu. Ficou junto à janela, a ouvir, e a certa altura percebeu que não sentia pena, nem medo. Só um cansaço antigo, acumulado, de tanto fingimento.
Antes de sair, João deixou as chaves cair sobre a cómoda da entrada.
— Quando te passar, liga-me.
— Não fiques à espera — respondeu ela.
A porta fechou-se. Ana rodou imediatamente a fechadura e retirou a chave por dentro. Depois aproximou-se da cómoda, pegou no molho que ele deixara, guardou-o numa gaveta e só então se sentou. Não no chão, não num ataque de choro, não numa pose dramática de novela. Sentou-se simplesmente no banco do corredor. Durante alguns minutos ficou imóvel. Depois ergueu a cabeça, viu o seu reflexo no vidro escuro da porta e soltou uma risada breve, quase amarga. Era só aquilo, afinal. Bastava uma única vez não se calar para que as pessoas se lembrassem depressa do que era delas e do que não era.
No dia seguinte, foi Maria quem telefonou.
— Mas quem é que tu julgas que és? — começou ela, sem sequer cumprimentar. — O João teve de dormir cá em casa por causa das tuas manias.
— Não foi por causa das minhas. Foi por causa das dele.
— Tu não dás valor nenhum ao teu marido. E tudo por causa daquela casinha.
