“O meu aniversário redondo não se festeja numa roulotte de kebabs, festeja-se em casa” — exclamou Teresa na cozinha, furiosa ao acusar Ana de rejeitar a festa familiar

Histórias
A celebração parece injusta, hipócrita e sufocante.

— Ana, estás a gozar comigo? Já te disse três vezes: no sábado vão ser dezoito pessoas. Dezoito. A tia Filomena vem de Amarante, o Paulo traz a família, vêm também o Miguel e a Helena, a Sara com o marido. O meu aniversário redondo não se festeja numa roulotte de kebabs, festeja-se em casa — a voz de Teresa ricocheteava nos azulejos, como se alguém tivesse ligado uma coluna antiga no volume máximo dentro da cozinha.

Ana pousou a caneca no lava-loiça e demorou alguns segundos antes de se virar. Lá fora, no parque de estacionamento, a neve de março já tinha perdido a brancura; por baixo dela aparecia uma papa escura onde carros e pessoas se enterravam. Era uma paisagem sem enfeites, honesta, tão desprovida de ilusões como a vida dela nos últimos anos.

— Não estou a gozar, Teresa. Estou a dizer que não tenho energia nem tempo para alimentar dezoito pessoas. Isto é um T2, não é a cantina da câmara.

— Lá estás tu outra vez — a sogra levantou os braços, teatral. — Cinco saladas, dois pratos quentes, enchidos e queijos cortados, bolo. As pessoas normais fazem assim. Eu sempre vivi assim.

— Então continue a viver assim — respondeu Ana, com uma calma que ainda a irritou mais. — Mas sem mim.

Do corredor surgiu João. Não entrou propriamente; apareceu, como quem espera ter caído ali por acaso para depois poder dizer que foi arrastado para a conversa.

— O que é que se passa?

— Passa-se que a tua mulher acaba de declarar que o meu aniversário é um fardo para ela — disparou a mãe, sílaba por sílaba. — Receber a família, imagina tu, é uma tragédia.

— Não foi isso que eu disse — Ana fitou o marido. — Disse que não vou passar dois dias agarrada ao fogão, depois a servir pratos, e de madrugada a esfregar gordura do forno enquanto toda a gente comenta como eu fiquei “difícil”.

— Aninha, não compliques — arrastou João, cansado antes sequer de tentar. — É uma vez na vida. A mãe faz sessenta e seis anos.

— Graças a Deus que é uma vez na vida. Se isto fosse todos os anos com este programa, já me tinham levado daqui numa maca.

— Estás a ser malcriada — sibilou Teresa. — Tens noção de com quem estás a falar?

— Tenho perfeitamente. Com uma pessoa que não pede, manda. E que acha que o tempo dos outros não tem valor.

— Dos outros? — A sogra apertou os olhos. — Depois de doze anos de casamento, eu sou “os outros” para ti?

— Quando é para eu ajudar, sou da família. Quando é para respeitarem os meus limites, de repente já sou de fora. É um sistema muito prático.

João encolheu um ombro, desconfortável.

— Ana, chega de armar guerra. Qual é o problema? As saladas fazem-se na sexta, a carne no sábado. Nós ajudamos.

— “Nós” quem, exatamente? — Ana voltou-se para ele de corpo inteiro. — Tu, que no último Ano Novo, depois do segundo copo, foste “deitar-te cinco minutinhos” e acordaste à uma da manhã, quando eu estava sozinha a lavar a loiça? Ou a tua irmã Carolina, que só sabe dizer “ai, eu punha aqui um bocadinho de endro”?

— Não metas a Carolina ao barulho — a sogra inflamou-se de imediato. — Ela tem filhos.

— E eu tenho o quê? Braços de borracha e uma coluna suplente?

— Trabalhas num escritório, não trabalhas numa mina — cortou Teresa. — Não te faças de cavalo de carga.

— Agradeço o diagnóstico. Então a minha resposta é definitiva: não haverá festa nenhuma aqui, e eu não vou cozinhar.

Durante um instante, o silêncio ficou espesso, igual à pausa que antecede o estoiro de um transformador.

— João, estás a ouvir isto? — a voz da mãe subiu. — A tua mulher está a pôr-me fora.

— Ana, estás a exagerar — disse ele, sem a encarar. — Podias falar de outra maneira.

— Isto é falar de maneira normal. “Não” é uma palavra normal. O problema é que, na tua família, nunca aprenderam a respeitá-la.

Nos cinco dias seguintes, instalou-se em casa aquele silêncio especial que esgota mais do que uma discussão aos gritos. João alimentava-se de almôndegas compradas feitas, fazia barulho com as embalagens de plástico e exibia, com todo o corpo, a sua tragédia pessoal: a mulher tinha deixado de funcionar como serviço doméstico. Teresa mudou-se temporariamente para casa da filha, mas nem de lá interrompeu os ataques. Carolina escrevia mensagens intermináveis, nas quais a palavra “mãe” aparecia muito mais vezes do que qualquer ideia.

“Pensaste sequer no quanto ela ficou magoada?”

“Será assim tão difícil, uma vez por ano, comportarmo-nos como família?”

“O João está muito abalado, estás a ser dura demais.”

Ana via as notificações acumularem-se no ecrã e deixava-as sem resposta.

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