“O meu aniversário redondo não se festeja numa roulotte de kebabs, festeja-se em casa” — exclamou Teresa na cozinha, furiosa ao acusar Ana de rejeitar a festa familiar

Histórias
A celebração parece injusta, hipócrita e sufocante.

Ana lia, apagava e, ao sair do trabalho, em vez de seguir para casa, desviava-se para a piscina. Aqueles trinta minutos dentro de água faziam-lhe melhor do que qualquer conversa familiar. Ali ninguém lhe pedia que cortasse salada russa, ninguém queria saber por que motivo ela não sorria. Regressava já perto das dez. No apartamento pairava um cheiro a massa recheada congelada, a irritação masculina e a expectativas alheias.

Dois dias antes do aniversário, João apareceu no quarto com a expressão de quem já se sente ofendido antes mesmo de ouvir a recusa.

— Olha, preciso de te pedir uma coisa.

— Isso promete.

— A mãe decidiu fazer a festa em casa da Carolina. Só que o forno dela está uma desgraça, queima tudo por cima. Faz ao menos aquela tua carne e o rolo de pão folha. Nós passamos cá e levamos. Nem precisas de ir.

— Que generosidade.

— Ana, sem ironias.

— Então como queres que eu responda? Comovida? Já disse que não.

— Estás a fazer isto de propósito. Só para mostrares que tens feitio.

— Não, João. Pela primeira vez, estou apenas a não aceitar uma coisa que me fica atravessada.

— Por tua causa, a festa vai correr pessimamente.

— Não. Vai correr assim porque vocês se habituaram a montar uma celebração inteira em cima de uma só pessoa.

Ele ficou parado por uns segundos e depois atirou:

— Tu tornaste-te má.

— Tornei-me cansada. Não é a mesma coisa.

No sábado, Ana saiu de casa às onze. Cortou o cabelo, passou por uma livraria e acabou sentada num café do centro comercial, a ler, enquanto do outro lado do vidro desfilavam carrinhos, sacos, crianças de casacos comprados para durar mais dois invernos. Não estava feliz, mas também não sentia vergonha. Estava apenas em silêncio. Como se alguém, pela primeira vez em muitos anos, tivesse desligado o exaustor que lhe zumbia dentro da cabeça.

Deixou o telemóvel sem som. Quando, ao fim da tarde, acendeu o ecrã, encontrou doze chamadas perdidas de João, oito de Carolina e uma mensagem curta: “A mãe está no hospital. Tensão. Vem depressa.”

Na urgência cheirava a roupa molhada, a desinfetante e a nervos em frangalhos. João estava sentado numa cadeira de plástico, curvado sobre si mesmo. Carolina, vestida com uma blusa de festa, chorava como se a principal vítima da situação fosse ela.

— O que aconteceu? — perguntou Ana.

— O que aconteceu? — Carolina levantou logo a cabeça. — Aconteceu que, por causa desta confusão toda, a mãe quase desmaiou. O prato quente atrasou-se, os miúdos derrubaram uma travessa, ela começou a enervar-se, a tensão disparou. Se tivesses ajudado, nada disto teria acontecido.

Ana nem sequer lhe dirigiu o olhar.

— O que disse o médico?

— Por enquanto, crise hipertensiva — respondeu João, num tom abafado. — Estamos à espera.

— Ela tomou os comprimidos de manhã?

Carolina hesitou.

— Não sei. Ela estava de pé desde as sete. Frios, entradas, bolo, convidados…

Ana virou lentamente o rosto para ela.

— Portanto, ninguém se lembrou de confirmar se uma pessoa com tensão alta tinha tomado a medicação, mas todos garantiram que não faltavam tarteletes na mesa.

— Não venhas agora fazer-te de esperta — rosnou Carolina. — Não é altura.

— É precisamente a altura. Só não vos convém.

A médica saiu do gabinete. Tinha um ar exausto, firme, sem espaço para dramas.

— Familiares da senhora Silva?

— Somos nós.

— O estado está estabilizado. Não foi um AVC. A crise foi provocada por stress, excesso de esforço e falha na medicação. Amanhã tragam-lhe robe, chinelos e água. E, para a próxima, se uma mulher já passou dos sessenta, não a obriguem a passar o dia inteiro a correr à volta de um banquete.

Carolina recomeçou a chorar. João baixou a cabeça. Ana, de repente, já nem sentia raiva; apenas um cansaço espesso, pesado. Eram todos adultos, mas comportavam-se como se a vida fosse uma festa de escola onde o essencial era a mesa ficar bonita nas fotografias.

No dia seguinte, levou ao hospital uma mala com roupa e uma garrafa térmica com caldo. Teresa estava deitada de uma forma estranhamente quieta, sem aquela postura de comando que costumava ocupar a divisão antes mesmo de ela falar. Parecia apenas uma mulher idosa, exausta.

— Vieste — disse, em vez de cumprimentar.

— Vim.

— A Carolina não pôde?

— A Carolina tem filhos, marido, trânsito e uma sensibilidade muito delicada. Enfim, assuntos graves.

A sogra fechou os olhos.

— Não sejas venenosa. Tenho a cabeça a rebentar.

— Então ficamos pelo essencial. Trouxe as suas coisas e caldo.

— Foste tu que fizeste?

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