“O meu aniversário redondo não se festeja numa roulotte de kebabs, festeja-se em casa” — exclamou Teresa na cozinha, furiosa ao acusar Ana de rejeitar a festa familiar

Histórias
A celebração parece injusta, hipócrita e sufocante.

— Não, claro que não. Pedi a um desconhecido qualquer na paragem do autocarro.

Teresa chegou a esboçar um sorriso, mas logo se contraiu numa careta.

— Tu nunca perdes essa língua afiada.

— Se a perdesse, já tinha começado a gritar há muito tempo.

Ana despejou o caldo num copo de plástico e estendeu-lho. A sogra bebeu um pouco, ficou calada uns instantes e perguntou, num tom quase apagado:

— O João veio?

— De manhã. Ficou dez minutos e fugiu para o trabalho.

— E a Carolina?

— Telefonou. Disse que lhe custava muito ver isto.

— Pois.

Aquele “pois”, dito em voz baixa, continha mais verdade do que todos os discursos familiares dos últimos dez anos.

Quando chegou a altura da alta, Carolina, de repente, tornou-se uma mulher ocupadíssima. Ora eram os miúdos, ora o canalizador da casa de banho, ora o marido que não concordava, ora o mais novo que tossia; e, claro, uma pessoa idosa precisava sobretudo de sossego.

Nessa noite, João ficou sentado à mesa da cozinha, a rodar uma colher entre os dedos, falando mais para a toalha do que para Ana.

— Não sei o que se faz agora. Uma cuidadora? É caríssimo. E a minha mãe não suporta estranhos.

— Ah, então a mim suporta? — perguntou Ana.

— Não comeces.

— Eu? Eu nem comecei. Vocês é que começam sempre, quando vos dá jeito.

Ele ergueu os olhos para ela. Pela primeira vez, não havia irritação no olhar; havia uma espécie de desorientação infantil.

— Ana, a sério. O que fazemos?

Ela observou-lhe o rosto e percebeu, com uma clareza desconfortável, que as mais desamparadas daquela história não eram as mulheres. O ser mais perdido era aquele que, durante décadas, se habituara a não decidir nada.

— Trazemo-la para cá — disse.

— Estás a falar a sério?

— Estou. Mas fica dito uma vez, e sem margem para interpretações: eu não sou empregada, nem saco de pancada, nem cuidadora gratuita. Vou ajudar uma pessoa a recuperar. Se começarem as ordens, as queixas e as tentativas de me pôr tudo às costas, isto acaba no mesmo dia.

— Obrigado.

— Não me agradeças. Aprende antes a fazer alguma coisa sem teres a mãe de um lado e a mulher do outro.

Nos primeiros dias em casa, Teresa manteve-se sossegada. Depois, aos poucos, o velho hábito voltou a aparecer.

— Ana, a papa está muito grossa.

— Junte-lhe água quente.

— Ana, tens pó naquela prateleira.

— Pegue num pano.

— Ana, abre a janela.

— Já está aberta. A senhora é que não reparou.

Ao quarto dia, Ana parou à entrada do quarto e falou num tom liso, sem levantar a voz:

— Vamos combinar uma coisa desde já. A senhora está aqui porque precisa de cuidados. Eu cozinho, lavo a roupa, lembro-a dos comprimidos e levo-a às consultas. Mas fiscalizar a minha casa e mandar em mim acabou. Se não lhe agrada, telefone à Carolina. Pode ser que, por milagre, todas as urgências dela desapareçam.

Teresa apertou os lábios.

— Falas comigo de uma maneira muito brusca.

— Mas falo de forma clara.

— Eu só disse que havia pó.

— Não. A senhora tentou perceber se o esquema antigo ainda funcionava. Não funciona.

A sogra ficou muito tempo calada. Depois, para surpresa de Ana, assentiu com a cabeça.

A partir desse momento, o apartamento pareceu respirar melhor. Ao fim da tarde, Teresa sentava-se na cozinha e descascava legumes devagar, para não se sentir uma peça de mobília encostada a um canto. Ana preparava o jantar, ouvia a televisão a murmurar na sala e pensava que a verdadeira paz talvez fosse isto: não ter de justificar o próprio “não” a toda a hora.

Um dia, foi a sogra quem puxou conversa.

— A minha sogra era pior do que eu. Muito pior. Passava o dedo pelas prateleiras, dizia às visitas, à minha frente, que eu fazia sopa como quem vive de favor. Na altura, eu pensava: quando chegar a minha vez, hei de saber como se faz tudo direito. Afinal, acho que só passei adiante aquilo que engoli.

— Uma espécie de estafeta familiar da crueldade — disse Ana.

— Parece que sim. Mas sabes o que é mais vergonhoso? Eu acreditava mesmo que mantinha a família de pé. No fundo, só punha toda a gente em sentido.

— Para alguns, isso era bastante conveniente.

— Estás a falar do João?

— De quem havia de ser? É uma posição muito confortável: ficar eternamente entre a mãe e a mulher, não resolver nada e depois suspirar que as mulheres são complicadas.

Teresa pousou a faca.

— Ouvi-o na varanda, a falar com a Carolina. Disse: “A Ana resmunga, mas acaba sempre por fazer.” Sabias?

Ana ficou imóvel, com o pano da loiça nas mãos.

— Não. Mas soa exatamente a ele.

— E eu, velha parva, só no hospital percebi quem apareceu logo por mim e quem se escondeu atrás de motivos muito respeitáveis.

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