“Portanto, a tua mãe tem tensão alta e eu tenho uma máquina de imprimir dinheiro na mesa de cabeceira?” disse Catarina, arrancando a ficha do ferro da tomada com um gesto brusco

Histórias
A submissão implícita é revoltante, injusta e sufocante

— Catarina, transfere-me trezentos e cinquenta euros para o cartão. Amanhã vence a prestação no banco — disse João, sem sequer desviar os olhos do portátil, onde voltara a afundar-se nas suas batalhas de tanques.

Catarina ficou imóvel, com o ferro de engomar suspenso na mão. O vapor saiu pelas ranhuras com um assobio curto, envolvendo a tábua numa nuvem esbranquiçada. Devagar, pousou o ferro no suporte e fixou o olhar nas costas largas do marido, apertadas por uma T-shirt velha de andar por casa. Aquele ritual mensal do “manda-me o dinheiro” repetia-se havia quatro anos. Mas, naquela terça-feira chuvosa de novembro, alguma coisa dentro dela partiu-se de vez.

— João — começou ela, em voz baixa, esforçando-se para que o tremor não a denunciasse. — Não te sobrou mesmo nada? Na semana passada fiz compras, gastei cem euros, e ainda paguei as contas da casa. Do adiantamento quase não resta coisa nenhuma. Tenho de aguentar até ao ordenado.

João estalou a língua, contrariado. Tirou os auscultadores e rodou a cadeira na direção dela. Tinha no rosto uma expressão ofendida, quase infantil, como a de uma criança a quem tinham arrancado um doce da mão.

— Catarina, já falámos disto. O trabalho está numa fase fraca, é sazonal, não há encomendas. Sabes perfeitamente que vivo de comissões. Mas o banco não vai esperar por mim. A minha mãe já recebeu a mensagem de aviso. Não queres que comecem a chateá-la por causa da dívida, pois não? Com a tensão alta que ela tem…

— Portanto, a tua mãe tem tensão alta e eu tenho uma máquina de imprimir dinheiro na mesa de cabeceira? — Catarina arrancou a ficha do ferro da tomada com um gesto brusco. — João, há quatro anos que pago este crédito. Há quatro anos que entrego setenta por cento do meu rendimento por uma casa onde, legalmente, eu não sou ninguém.

— Lá estás tu outra vez! — ele revirou os olhos, impaciente. — Até quando vamos continuar a mastigar o mesmo assunto? Já te expliquei cem vezes: pusemos o apartamento em nome da minha mãe porque, como reformada e beneficiária de condições especiais, conseguia uma taxa mais baixa. Poupámos imenso dinheiro! Isto é para a nossa família!

— Para que família, João? — Catarina aproximou-se da janela, contra a qual a chuva de outono batia com força. — Do ponto de vista legal, esta família não existe dentro desta casa. Existe uma proprietária: a Maria. E depois existimos nós, os ocupantes que lhe pagam o património. Aliás, nem “nós”. Sou eu. Porque essa tua “fase fraca” no trabalho, por algum motivo, dura o ano inteiro.

— Agora vais atirar-me o dinheiro à cara? — a voz dele subiu, aguda e irritada. — Ficaste interesseira, foi? Eu também contribuo! Fui eu que fiz a remodelação! Fui eu que colei o papel de parede!

— Papel de parede comprado com o meu prémio. João, eu estou exausta. Hoje fui ao dentista, preciso de uma coroa. Isso custa dinheiro. E eu não tenho dinheiro porque amanhã há uma prestação para pagar. Uso o mesmo casaco de inverno há cinco anos. E a tua mãe, na semana passada, exibia-se toda contente com o casaco de pele novo, porque consegue pôr a reforma de lado. Claro: os filhos ajudam-na com a “casa”.

— Não te metas a contar o dinheiro da minha mãe! — João levantou-se de repente. — Isso é baixo. Ela deixou-nos viver no apartamento dela e tu…

— Deixou-nos viver num apartamento que sou eu que pago? Que generosidade comovente.

— Chega. Não quero mais cenas. Transfere o dinheiro. Não me apetece passar vergonha amanhã perante a minha mãe se o banco ligar. E aquece o jantar, que estou com fome.

João tornou a colocar os auscultadores, deixando claro, em cada gesto, que para ele a conversa estava encerrada. Catarina ficou a olhar para a nuca dele e sentiu um vazio gelado abrir-se no peito. O amor, a paciência, a esperança — tudo aquilo se evaporou num instante. No lugar deles instalou-se uma lucidez fria, quase calculista.

Sem dizer palavra, saiu da sala, pegou no telemóvel e abriu a aplicação do banco. Na conta havia quatrocentos euros. O suficiente para a prestação e ainda qualquer coisa para comida. O dedo dela ficou suspenso por cima do botão de transferência.

Foi então que lhe voltou à memória a conversa da véspera, ouvida por acaso. Maria tinha ido visitá-los e ficara na cozinha a beber chá, enquanto Catarina descera rapidamente à mercearia. Ao regressar mais cedo do que esperava e ao abrir a porta sem fazer barulho, Catarina escutara a voz da sogra vinda da cozinha. Falava ao telefone com a filha mais velha, a cunhada de Catarina, Inês.

— Sim, minha Inês, está tudo a correr conforme o plano. A prestação do apartamento está a ser paga direitinha. Até fizeram uma boa remodelação.

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