Catarina é cuidadosa, deixa tudo a brilhar. Depois, quando acabarem de pagar, logo se decide. Para que há de o João precisar da casa? É um homem pouco seguro e, além disso, a mulher dele… hoje está cá, amanhã sabe-se lá. Tu, com os miúdos, vais precisar muito mais. És mãe solteira. Não te preocupes, eu depois faço uma doação em teu nome. O importante é que, até lá, eles continuem a pagar.
Na véspera, Catarina ainda tentara convencer-se de que percebera mal. Que nenhuma mãe seria capaz de maquinar uma coisa daquelas contra o próprio filho. Que nenhuma sogra faria semelhante traição à nora que sempre a tratara com respeito e afeto. Mas, naquele momento, ao olhar para as costas indiferentes do marido, todas as peças encaixaram.
Fechou a aplicação do banco. Em seguida, abriu outra: uma plataforma de reservas de alojamento.
Dez minutos depois, voltou à sala.
— João.
— Então? Já transferiste? — resmungou ele, sem sequer virar a cabeça.
— Não.
No jogo, travou de repente. O tanque que conduzia no ecrã foi embater contra uma parede.
— Como assim, “não”? A aplicação deu erro?
— Não deu erro nenhum. Eu é que não vou pagar.
Só então João se voltou. Tinha no rosto uma mistura sincera de espanto e pânico.
— Estás a gozar comigo? Catarina, amanhã é dia vinte e cinco!
— Eu sei. Que pague a tua mãe. A casa é dela. Ou pagas tu. Ou paga a Inês, já que, no fim de contas, é ela quem vai lá viver.
— Que Inês? Tu passaste-te? O que é que a minha irmã tem a ver com isto?
— Tem tudo a ver, João. Ontem ouvi a conversa da tua mãe. Ela tenciona doar o apartamento à Inês quando o empréstimo estiver liquidado. Porque a Inês tem filhos e tu és, passo a citar, “um homem pouco seguro”.
João ficou branco. Logo a seguir, manchas vermelhas subiram-lhe pelo rosto.
— Andaste a espiar conversas?!
— Entrei na minha própria casa e ouvi por acaso. Mas isso agora é secundário. O essencial é que deixei de ser a financiadora da vossa bonita encenação familiar. Daqui em diante, lavo as minhas mãos.
— A minha mãe nunca diria uma coisa dessas! Estás a inventar tudo para justificares a tua ganância! Faz já a transferência!
— Não. Amanhã tenho consulta no dentista. E marquei um fim de semana num hotel termal. Os meus nervos também precisam de tratamento.
— Tu… perdeste completamente a cabeça? Que hotel termal? E a prestação?!
— A prestação não é problema meu.
Nessa noite, rebentou em casa uma discussão como nunca acontecera em todos os anos de casamento. João gritou, bateu com os pés, acusou Catarina de traição e de querer pôr a mãe dele na rua, embora Maria tivesse o seu próprio apartamento, um excelente T2. Catarina, em silêncio, foi arrumando uma mala. Não levou tudo, apenas o indispensável para os primeiros dias.
— Se saíres agora, nunca mais te deixo entrar! — berrava João, seguindo-a pelo corredor.
— Não é a tua casa para decidires quem entra e quem sai — respondeu ela, tranquila, enquanto fechava o fecho da mala. — É a casa da tua mãe. Resolve isso com ela.
Passou a noite em casa de uma amiga. Tinha uma dor funda na alma, mas, ao mesmo tempo, sentia uma leveza inesperada. Era como se tivesse finalmente largado um saco de pedras que carregara às costas durante anos, sempre a subir.
A manhã não começou com café. Começou com uma chamada da sogra.
— Catarina! — A voz de Maria tilintava como vidro partido. — Mas quem é que julgas que és? O João telefonou-me a dizer que retiveste o dinheiro! Recebi mensagem do banco a avisar que não há saldo suficiente! Queres arruinar o meu historial de crédito?
— Bom dia, Maria — disse Catarina, afastando ligeiramente o telemóvel do ouvido. — Não percebo por que razão isso seria responsabilidade minha. O apartamento é seu. O empréstimo também. Portanto, pague-o.
— Como te atreves a falar assim comigo?! Tínhamos um acordo! Vocês moram lá, vocês pagam!
— O acordo era construirmos um lar. Não era eu financiar uma casa destinada à sua filha Inês.
Do outro lado da linha caiu um silêncio espesso, pesado.
— Tu… como é que sabes disso? — A voz da sogra mudou de tom, tornando-se ao mesmo tempo macia e ameaçadora.
— As paredes também ouvem, Maria. Sabe, durante quatro anos fui uma idiota. Mas até nos casos mais graves chega, um dia, o momento de abrir os olhos. Vou pedir o divórcio. Quanto ao seu imóvel, trate de o pagar. Tem a sua reforma, tem o seu casaco novo de pele. Venda-o. Deve chegar para uns meses.
— Sua ordinária! — guinchou Maria. — Eu amaldiçoo-te!
