“Portanto, a tua mãe tem tensão alta e eu tenho uma máquina de imprimir dinheiro na mesa de cabeceira?” disse Catarina, arrancando a ficha do ferro da tomada com um gesto brusco

Histórias
A submissão implícita é revoltante, injusta e sufocante

— Também há o apartamento dela — acrescentou, já a afastar-se. — Com hipoteca, não é? A propósito, como vão essas prestações?

As prestações iam de mal a pior. João continuava sem conseguir um emprego estável; Inês, a irmã dele, recusara qualquer ajuda com a desculpa de sempre: tinha filhos, despesas, e, além disso, “a embrulhada era vossa”. O banco, havia já três meses, carregava juros de mora sobre a dívida e enviava cartas cada vez menos delicadas, ameaçando resolver o contrato e pôr a casa em leilão.

O divórcio de Catarina e João ficou concluído depressa. Não havia filhos, e bens para dividir também não — a não ser as dívidas de João, que Catarina já não tencionava carregar às costas.

Passado um ano, Catarina caminhava por um centro comercial, escolhendo presentes de Natal. Tinha outro ar. O cabelo cortado de fresco assentava-lhe no rosto, os olhos estavam firmes, e havia nela uma serenidade que não precisava de ser explicada. Parou diante de uma montra onde brilhavam máquinas de café e ficou a ponderar se não mereceria oferecer a si própria uma prenda.

— Catarina?

Virou-se.

À sua frente estava João. Parecia gasto, envelhecido, encolhido dentro do mesmo casaco de há um ano, agora ainda mais coçado e sem forma.

— Olá, João.

— Olá… Estás muito bem.

— Obrigada. Também me sinto bem. E tu? Como está a tua mãe?

João fez uma careta, como se a pergunta lhe tivesse tocado num dente dorido.

— O banco ficou com o apartamento. Foi a leilão e venderam-no por quase nada. O que sobrou mal chegou para cobrir o capital em dívida. Os juros, as penalizações, isso ficou tudo em cima da minha mãe. Agora levam-lhe metade da reforma. E a indemnização que o tribunal te atribuiu… também é ela que vai pagando, dez euros de cada vez.

— Lamento — respondeu Catarina, educada, mas sem calor.

— Estamos todos no T2 dela. Eu, a minha mãe, a Inês e os miúdos. Ela separou-se do marido e foi lá para casa. Aquilo está um inferno. Gente por todo o lado, discussões por tudo e por nada. A minha mãe passa os dias a implicar comigo. E fala de ti sem parar. Diz: “A nossa Catarininha é que era boa, com ela vivíamos tão bem…”

Catarina soltou uma gargalhada curta.

— A sério? E o “és uma desgraçada” e o “hei de amaldiçoar-te”? Isso já passou de moda?

— Ela… enfim, sabes como ela é. Esquece depressa certas coisas. Catarina… — João aproximou-se um passo, tentando prender-lhe o olhar. — Vamos tomar um café? Eu mudei. Arranjei trabalho, ando a fazer serviço de motorista. O carro é alugado, é verdade, mas estou a esforçar-me. Tenho sentido muito a tua falta. Percebi que fui um idiota. E se recomeçássemos? Arrendávamos uma casa só para nós. Sem mães, sem família metida no meio…

Catarina observou-o durante alguns segundos e não encontrou dentro de si nada. Nem raiva. Nem mágoa. Nem pena. Apenas via um homem estranho, desagradável, com cheiro a tabaco barato e a problemas antigos.

— Não, João. Não se recomeça uma coisa destas. Para mim, isto já acabou. Estou do outro lado desta história miserável.

— Mas nós amámo-nos!

— Eu amei. Tu tinhas uma mulher útil, que resolvia aquilo que tu não querias resolver. Sabes uma coisa? Há pouco tempo fiz uma hipoteca. Minha. Em meu nome. Estou a renovar a minha casa, com o meu dinheiro e as minhas escolhas. E ninguém me vai dizer que aquilo não é meu. Ninguém vai enfiar lá uma irmã com crianças. Ninguém vai transformar a minha vida numa pensão de família. É uma felicidade enorme não depender de ninguém.

— Ficaste dura — resmungou João.

— Não. Cresci. Adeus, João. E manda cumprimentos à tua mãe. Diz-lhe obrigada. Se ela não tivesse sido tão gananciosa naquele dia, talvez eu ainda estivesse a pagar o sonho dela, enquanto destruía a minha própria vida. Foi ela quem me libertou.

Catarina virou-lhe as costas e seguiu pelo corredor largo do centro comercial, com os saltos a baterem no chão polido. Acabou por não comprar a máquina de café. Pensou melhor e decidiu guardar aquele dinheiro para umas férias. Nesse ano, ia finalmente ver o mar. Pela primeira vez em cinco anos. Sozinha. Livre. E feliz.

João ficou muito tempo a vê-la afastar-se, apertando no bolso um maço de cigarros baratos. Só então lhe ocorreu, com uma clareza humilhante, que ele e a mãe tinham perdido a galinha dos ovos de ouro porque se lembraram de a pôr na panela. Em casa, esperavam-no uma discussão por causa da loiça por lavar, sobrinhos a chorar e Maria, eternamente descontente, que agora passava as noites a suspirar diante de uma fotografia antiga da ex-nora, encontrada por acaso num álbum esquecido.

Mas já não havia como voltar atrás. A vida apresentara a conta. E essa, até ao último cêntimo, teria de ser paga.

Casa da Encarnação