“Portanto, a tua mãe tem tensão alta e eu tenho uma máquina de imprimir dinheiro na mesa de cabeceira?” disse Catarina, arrancando a ficha do ferro da tomada com um gesto brusco

Histórias
A submissão implícita é revoltante, injusta e sufocante

— De mim não levas nem mais um cêntimo!

— Também nunca vi um cêntimo seu — respondeu Catarina, com um sorriso amargo. — Foi tudo enterrado no seu betão. Passe bem.

E desligou. Logo a seguir, bloqueou-lhe o número.

As duas semanas que se seguiram pareceram-lhe uma daquelas películas absurdas em que tudo acontece fora do lugar. João começou a persegui-la através de números desconhecidos, aparecia-lhe à porta do trabalho, esperava-a na rua. Num dia ameaçava levá-la a tribunal — por que motivo, exatamente, era um mistério —, no outro surgia com flores e quase se punha de joelhos, implorando-lhe que voltasse.

— Catarina, perdoa-me! A minha mãe exaltou-se, foi só isso! Eu falo com ela, ela passa a parte para o meu nome! — choramingou ele, agarrando-lhe a manga do casaco junto à entrada do escritório.

— Para o teu nome? — Catarina fitou-o com uma pena fria, quase cansada. — E que diferença é que isso fazia? Hoje ficava em teu nome, amanhã oferecias à Inês. Ou devolvias tudo à tua mãe. Tu és o menino da mamã, João. Tens medo até de espirrar sem autorização dela. Sabias do plano da Inês?

João desviou os olhos.

Não foi preciso mais nada.

— Sabias — concluiu Catarina, abanando a cabeça. — E ficaste calado. Enquanto eu me matava em dois empregos, aceitava biscates, cortava em tudo para mim, tu sabias perfeitamente que estavam a usar-me.

— Catarina, mas a Inês está sozinha… A vida dela é difícil… Nós somos fortes, havíamos de conseguir comprar outra coisa para nós… mais tarde.

— Então comprem. Afinal, são fortes.

Catarina alugou um pequeno T0. Para sua surpresa, o dinheiro chegava e sobrava. Descobriu que viver sozinha custava três vezes menos do que sustentar um marido “sem trabalho” e uma prestação de crédito que nem sequer lhe pertencia. Mandou finalmente colocar a coroa dentária de cerâmica que adiava há meses, comprou um casaco novo e inscreveu-se num curso de inglês.

Mas a novela do apartamento não terminou ali.

Um mês depois, recebeu uma citação do tribunal. Maria, ao que parecia, decidira apostar tudo na última cartada e avançara com uma ação por “enriquecimento sem causa”, exigindo que Catarina lhe pagasse os quatro anos em que ali vivera. Segundo ela, nunca existira contrato de arrendamento; a nora tinha simplesmente habitado a casa e usufruído das vantagens.

Catarina procurou um advogado. Era um homem já de idade, com um olhar vivo e um meio sorriso matreiro. Leu a petição inicial até ao fim e desatou a rir durante largos minutos.

— Muito bem — disse por fim, limpando os óculos com um lenço. — Então vamos fazer contas. Tem comprovativos das transferências?

— Tenho tudo. Um por um. Sou contabilista, guardo documentos por vício profissional. Transferências para o João com a indicação “prestação da casa”, pagamentos diretos à dona Maria quando ele dizia que não conseguia pagar, faturas de materiais de construção, contrato com a equipa das obras em meu nome…

— Excelente. Apresentamos reconvenção. Pedimos que seja reconhecido que, na prática, foi a senhora quem suportou o crédito e reclamamos uma quota de propriedade. As hipóteses não são grandes, porque a proprietária formal é a mãe dele, mas vamos causar-lhes uma boa dor de cabeça. Quanto à ação deles, demonstraremos que havia uma relação familiar e que a habitação foi cedida gratuitamente por acordo verbal. Além disso, o dinheiro que investiu em obras e prestações ultrapassa várias vezes qualquer renda de mercado.

O processo arrastou-se durante meio ano. Foi uma época suja, desgastante, cheia de pequenas humilhações. Maria chegou a simular um ataque cardíaco no meio da sala de audiências. João permanecia sentado de cabeça baixa e, sempre que a juíza lhe fazia uma pergunta, respondia com murmúrios quase inaudíveis.

Pelo caminho, vieram à tona pormenores bastante interessantes. Descobriu-se que João não só continuava sem emprego digno, como ainda contraíra, às escondidas, vários microcréditos para satisfazer os seus “caprichos”. E agora as empresas de cobrança telefonavam não apenas à mãe dele, mas também a Catarina, apesar de o divórcio já estar em andamento.

No fim, o tribunal julgou improcedente o pedido de Maria. A reconvenção de Catarina quanto ao reconhecimento de uma parte da propriedade também foi rejeitada — exatamente como o advogado previra, porque a lei não podia ser contornada e o titular registado continuava a ser o titular registado. Ainda assim, a juíza condenou Maria a reembolsar Catarina pelas despesas de renovação da casa, também com fundamento em enriquecimento sem causa.

A quantia era pesada: quase quinze mil euros. Catarina conservara todas as faturas da cozinha cara, das loiças sanitárias, dos móveis e de tudo aquilo que se recusaram a devolver-lhe.

— Eu não tenho esse dinheiro! — gritou Maria, logo depois de a sentença ser lida. — Sou reformada!

— E o casaco de pele? — perguntou Catarina, com uma inocência estudada.

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