O meu marido partiu para cuidar da mãe, que estava gravemente doente. Passou-se um mês inteiro: nem telefonemas, nem visitas, nem uma explicação decente. Acabei por não aguentar mais e fui até lá com a nossa filha. Queria aparecer de surpresa, mas, ao chegar à casa, vi a porta entreaberta e, sem querer, acabei por ouvir a conversa que vinha lá de dentro…
Chamo-me Ana Silva e trabalho como enfermeira numa clínica municipal. A minha profissão nunca foi leve: turnos noturnos, doentes a precisar de atenção constante, decisões rápidas e uma responsabilidade que pesa nos ombros. Ainda assim, eu sabia por que motivo me esforçava. Quando regressava a casa quase sem forças, era sempre recebida pelo sorriso luminoso da minha filha Maria, de sete anos, e, naquele instante, o cansaço parecia desaparecer.
— Mãe, olha o desenho que fiz hoje no infantário! — gritava ela, mal eu entrava pela porta, correndo para mim com uma folha nas mãos. Quase sempre era um retrato da nossa família: nós os três juntos, de mãos dadas, com sorrisos enormes.
— Que maravilha, meu amor. Tenho uma artista em casa — dizia eu, prendendo com cuidado mais aquele desenho na parede da cozinha, ao lado dos outros.
Com o tempo, aquele canto transformara-se numa pequena exposição da nossa felicidade. Pelo menos era assim que eu gostava de pensar.

João estava fora havia já um mês. Trinta dias sem a voz dele a encher a casa, sem o riso dele, sem a sua presença ao nosso lado. O meu marido trabalhava como gestor numa grande seguradora. Conhecemo-nos ainda na universidade, no primeiro ano. Naquela altura, pareceu-me um homem sereno, firme, alguém em quem se podia confiar. Conquistou-me com a delicadeza, a educação e uma sinceridade rara. Levava-me flores, esperava por mim depois das aulas, convidava-me para tomar café. Depois de muitos anos de namoro, casámo-nos, e eu acreditava que tínhamos construído uma união sólida.
Quando a Maria nasceu, tentámos equilibrar trabalho e família da melhor maneira possível. Os vizinhos, por vezes, até nos apontavam como exemplo.
— Os Silva, sim, são uma família a sério — ouvi mais de uma vez.
E eu acreditava nisso. Éramos felizes… ou, pelo menos, era isso que eu via. As pequenas sombras de dúvida que por vezes me atravessavam o coração, eu afastava-as depressa, como se fossem pensamentos proibidos.
Até que, um mês antes, tudo mudou.
A notícia caiu sobre nós como um raio em céu limpo: a mãe de João, Maria, ficara gravemente doente. Alguns anos antes, ela tinha perdido o marido e desde então vivia sozinha na sua casa perto de Sintra, a cerca de três horas de viagem de nós. Era uma mulher dura, autoritária, de feitio difícil. Nunca tinha sido simples lidar com ela, mas, por amor ao João, eu sempre me esforcei por manter uma relação correta.
Nesse dia, João aproximou-se de mim com o rosto fechado e uma tensão estranha no olhar.
— Ana, a minha mãe está muito mal. Precisa de cuidados constantes. Vou para casa dela e fico lá algum tempo.
Fiquei surpreendida, claro.
— Porque é que não me disseste antes? — perguntei, tentando manter a calma. — Podíamos ir os três. Eu ajudava-te, contratávamos uma cuidadora, eu até podia pedir uns dias de férias.
João desviou os olhos, como se de repente o desenho do tapete lhe interessasse imenso.
— Não é preciso, Ana. Vai ser por pouco tempo. A minha mãe não está em condições de ver muita gente. Eu consigo tratar disto sozinho.
A forma como falou deixou-me inquieta. Não foi rude, mas havia naquela voz qualquer coisa fechada, distante, como se uma parede invisível se tivesse erguido entre nós. Ainda assim, convenci-me de que era apenas preocupação. Afinal, tratava-se da mãe dele. Abracei-o, beijei-lhe a face e prometi que lhe ligaria todos os dias.
Nos primeiros dias, ele atendia quase sempre. As conversas eram breves, secas. Dizia que Maria estava fraca, que a tensão subia e descia, mas que, no geral, a situação se mantinha controlada. Depois, os telefonemas começaram a rarear. As mensagens tornaram-se cada vez mais curtas. Às vezes passavam-se dias inteiros sem resposta, e ele justificava-se com o cansaço ou com falhas de rede.
Passou uma semana. Depois a segunda. Depois a terceira.
Eu tentava não alimentar pensamentos sombrios, mas uma ansiedade surda crescia dentro de mim. Maria perguntava cada vez mais vezes quando é que o pai voltava. Eu sorria, acariciava-lhe o cabelo e tentava sossegá-la.
