Dizia-lhe que faltava pouco, embora, dentro de mim, essa certeza já se tivesse começado a desfazer.
Numa dessas noites, depois de um turno particularmente extenuante, perdi a força de continuar à espera e voltei a ligar a João. O telefone chamou durante muito tempo. Quando já me preparava para desligar, ouvi do outro lado uma voz feminina que eu não conhecia.
— Estou?
Os meus dedos gelaram em torno do telemóvel.
— Desculpe… o João Silva está por aí?
Houve uma pausa breve, pesada.
— Está no duche — respondeu a mulher. — Quem fala?
Desliguei sem dizer mais nada.
Fiquei sentada na beira da cama, imóvel, com o telefone apertado na mão. O coração batia-me com tanta violência que parecia querer partir-me o peito por dentro. Durante alguns minutos, nem consegui perceber o que acabara de acontecer. A minha cabeça começou a fabricar explicações uma atrás da outra: uma enfermeira, uma vizinha, uma parente afastada, alguém que estava apenas a ajudar. Mas havia qualquer coisa naquela voz — a segurança, a intimidade tranquila, a ausência total de surpresa — que não combinava com uma presença ocasional.
Meia hora depois, João devolveu a chamada.
— Ana, ligaste? O telemóvel ficou noutra divisão.
— Quem atendeu? — perguntei, num fio de voz.
— Atendeu? Ninguém. Deve ter sido engano. A rede aqui anda esquisita.
Falava depressa demais, com uma tensão mal disfarçada, como se receasse que eu lhe fizesse a pergunta seguinte. Eu também a receava. Por isso não insisti. Disse apenas que estava cansada e terminei a chamada.
A partir dessa noite, o sono quase desapareceu. As ideias atropelavam-se, a angústia apertava-me a garganta, mas eu ainda me agarrava à possibilidade de haver uma explicação inocente, racional, qualquer coisa que devolvesse ordem à minha vida.
Passou mais uma semana. João deixou de ligar por completo.
Foi então que decidi ir ter com ele.
Pedi uns dias no trabalho, preparei uma mochila pequena para Maria e disse-lhe que íamos visitar a avó. Ela ficou radiante. Durante a viagem inteira falou sem parar, imaginando a cara que o pai faria quando nos visse aparecer de surpresa.
A casa da dona Maria recebeu-nos com um silêncio estranho. No pátio, estava estacionado um carro que eu nunca tinha visto. O portão encontrava-se apenas encostado. Bati à porta. Ninguém respondeu. Empurrei-a devagar, e ela abriu-se com um rangido quase impercetível.
Foi nesse instante que ouvi vozes vindas do interior.
— Tu disseste que ela não vinha — afirmou uma mulher, irritada.
— Eu não pensei que ela se metesse no carro e aparecesse aqui com a miúda — respondeu João.
— E pensas explicar-lhe alguma coisa, ou vais continuar a fugir?
Fiquei sem respirar. Maria segurava-me a mão e olhava em volta, sem compreender.
— Depois. Agora não é altura — disse ele, num tom abafado. — A minha mãe ainda está no quarto.
A mulher soltou uma gargalhada seca.
— Que mãe? Ela está no centro de reabilitação há duas semanas.
Senti a vista escurecer.
Empurrei a porta com mais força e entrei no corredor. João estava junto à mesa da cozinha. Ao lado dele encontrava-se uma morena alta, talvez com trinta e cinco anos, vestida com um robe de casa, como se aquele lugar também lhe pertencesse.
Ele perdeu a cor.
— Ana… tu aqui?
Não respondi. Maria encostou-se a mim, assustada.
— Pai? — chamou ela baixinho.
A mulher retirou lentamente uma toalha do gancho, com a calma artificial de quem representa uma cena ensaiada num mau melodrama.
— Então és tu — disse, com um sorriso frio. — Afinal esta é a tua “complicação temporária”?
João levou as mãos à cabeça.
— Não é o que parece…
E, de repente, uma serenidade estranha tomou conta de mim. Como se alguma coisa dentro de mim se tivesse partido de forma tão limpa que já nem doía.
— Onde está a dona Maria? — perguntei, com a voz firme.
Ele baixou os olhos.
— Num centro de reabilitação. Teve uma recaída, mas agora está estável.
— Porque mentiste?
— Eu… não sabia como te dizer.
Olhei para a mulher ao lado dele.
— E ela quem é?
— Sofia — respondeu a própria, antes que ele abrisse a boca. — Conhecemo-nos há um ano.
Um ano.
Não gritei. Não chorei. Apenas peguei em Maria ao colo.
— Tu não vieste cuidar da tua mãe — disse eu. — Vieste ter com ela.
João deu um passo na minha direção.
— Ana, espera. Isto é complicado. Eu perdi-me. Tu estás sempre no hospital, chegas sempre exausta, nós afastámo-nos há muito tempo…
Soltei um riso amargo.
— E a tua solução para não nos afastarmos foi arranjares outra mulher e abandonares a tua filha de sete anos sem lhe dar uma explicação?
Sofia cruzou os braços, impaciente.
— Ele ia contar-te tudo. Só não sabia como.
— Claro — murmurei. — Que nobre.
Maria tremia contra o meu peito.
— Mamã, vamos para casa — sussurrou ela.
