“Mãe, olha o desenho que fiz hoje no infantário!” exclamou Maria — cheguei de surpresa e, pela porta entreaberta, ouvi uma conversa que mudou tudo

Histórias
A ausência dele foi intolerável e profundamente injusta.

Virei-me para a saída.

— Ana! — gritou João atrás de mim. — Ainda sou teu marido!

Parei junto à soleira, sem me voltar de imediato. Depois olhei por cima do ombro.

— Já não és. Só que ainda não percebeste.

Saímos. Instalei Maria no carro, apertei-lhe o cinto e sentei-me ao volante. Quando tentei ligar o motor, os dedos tremiam-me tanto que a chave quase me escapou da mão.

Só depois de nos afastarmos daquela casa é que me permiti chorar. As lágrimas vieram todas de uma vez, silenciosas e violentas. Maria não disse nada; apenas estendeu a mão pequenina e afagou-me o ombro, como se fosse ela a adulta.

— Mamã… o pai já não gosta de nós?

A pergunta abriu-me por dentro. Demorei alguns segundos até conseguir falar.

— O pai… cometeu um erro muito grande, meu amor.

O telemóvel começou a tocar uma hora depois. Tocou uma vez, depois outra, depois outra ainda.

Não atendi.

Dois dias mais tarde, foi Maria quem me ligou.

— Ana, o que se passa? O João não me atende. Era para ter passado cá ontem.

Contei-lhe tudo, sem enfeites, sem poupar pormenores. Do outro lado, fez-se um silêncio comprido.

— Então era isto… — disse ela por fim, com a voz quebrada. — Perdoa-me. Eu não fazia ideia.

Uma semana depois, João apareceu à nossa porta. Trazia flores na mão e uma expressão de culpa colada ao rosto.

— Eu percebi tudo. Vou deixá-la. Dá-me uma oportunidade.

Fiquei a olhar para aquele homem que eu tinha amado durante mais de dez anos. Procurei dentro de mim raiva, saudade, desejo de o abraçar. Não encontrei nada.

— A tua escolha já foi feita, João.

Ele caiu de joelhos no patamar.

— Pela Maria…

Fechei a porta.

Um mês depois, avancei com o divórcio.

Sofia desapareceu da vida dele com a mesma rapidez com que tinha surgido. João ficou sozinho.

Escrevia-me, telefonava, aparecia sem avisar.

Eu, entretanto, aprendia a recomeçar.

Havia noites em que ficava acordada, de olhos fixos no teto, a tentar descobrir em que curva nos tínhamos perdido. Outras vezes, surpreendia-me à espera de ouvir os passos dele no corredor, como antes. E havia momentos em que uma parte frágil de mim queria acreditar que ainda era possível colar os pedaços.

Mas, todas as manhãs, eu via os desenhos de Maria presos à parede. Agora éramos só nós as duas: de mãos dadas, lado a lado, com sorrisos grandes e sinceros. E então eu entendia que a vida que nos esperava já não era a mesma.

Passaram seis meses.

O outono deu lugar ao inverno sem que eu quase desse por isso, e depois a primavera começou a espreitar timidamente pelas nossas janelas. Devagar, com teimosia, os dias foram encontrando uma nova ordem. Eu continuava a trabalhar na clínica, aceitava turnos noturnos, chegava muitas vezes com as costas doridas e o corpo moído. Mas já não regressava a uma casa cheia de perguntas por responder. Voltava a um lugar onde, pouco a pouco, reaprendia a respirar.

Maria mudou muito nesse tempo. Ficou mais calada, mais observadora, como se tivesse crescido depressa demais. À noite, sentava-se por vezes ao meu lado no sofá, encostava o ombro ao meu e via desenhos animados em silêncio, ela que antes falava sem parar. Eu sentia uma culpa funda por não ter conseguido protegê-la da dor que a traição do pai lhe trouxera.

Começámos a ir a uma psicóloga infantil. No início, Maria recusava-se a falar. Desenhava casas cinzentas e figuras sozinhas, pequenas no meio da folha. Até que, um dia, me desenhou com asas enormes e a ela própria por baixo, minúscula e abrigada.

— És tu, mamã — explicou, muito séria. — Estás a proteger-me.

Saí do gabinete e chorei no corredor.

João continuou a aparecer com regularidade. Trazia presentes, livros, peluches. Maria aceitava tudo com educação, mas mantinha uma distância cautelosa. Às vezes, ele tentava apanhar-me a sós.

— Eu ainda te amo — dizia em voz baixa. — Destruí tudo por estupidez. Deixa-me, pelo menos, estar perto da minha filha.

Nunca o impedi de ver Maria. Era o pai dela, por pior marido que tivesse sido. Ainda assim, cada visita deixava atrás de si um peso difícil de sacudir.

Um dia, ficou mais tempo do que era costume. Maria já se tinha recolhido no quarto, e nós permanecemos na cozinha, separados pela mesa.

— Ana — começou ele, sem levantar os olhos da bancada. — A Sofia estava grávida. Perdeu o bebé há um mês. Depois disso foi-se embora de vez.

Não respondi.

— Fiquei completamente sozinho — acrescentou.

Só então o encarei.

— Tu não estavas sozinho, João. Tinhas uma família. Foste tu que abdicaste dela.

Casa da Encarnação