— Mãe, pai, o Pedro e a Maria chegam no sábado. Vão ficar cá em casa durante um mês.
João disse aquilo como quem não diz nada. Estava encostado ao frigorífico, bebia kefir diretamente da embalagem e passava o dedo pelo telemóvel. O tom era o de alguém a anunciar que no dia seguinte talvez chovesse.
Eu tinha um prato nas mãos. Pousei-o na mesa. Devagar. Com cuidado demais.
— Um mês — repeti.
— Sim. O pai tirou férias, a mãe já andava há imenso tempo a querer vir. O Pedro também vem com a Maria. Ficamos todos juntos um bocadinho — respondeu ele, sorrindo sem levantar os olhos do ecrã. — Não há problema nenhum.

Não havia problema. Claro que não. Estávamos casados havia sete anos e, nesse tempo, a família dele já se tinha instalado na nossa casa quatro vezes. Nunca por menos de uma semana. E sempre avisando em cima da hora. Bem, quase sempre. Três dias de antecedência contam como aviso, não contam?
Eu trabalho como contabilista a partir de casa. O meu “escritório” é um cubículo de oito metros quadrados ao lado do quarto. Uma secretária, o computador, pastas, documentos. Cada coisa tem o seu lugar, medido quase ao milímetro, porque o nosso apartamento tem apenas duas divisões. Não é propriamente uma vivenda.
— João — comecei, tentando manter a voz calma. — Somos dois. Temos dois quartos. Onde é que vais pôr quatro adultos?
Só então ele se dignou a afastar os olhos do telemóvel.
— A minha mãe e o meu pai ficam na sala, no sofá. O Pedro e a Maria dormem no teu escritório. Compramos um colchão insuflável.
— E eu trabalho onde?
— Na mesa da cozinha — encolheu os ombros. — Ou no quarto. Tens portátil, não tens?
Fiquei parada a olhar para ele. Nem sequer me tinha perguntado. Não houve um “achas bem?”, nem um “importas-te?”, nem um “como fazemos?”. Limitara-se a comunicar a decisão. Como se a casa fosse apenas dele e eu uma peça incluída no mobiliário.
— Podias, ao menos, ter falado comigo antes — disse.
— Falar sobre quê? São os meus pais. Não são estranhos.
Não eram estranhos. Mas também não eram meus. Inspirei fundo. Depois soltei o ar lentamente.
— Está bem — respondi. — Então há uma condição. Cozinhas tu. Limpas tu. São teus convidados, és tu que tratas deles.
João riu-se, como se eu tivesse acabado de contar uma piada.
— Ana, não exageres. A minha mãe cozinha tudo. Ela adora cozinhar.
Não respondi. Havia seis meses que eu punha dinheiro de lado. Todos os meses, setenta ou oitenta euros ganhos em trabalhos extra, para além do meu emprego principal. À noite, aos fins de semana, muitas vezes de madrugada. Fechava contas de empresas alheias para conseguir juntar o suficiente para umas férias. Férias a sério, junto ao mar, em silêncio. Tinha quatrocentos e oitenta euros guardados num cartão separado.
Era a minha pequena rota de fuga. Na altura, eu ainda não imaginava que iria precisar dela tão depressa.
No sábado, chegaram. Os quatro. Traziam três malas, dois sacos enormes e umas compras do Pingo Doce: três frascos de pepinos em conserva e um pacote de trigo-sarraceno. Presente, suponho.
Teresa entrou primeiro. Era uma mulher corpulenta, com anéis em todos os dedos e uma voz capaz de assustar os gatos do prédio inteiro. Parou no hall e inspecionou tudo como se estivesse a receber uma obra acabada.
— Isto aqui é apertado — declarou, em vez de cumprimentar. — E este papel de parede… já da outra vez eu disse que não ficava bem.
— Boa tarde — respondi.
O meu sogro, Manuel, homem silencioso e quase invisível, limitou-se a acenar-me com a cabeça e desapareceu logo na direção da televisão. Pedro, o irmão mais velho de João, passou pela porta de lado. Atrás dele veio Maria, magrinha, calada, com aqueles olhos que pareciam viver sempre pregados ao chão.
João andava numa azáfama. Transportava malas, empurrava móveis no escritório, estendia o colchão insuflável. O colchão ocupou metade da divisão. A minha secretária foi encostada à parede de tal maneira que a cadeira já nem cabia.
— Eu trabalho aqui — disse-lhe, quando o apanhei na cozinha.
— Trabalhas na mesa da cozinha uns tempos. É provisório. É só um mês.
Só um mês. Duzentas e quarenta horas de trabalho à mesa da cozinha, entre panelas, cheiros de comida e a minha sogra a vigiar-me os movimentos.
Passei o primeiro dia ao fogão. Teresa não cozinhou. Teresa comandou. Sentou-se num banco, cruzou os braços sobre o peito e começou a distribuir instruções:
— Corta a cebola mais fina. Cebola desse tamanho não é sopa, é lavagem.
— A cenoura é ralada, não é aos cubos. Onde é que já se viu?
— Esse azeite não presta. Tem de ser do bom. João, aponta isso, para a tua mulher comprar.
Fiquei três horas de pé, junto ao fogão. Assei a beterraba no forno, como fazia sempre, para manter a cor. A minha sogra inclinou-se sobre a panela, cheirou e fez uma careta.
— A sopa devia ficar escura. Isto parece água cor-de-rosa.
Engoli a resposta. João estava na sala com o pai, a ver futebol. A condição de que seria ele a cozinhar evaporara-se em exatamente doze horas.
Pedro comia por três. Um prato cheio, depois outro, meio pão a acompanhar. Maria mexia na comida com a colher, quase sem tocar nela. Teresa comia e comentava cada garfada.
— Está salgado demais — disse.
Manuel, sem dizer uma palavra, serviu-se outra vez. Decidi tomar aquilo como um elogio.
Ao fim da tarde do primeiro dia, lavei a loiça de seis pessoas. Vinte e duas peças: pratos, chávenas, tachos, uma frigideira. João via uma série. Pedro ressonava no meu local de trabalho.
Sentei-me na cama do quarto e abri o portátil. Tinha um relatório urgente para entregar; o cliente esperava-o na segunda-feira. A luz do candeeiro batia no ecrã, a mesa improvisada era baixa de mais, e tive de pôr uma almofada debaixo dos cotovelos para conseguir escrever.
Do outro lado da parede, Teresa comentava com João que “a nora bem podia sorrir um bocadinho”. Eu ouvia cada palavra.
— Ela está cansada, mãe — disse João.
