“São os meus pais. Não são estranhos” disse ele, sorrindo sem levantar os olhos do ecrã

Histórias
Imposição egoísta e desrespeitosa que sufoca o lar.

— E eu não estou cansada, por acaso? — respondeu Teresa. — Fiz dez horas de comboio. E, como vês, continuo a sorrir.

Fechei o portátil devagar. Os dedos latejavam de tanto bater nas teclas, e as costas pareciam ter ficado presas num nó. Ainda faltavam vinte e nove dias para o mês acabar.

Ao terceiro dia, Teresa decidiu mudar a sala inteira.

Eu tinha acabado de chegar do supermercado, carregada com quatro sacos e menos vinte e três euros na conta, quando parei à entrada sem reconhecer a divisão. O sofá atravessava a sala de lado a lado. A televisão estava virada para a janela. O meu ficus, que eu cuidava havia três anos, tinha sido abandonado no chão do corredor.

— Assim está muito melhor — declarou a minha sogra, satisfeita. — A energia precisa de circular.

— Teresa — pousei os sacos com cuidado —, o João e eu pusemos os móveis desta maneira por uma razão. Se o sofá ficar aí, tapa o radiador. A sala vai ficar abafada.

— Disparate. Abrem uma fresta da janela e pronto.

Olhei para João. Ele esfregava a cana do nariz, aquele gesto de sempre quando preferia desaparecer a tomar posição.

— Mãe, se calhar era melhor voltarmos a pôr como estava… — tentou ele.

— Joãozinho, eu sei mais do que ela. Tenho quarenta anos de vida a mais.

Peguei no ficus e devolvi-o ao parapeito da janela. Depois aproximei-me do sofá, apoiei as mãos no encosto e comecei a empurrá-lo.

— O que estás a fazer? — Teresa endireitou-se no lugar.

— A pôr tudo no sítio — respondi. — Esta casa é nossa. E os móveis ficam como nós decidimos.

Fez-se um silêncio pesado. Teresa olhou para João. João fixou a parede. Do outro lado, Manuel mudou de canal.

— Está bem, está visto — disse a minha sogra, com voz magoada. — É isto que tens em casa, Joãozinho. Uma mulher fria. E eu só queria ajudar.

Foi para a cozinha e começou a bater com pratos e tachos. Continuei a arrastar o sofá sozinha. João não mexeu um dedo. Uma dor aguda subiu-me pelas costas, mesmo entre as omoplatas.

À noite, ele entrou no quarto.

— Tinhas de fazer aquilo? — perguntou.

— Aquilo o quê?

— À frente da minha mãe. Ela ficou ofendida.

— A tua mãe mudou a nossa sala sem nos perguntar.

— Queria fazer uma coisa boa.

Não respondi. Deitei-me de lado e virei-lhe as costas. Através da parede, Teresa falava ao telefone com uma amiga. Apanhei palavras soltas, mas suficientes: “a nora é um gelo”, “o meu Joãozinho sofre”, “nem uma sopa decente sabe fazer”.

Sete anos. Havia sete anos que eu ouvia a mesma música, só mudava a letra. E, de cada vez, João esfregava o nariz e calava-se.

No dia seguinte, Teresa comportou-se como se nada tivesse acontecido. Sorria, punha a mesa — com os meus pratos — e explicava a Pedro como tinha “organizado tudo” desde que chegara.

Abri o frigorífico. Vazio. Na véspera estava cheio; eu comprara comida para dois dias. Seis adultos tinham devorado tudo em vinte e quatro horas. Dois quilos de frango, uma embalagem de manteiga, um pão, queijo, tomates, pepinos, um pacote de leite. Vinte e três euros desaparecidos num único dia.

Tirei o telemóvel do bolso, abri as notas e comecei a fazer contas.

Ao décimo dia, já sabia os números de cor.

Comida: cerca de vinte e dois euros por dia. Em dez dias, duzentos e vinte. Ao fim do mês, passaria facilmente dos seiscentos.

Eletricidade: a máquina de lavar trabalhava todos os dias. Antes, ligávamo-la duas vezes por semana. Quatro adultos a mais, connosco incluídos, significavam seis máquinas cheias onde antes havia duas.

Água: bastava olhar para o contador. Em dez dias, gastara-se quase o que João e eu costumávamos gastar em mês e meio.

E ainda havia o meu tempo. Quatro horas diárias ao fogão. Quarenta horas em dez dias. Uma semana inteira de trabalho perdida a cozinhar.

Pedro e Maria instalaram-se no meu escritório como se fosse deles. O colchão insuflável continuava estendido no meio da divisão. Maria pendurara roupa na minha cadeira de trabalho. Pedro trouxera uma coluna e punha música popular em volume suficiente para atravessar paredes.

Eu trabalhava na cozinha, com o portátil espremido entre a tábua de cortar e um frasco de pickles.

Na quarta-feira, o cliente telefonou.

— Ana, quando é que me envia o relatório? Estou à espera há três dias.

— Amanhã — respondi.

Desliguei. Nesse preciso instante, Teresa entrou na cozinha.

— Aninha, faz uns panadinhos. O Pedro gosta tanto com puré.

Olhei para ela. Depois para o portátil. Depois de novo para ela.

— Teresa, eu estou a trabalhar.

— Isso faz-se num instante. Há carne picada no frigorífico.

Não havia carne picada nenhuma. Eu tinha verificado de manhã. Comprara-a no dia anterior — quilo e meio, quase cinco euros — e tinha desaparecido ao jantar, transformada em almôndegas.

— A carne acabou — disse.

— Então vais comprar. O supermercado é mesmo do outro lado da rua.

Fechei o portátil. Levantei-me. As mãos cerraram-se sozinhas, e senti as unhas cravarem-se nas palmas.

Nessa noite, ao jantar — porque, apesar de tudo, fiz os panadinhos, depois de comprar carne com o meu dinheiro —, Teresa puxou conversa.

— Eu e o Manuel andamos a juntar para fazer obras — comentou. — Com a reforma é difícil. O Joãozinho ajuda, claro, mas é pouco.

Ergui os olhos.

— Pouco? — repeti.

Todos os meses, João transferia cento e cinquenta euros para os pais. Saía do nosso orçamento comum. Eu sabia o valor exato, porque era eu quem controlava as despesas da casa.

— Ora, cento e cinquenta euros… — Teresa abanou a mão, como se fosse uma ninharia. — Isso nem dá para a comida de um mês.

Pousei o garfo. Olhei para cada um deles. João esfregava a cana do nariz. Pedro mastigava. Maria mantinha os olhos no prato. Manuel tossiu, desconfortável.

— Então vamos fazer contas — disse eu.

Ninguém se mexeu.

— Vivem connosco há dez dias.

Casa da Encarnação