“Como assim, a tua casa não entra na partilha? Eu contava com a minha parte depois do casamento…” reclamou o marido, falando do apartamento que ela já tinha antes do casamento

Histórias
Esta separação é dolorosa, mas também libertadora.

— Como assim, a tua casa não entra na partilha? Eu contava com a minha parte depois do casamento… — reclamou o meu marido, falando do apartamento que eu já tinha antes de nos casarmos.

Para Ana, a citação do tribunal para o divórcio não caiu como um raio em céu limpo. O último ano ao lado de João fora uma espécie de agonia lenta, silenciosa e dolorosa. As horas extra que nunca acabavam, a frieza, o olhar sempre distante — tudo apontava na mesma direção. Um mês antes, ele limitara-se a chegar a casa, meter as roupas numa mala e anunciar que “tinha conhecido outra pessoa” e que “assim era mais correto”. Correto. Que palavra estranha para disfarçar uma traição.

Ana não tentou segurá-lo. A dor existia, surda e persistente, como uma ferida antiga que voltava a latejar nos dias de chuva, mas junto dela veio também um alívio inesperado. Já não precisava de fingir que ainda havia alguma coisa a salvar, nem de arrancar conversas à força, nem de procurar culpas dentro de si. Aquilo tinha terminado.

Continuou a viver no seu apartamento, uma casa ampla e cheia de luz, de duas divisões, que herdara dos pais muito antes de conhecer João. Aquele espaço sempre fora o seu refúgio, a sua fortaleza. E agora, depois da partida dele, começava devagar a voltar a pertencer-lhe por inteiro. Ana pôs-se a fazer tudo o que adiara durante anos: mudou o papel de parede do quarto, comprou finalmente o cadeirão com que sonhava há tanto tempo, reorganizou armários, deitou fora objetos sem memória boa. Estava, peça a peça, a reconstruir a própria vida.

Uma semana depois de receber a notificação, João telefonou-lhe. Tinha uma voz seca, prática, quase administrativa.

— Olá, Ana. Temos de nos encontrar para acertar os detalhes da partilha. Sem advogados, para não estarmos a gastar dinheiro à toa.

Ela aceitou. Ainda queria acreditar que, apesar de tudo, seriam capazes de se separar com alguma dignidade.

Marcaram num café. João apareceu com uma pasta de documentos debaixo do braço, como se fosse para uma reunião de negócios.

— Então — começou ele, abrindo a pasta com ar concentrado. — Quanto aos bens comuns. O carro fica comigo, sou eu que o uso. A garagem fica para ti; avaliamos o valor e descontamos da minha parte. A casa de férias…

Falava dos dez anos de casamento como quem lê o balanço final de uma empresa falida. Ana sentiu o peito apertar, mas manteve-se imóvel, sem lhe dar o prazer de a ver abalada.

— E, claro, há o apartamento — acrescentou ele, chegando ao ponto que realmente lhe interessava.

— O que é que tem o apartamento? — perguntou Ana.

— Divide-se, como manda a lei.

— João, o apartamento era meu antes do casamento. Não é bem comum e não está sujeito a partilha. É isso que a lei diz.

Ele ergueu os olhos para ela. Não havia embaraço, nem remorso, nem a mais pequena sombra de vergonha. Apenas uma insatisfação fria, teimosa, quase ofendida.

— Como assim, a tua casa não entra na partilha? — indignou-se, com uma sinceridade que a assustou. — Eu contava com uma parte depois do casamento!

Ana ficou a olhá-lo, atónita. “Contava.” Portanto, já tinha feito contas desde o início. Talvez desde o dia em que assinara os papéis no registo.

— E com que parte é que contavas, João? — perguntou, esforçando-se por manter a voz serena.

— Com metade, obviamente! — respondeu ele, começando a irritar-se. — Vivi naquela casa durante dez anos! Paguei contas! Fui eu que mudei lâmpadas, fui eu que arranjei a torneira quando avariou! Dei ali anos da minha vida, o meu tempo, o meu trabalho. Achas que isso não vale nada?

— Acho que isso se chama viver casado — retorquiu Ana. — Eu também cozinhei, lavei roupa, limpei a casa. Queres que te apresente uma fatura pelos serviços domésticos?

— Não distorças as coisas! — João bateu com a mão na mesa, fazendo estremecer as chávenas. — Não é a mesma coisa! Eu sou homem, investi no principal bem da família. A minha ideia era clara: se algum dia nos divorciássemos, venderíamos o apartamento como pessoas civilizadas e acertaríamos contas.

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