Dividíamos o dinheiro. Isso, sim, é que seria justo!
“Justo.” Ele, que a deixara por outra mulher, tinha agora a ousadia de invocar justiça.
— Justo, João, é aquilo que está na lei. E a lei diz que tu não tens qualquer direito sobre a minha casa — respondeu Ana, com a voz tão fria que parecia cortar.
— Quero lá saber da tua lei! — a voz dele ganhou um tom agudo, quase histérico. — Também existe consciência! Existem regras humanas! Não vou sair daqui só com uma mala na mão! Não foi para desperdiçar dez anos da minha vida contigo!
Ele nem pareceu perceber o que acabara de dizer. Mas Ana percebeu. “Desperdiçar.” Como se ela tivesse sido um mau investimento.
— Então achas que eu te devo pagar uma espécie de indemnização? Uma compensação por teres sido meu marido?
— Chama-lhe o que quiseres! — já quase gritava, ao sentir o plano a desfazer-se. — Mas não vou embora de mãos vazias! Levo isto para tribunal! Provo que fiz obras que não podem ser separadas do imóvel! Arranjo testemunhas, se for preciso!
Ana ficou a observá-lo. Aquele homem estranho, exaltado, cuspindo raiva, já nada tinha a ver com a pessoa por quem ela chorara. E, naquele instante, a traição dele deixou de lhe doer. O que sentiu foi repulsa… e alívio. Um alívio enorme, avassalador, por saber que aquele homem deixaria finalmente de ocupar espaço na sua vida.
Levantou-se em silêncio, pousou sobre a mesa o dinheiro do café e caminhou para a saída.
— Onde vais?! Ainda não acabámos de falar! — gritou ele atrás dela.
Ana parou por um segundo, mas não se voltou.
— Acabámos, sim, João. Acabámos há um ano, quando decidiste que a tua vida seria melhor ao lado de outra mulher. Agora peço-te apenas que sejas coerente com as tuas escolhas. Foste embora. Então vai de vez. E leva contigo essas tuas “contas”.
Saiu para a rua. Chovia. Ainda assim, teve a sensação de abandonar uma sala abafada, cheia de fumo, e de voltar finalmente a respirar ar limpo. Sabia que João avançaria com uma ação. Sabia que a esperavam lama, desgaste, nervos e honorários de advogados. Mas também sabia que venceria. Porque, do lado dela, não estava apenas a lei. Estava também a verdade.
Quando deixou o café e entrou na rua molhada, impregnada daquele cheiro fresco de chuva, Ana não seguiu para casa. Virou para um pequeno jardim quase vazio, sentou-se num banco húmido e só então se autorizou a inspirar fundo. O ar entrou-lhe nos pulmões com dificuldade, como se tivesse acabado de emergir depois de um mergulho longo e sufocante.
Não chorou. A fase das lágrimas terminara um ano antes, no dia em que João partira. Agora havia dentro dela outra coisa: um desprezo frio, quase físico, misturado com uma lucidez amarga que chegava tarde demais. De repente, os dez anos de vida em comum apareceram-lhe sob uma luz impiedosa. Compreendeu que a traição dele não começara quando ele conhecera a outra mulher. Estivera entranhada no casamento desde o primeiro dia.
Para João, ela nunca fora verdadeiramente uma companheira. Fora um projeto. Um investimento. Como um investidor cuidadoso, ele aplicara nela apenas o suficiente para manter o seu “valor de mercado”: elogios na medida certa, flores ocasionais, migalhas raras de atenção. E ela, cega pelo amor e pela gratidão por “um homem daqueles” a ter escolhido logo a ela, uma rapariga simples, entregara tudo sem reservas: a energia, o apoio, a admiração. E até o apartamento que já era seu antes do casamento, transformado com alegria no “lar dos dois”. Só agora percebia que, para ele, aquele lar nunca fora um ninho, mas antes um escritório com quarto confortável e serviço doméstico gratuito.
