— Se voltares a mexer no meu dinheiro para entregares à tua mãe, vais morar com ela de mochila às costas, ouviste? E leva também as pantufas, herói da caridade familiar.
João nem baixou logo o telemóvel. Continuou sentado no sofá, colado ao ecrã, com o ar culpado de um adolescente apanhado no sítio errado à hora errada. Só depois ergueu os olhos, devagar.
— Ana, mal entras em casa já começas? O que foi agora?
— “Agora”, diz ele. — Ana atirou para cima da mesa um envelope grosso. — Foi isto. Acabei de contar pela terceira vez. Faltam outra vez cinquenta euros. Outra vez, João. Não são dois euros para leite, nem dez para um táxi. São cinquenta. E isto já deixou de parecer distração; agora é uma atração de família chamada “adivinha quem manda nesta casa”.
— E o que é que eu tenho a ver com isso? — ele enrijeceu imediatamente, embora a cara lhe tivesse ficado com a expressão de quem, por dentro, já começara a redigir uma confissão. — Eu não tirei nada.

— Claro que não. Tu és uma alma imaculada. O dinheiro é que viu uma oportunidade de futuro e saiu sozinho.
— Ana, já chega.
— Não, não chega. Estive calada um mês inteiro. Da primeira vez achei que me tinha enganado. Da segunda, pensei que talvez tivéssemos gasto e não reparado. Da terceira ainda admiti que tu tivesses pegado e te esquecesses de dizer. Mas quando acontece pela quarta vez no mesmo mês, já não é falta de memória: é matemática.
João levantou-se, enfiou o telemóvel no bolso das calças de fato de treino e passou a mão pelo rosto.
— Eu não tirei. Juro. Dou-te a minha palavra.
— Então quem tirou? O gato? Ele é atrevido, sim, mas ainda não aprendeu a levantar notas.
— Não comeces com a minha mãe, está bem? — João reagiu de imediato. — Ela só veio cá regar as plantas.
— Ah, claro. Regar as plantas. E, pelo caminho, arejar o envelope?
— Mas que disparate é esse?
— Não é disparate, é juntar dois mais dois. As chaves estão connosco e com a tua mãe. Eu não tiro. Tu, segundo dizes, também não. Quem sobra? O carteiro?
João torceu a boca.
— Tu fazes de propósito para a meter sempre ao barulho.
— E tu fazes de propósito para a tirar de tudo. É um dom. Devias atuar num circo.
Ele deu umas voltas pela sala, fingindo um interesse súbito na manta pousada no braço do sofá, como se o alinhamento dela fosse uma questão nacional. A bochecha de Ana tremeu de irritação. Conhecia demasiado bem aquele ritual: quando ele não tinha nada de concreto para responder, punha-se a representar tarefas domésticas.
— Eu não quero discutir agora — murmurou ele, quase entre dentes.
— E achas que eu quero? Pensas que isto é o meu passatempo preferido? Chegar do trabalho, abrir a cómoda e sentir-me uma idiota? Eu andava a juntar esse dinheiro para o carro. Para a oficina, João. Não era para um casaco de luxo, nem para unhas, nem para caprichos de “vida bonita”. A suspensão faz tanto barulho que parece que temos um mecânico furioso fechado na bagageira.
— Eu percebo tudo isso.
— Não, não percebes. Se percebesses, já tinhas falado com a tua mãe há muito tempo.
— Porque não há nada para falar! — explodiu ele. — Tu já a julgaste antes de…
Nesse instante, a chave rodou na fechadura.
Ana nem sequer se sobressaltou. Apenas sorriu de lado, um sorriso curto, duro, sem alegria.
— Ótimo. Entra a personagem principal. Agora conversamos todos, sem faltar ninguém.
A porta abriu-se e Maria apareceu no corredor, com uma gabardina de um lilás cansado, um saco de supermercado na mão e a expressão de quem não chegava para visitar, mas para inspecionar.
— Mas que gritaria é esta, que se ouve no prédio inteiro? — disparou logo da entrada. — Pessoas normais, depois do trabalho, jantam. Vocês montam teatro. João, estás outra vez com fome? Trouxe-vos frango. Porque no vosso frigorífico há sempre tristeza, iogurte e três ovos.
Ana voltou-se lentamente para ela.
— Chegou mesmo a tempo. Estávamos precisamente a falar do dinheiro que desapareceu.
Maria pousou o saco no chão e estreitou os olhos.
— Que dinheiro?
— O meu. Do envelope. Da cómoda. Cinquenta euros. Hoje. E antes disso mais uma vez, e outra, e outra.
A sogra endireitou-se.
— Estás a insinuar o quê?
— Não estou a insinuar. Estou a perguntar diretamente. A senhora tirou?
— Tu estás boa da cabeça? — a voz de Maria subiu logo vários tons. — Eu venho a casa do meu filho, trago comida, e sou recebida com um interrogatório, como se me tivessem apanhado a roubar uma carteira no mercado?
— Não se trata de uma carteira. Trata-se do desaparecimento repetido de dinheiro — respondeu Ana, mantendo a voz controlada. — Há uma diferença.
— Que educada ficas quando estás a ser malcriada — bufou Maria. — João, estás a ouvir a maneira como a tua mulher fala comigo?
João permanecia entre a cozinha e a sala, como se tentasse escolher o lugar menos perigoso. Mas, naquele momento, não havia zona segura.
— Mãe, vamos falar com calma…
— Com calma? — Maria abriu os braços, indignada. — Pois claro, com calma. A tua mulher acusa-me de ladra e eu tenho de sorrir baixinho? Queres que ainda lhe agradeça? Ana, não te estarás a confundir? Convém lembrar que eu não entro aqui de mãos vazias.
— Mas, ao que parece, também não sai de mãos vazias — cortou Ana.
— Sua…
— Mãe — interveio João — espera…
— Não, espera tu! — Maria virou-se para ele. — Primeiro quero ouvir até onde a tua santinha vai chegar. Vá, Ana, diz-me na cara. Tu achas que fui eu que tirei o vosso dinheiro?
Ana cruzou os braços sobre o peito.
— Acho que o dinheiro só desaparece nos dias em que a senhora cá vem sem nós estarmos. E também acho que já chega de fingirmos que isto é nevoeiro, mistério ou espíritos maus do prédio.
— Olhem para ela. Ainda faz piadas. Muito espirituosa, a menina. Mas por uma moedinha era capaz de se engasgar.
— Por uma moedinha, não. Pelo que é meu, luto.
— Teu? — Maria soltou uma risada seca. — Então agora, na vossa família, há o teu e o dele? Interessante. E quando foram de férias para a praia, o dinheiro era de quem? E quem vos ajudou a comprar o frigorífico? E quando se mudaram para este apartamento, quem vos deu metade dos tachos? Queres que te recorde?
— Recorde também as três toalhas e a jarrinha. Talvez eu deva abrir já um museu da gratidão.
— Estás a gozar comigo?
— Não. Estou só cansada. Cansada de a senhora entrar aqui como se isto fosse a sua casa. Cansada dos sacos acompanhados de “trouxe-vos isto”, depois dos quais desaparece ora frango, ora queijo, ora dinheiro. Cansada das suas chaves. Cansada de ver o meu marido transformar-se em mobília sempre que ouve a palavra “mãe”.
João estremeceu.
— Ana!
— O quê, “Ana”? Não gostaste da formulação? Então arranja uma melhor. Mas que seja verdadeira.
Maria inspirou ruidosamente, como se tivesse levado uma afronta pública.
— Ah, então é isso. O que te incomoda são as minhas chaves. Não é o dinheiro, nem a ajuda, nem o meu cuidado. É eu poder entrar na casa do meu filho. Diz logo.
— Muito bem. Digo. Irrita-me que entre sem avisar. Irrita-me que abra os nossos armários. Irrita-me que mexa no que não é seu. E irrita-me que, para tudo, a senhora tenha sempre a mesma desculpa de mãe.
