“Se voltares a mexer no meu dinheiro para entregares à tua mãe, vais morar com ela de mochila às costas, ouviste?” disse Ana, atirando um envelope grosso para cima da mesa

Histórias
Desonestidade pequena é vergonhosamente intolerável.

— Desculpa essa que se resume sempre ao mesmo: “sou mãe, tenho direito”. Não, não tem.

— Não tenho? — Maria soltou uma espécie de riso curto, quase ofendido. — Agora és tu que me vais ensinar o que posso ou não posso fazer? Criei-o sozinha. Matei-me em dois empregos. Dei-lhe tudo…

— E isso autoriza-a a tirar dinheiro da cómoda? — cortou Ana. — Curiosa forma de fazer contas à gratidão.

— Eu não tenho de te prestar satisfações! — explodiu a sogra. — Ele é meu filho! Se eu precisar de alguma coisa, ele ajuda-me!

— Ajudar é quando se pede e se combina. Não é entrar, abrir a gaveta, meter no bolso e depois fazer cara de santa.

João olhou para uma e para outra, encurralado.

— Mãe… foste tu que tiraste? — perguntou, baixo.

Maria virou-se para ele como se tivesse levado uma bofetada.

— Tu também? Chegámos a esse ponto? Um filho a interrogar a própria mãe? Bonito.

— Responde só.

— Responder a quê? Que a conta da luz subiu? Que tive de deixar dinheiro à vizinha pela água da casa de campo? Que ia pedir-te, mas tu estás sempre com o “mãe, depois”, “agora não dá”, “falamos depois do ordenado”? Eu devia ficar de mão estendida enquanto a tua mulher me olha como se eu lhe tivesse cuspido na sopa?

— Portanto, tirou — disse Ana, num fio de voz.

— Eu não roubei! — gritou Maria, quase sem se conter. — Tirei ao meu filho! Por pouco tempo! Depois punha no sítio!

— Quando? No fim do mundo? — Ana avançou um passo. — Há um mês que anda a ser “por pouco tempo”.

— Não faças teatro.

— Eu? Não sou eu que vasculho gavetas alheias.

— Alheias? Na casa do meu filho, sou alheia? Estás a ouvir, João? Ela chama-me estranha!

— Mãe, não é essa a questão — murmurou ele.

— É exatamente essa! — Maria apontou o dedo a Ana. — Ela nunca me engoliu. Percebi logo no casamento. Ali toda sorridente, mas com contas nos olhos. Tudo arrumadinho, tudo em listas. Joãozinho, não te sentes aí; Joãozinho, não comas isso; Joãozinho, não dês à tua mãe. Instalou-se muito bem.

— Primeiro, não é “Joãozinho”; ele tem trinta e dois anos. Segundo, se eu não mantivesse as coisas minimamente organizadas, já estávamos a jantar ar e promessas. Porque nesta casa há quem saiba receber o salário e dizer apenas: “logo se vê, havemos de dar um jeito”.

— Lá estás tu outra vez — resmungou João, sem força.

— Sim, outra vez. Porque isto é a minha vida, não é uma série onde se saltam os episódios chatos.

Ana virou-se de repente, foi à cómoda, abriu a gaveta de cima e tirou um bloco e uma caneta.

— Está bem. Já que gostam tanto de falar de ajuda, vamos pôr a ajuda em números.

— Perdeste o juízo de vez? — perguntou Maria, semicerrando os olhos.

— Não. Só decidi que, nesta família, vai passar a existir registo. Ora veja: dia cinco, menos trinta euros. Dia nove, menos vinte. Dia catorze, mais cinquenta. Hoje, outros cinquenta. Total: cento e cinquenta euros. Junte-se a isto a comida que desaparece depois das suas visitas de “é só um minuto”: salmão fumado, café, queijo — e queijo decente, já agora, não aquela borracha em promoção. Mais produtos de limpeza. Ou na sua casa o detergente da roupa nasce sozinho?

— És mesquinha.

— Não. Estou cansada. É diferente.

— E o que pretendes provar com isso?

— Que não vou continuar a fingir que nada se passa.

João pigarreou.

— Ana, se calhar não era preciso assim…

— Então como era preciso? Com jeitinho? Com música de fundo? Com uma apresentação em PowerPoint? “Dona Maria, querida, reparámos que o nosso dinheiro evapora misteriosamente; podia, por favor, roubar com menos barulho?”

João não conseguiu evitar um riso breve. Ana ouviu-o e fulminou-o com o olhar.

— Não te divirtas. Tu não és espectador nesta história. És cúmplice, na categoria de cobardia conveniente.

— Obrigado, minha querida esposa — murmurou ele.

— Sempre às ordens.

Maria ergueu o queixo com solenidade ferida.

— Estás a ver, João? É assim que falam com a tua mãe dentro da tua casa.

— Da nossa casa — corrigiu Ana.

— Tanto faz! O sentido é o mesmo! Tu permites que ela me humilhe.

— Mãe — João, por fim, encarou-a —, a verdade é que não devias ter tirado nada sem perguntar.

Fez-se um silêncio tão denso que até o frigorífico pareceu reduzir o zumbido para não atrapalhar.

— O quê? — disse Maria, muito devagar.

— Não devias ter tirado — repetiu João, desta vez com mais firmeza. — Foi errado.

— Errado? — a sogra sorriu de lado, como se o filho tivesse acabado de enlouquecer. — E certo é ficares debaixo da saia dela a repetir o que ela manda?

— Não são palavras dela. É um facto.

— Ah, um facto. Vejam só. Ganhou voz. E quando foi preciso pagar-te a faculdade, quem é que lidou com os factos? Quando andavas no inverno sem casaco, quem é que comprou um? Quando te meteste naquela embrulhada do crédito da mota, quem é que te tirou do buraco?

— Mãe, chega.

— Não chega coisa nenhuma! Vais tu agora explicar-me o que é certo e errado? Eu, na tua idade…

— Pois — cortou Ana. — Na idade dele, a senhora já se tinha habituado a achar que toda a gente lhe devia alguma coisa. Incluindo o próprio filho.

— Como te atreves?

— Com facilidade. Tive um dia difícil, encontrei um envelope vazio e a paciência acabou.

Maria agarrou no saco que estava no chão e pousou-o em cima do móvel com estrondo.

— Então não precisam dos meus produtos. Nem das minhas visitas. Ótimo. Depois não venham a correr para mim quando a vida vos der uma pancada.

— Não se preocupe — respondeu Ana. — Havemos de nos arranjar. Mas, antes disso, devolva as chaves.

— O quê? — Maria não percebeu, ou fingiu não perceber.

— As chaves do apartamento. Aquele molho com o porta-chaves grande. Ponha-o na mesa.

— Enlouqueceste? — a sogra levou a mão ao peito. — Queres afastar-me do meu filho?

— Não. Quero fechar a minha porta.

— João! Estás a ouvir? Ela está a exigir-me as chaves!

João ficou calado. Ana via-lhe o maxilar tenso, os músculos a saltarem junto às têmporas. Ele odiava momentos daqueles; não por serem dolorosos, mas porque o obrigavam a escolher. E escolher nunca fora o seu forte. Preferia que tudo se dissolvesse sozinho, de preferência sem a sua intervenção.

— João — disse Ana, com uma frieza limpa —, ou a tua mãe deixa agora as chaves em cima da mesa, ou amanhã mudo a fechadura. E, já agora, mudo também o funcionamento desta família. Nesse novo modelo, vais ter muito tempo livre para cumprir o teu dever de filho.

Maria fitou o filho, desafiante.

— Então? Diz alguma coisa. Ou já decidiste ser apenas um acessório do cartão de salário dela?

O canto da boca de João tremeu.

— Mãe, não comeces.

— Sou eu que não devo começar? Foi ela que montou este circo!

— Não é circo. É a conversa que devia ter acontecido há muito.

Casa da Encarnação