“o meu ordenado é dinheiro meu” — disse João, desencadeando uma disputa enquanto Ana esfregava a mancha no azulejo, sufocando a raiva

Histórias
O egoísmo constante é cruel e revoltante.

— Ana, estive a pensar e cheguei a uma conclusão: o meu ordenado é dinheiro meu. Fui eu que o ganhei, portanto tenho todo o direito de o gastar como entender. Nas minhas coisas, no carro, em ajudar a minha mãe. Quanto à casa, vivemos com o teu salário. Tu és tão poupadinha, não és? Andas sempre a descobrir promoções nos supermercados. Então, fica entregue a ti.

Continuei a esfregar com a esponja aquela mancha antiga de gordura nos azulejos por cima do fogão. Esfregava com tanta força que as unhas, por baixo das luvas de borracha, já começavam a doer. O som era áspero, irritante, quase um guincho. O pano tremia na minha mão, mas eu não me virei. O cheiro agressivo do detergente misturava-se ao odor do molho queimado — João, mais uma vez, esquecera-se de apagar o bico do fogão enquanto passava o guisado para outro recipiente.

— Dinheiro teu, portanto — soltei devagar o ar, sem interromper o que fazia. — João, e não te incomoda nada termos uma prestação da casa para pagar durante vinte anos? E o Pedro entrar para a escola este ano? Material, farda, livros… Tens sequer noção de quanto custa hoje comprar comida decente, se não quisermos viver só de massa?

— Ai, por favor, não comeces — respondeu ele, atravessando a cozinha e batendo os calcanhares pesados no chão flutuante. — Tu transformas tudo numa tragédia. Eu não disse que nunca te dava dinheiro. Se apertares muito, pedes-me e eu logo vejo. Mas, por regra, o orçamento fica contigo. Tu é que és a certinha cá de casa, sempre a falar em justiça. Então mostra lá esses teus milagres de contabilidade.

Sentou-se à mesa e aumentou o volume da televisão até quase rebentar os ouvidos. Dava um programa qualquer estúpido, cheio de gente a berrar uns com os outros, e aquela gritaria enterrava-se-me nas têmporas como se fosse a broca do vizinho. Aliás, os vizinhos de cima também não ficavam atrás: estavam em obras havia quase dois anos, e o roncar constante do berbequim do outro lado da parede já fazia parte da banda sonora da nossa vida familiar, que se desfazia devagar.

Limpei as mãos ao avental e virei-me para o meu marido. João estava sentado com a camisola larga e deformada de que tanto gostava, a palitar os dentes, com aquele ar de quem já tinha tomado uma decisão e não admitia discussão. O meu João de outros tempos, carinhoso, que me prometera mover montanhas por mim, dera lugar a este homem convencido de que, por ser o “chefe da família”, as necessidades dele vinham sempre primeiro. As minhas… as minhas haviam de se resolver sozinhas, de algum modo.

— João, estás mesmo a falar a sério? — encostei-me ao lava-loiça e senti o frio do metal através da T-shirt de casa. — Eu recebo setecentos euros. Trezentos e cinquenta vão logo para a prestação da casa. Ficam outros trezentos e cinquenta. Para três pessoas. Dá pouco mais de cem euros por mês para cada um. Estás a propor que nós, incluindo o Pedro, comamos com cerca de três euros por dia?

— Há quem viva com menos — disse ele, sem sequer virar a cabeça. — Compra arroz, massa, legumes da época. Carne em excesso até faz mal, li isso algures. Resumindo, Ana, não me chateies com contas. Amanhã vou ver umas jantes novas para o carro e preciso do dinheiro.

Foi nesse instante que percebi que, dentro da cabeça dele, tudo já estava arrumado. O plano estava feito. E, nesse plano, eu não passava de um acessório gratuito, encarregado de garantir o conforto do grande “provedor”.

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