E, claro, sem eu ter o menor direito a tocar no fruto das suas grandes conquistas.
A tensão não nascera naquele dia. Vinha a ganhar corpo havia meses. Nos últimos seis, João arranjava cada vez mais desculpas para não contribuir para as compras da casa. Ora era o seguro do carro que tinha de ser pago, ora um amigo que precisava de um empréstimo urgente, ora a mãe dele, Carolina, que de repente não podia viver sem uma televisão nova. Eu ia aguentando. Primeiro em silêncio. Depois comecei a lançar indiretas. Mais tarde, passei a pedir abertamente. Até que, naquele dia, ele deixou de disfarçar e me pôs um ultimato em cima da mesa.
— Maria, tu nem imaginas — desabafei nessa noite ao telefone com a minha amiga, fechada na casa de banho para que ele não ouvisse. — Ele acha mesmo que eu sou uma fonte sem fundo. Mato-me em dois trabalhos para pagar explicações ao Pedro, e Sua Excelência vai gastar dinheiro em jantes para o carro.
— Ana, acorda para a vida — respondeu Maria, sem rodeios, como era costume nela. — Ele está montado em cima de ti e ainda te espeta as esporas. Deixa de lhe encher o prato. Simples. Tu comes, alimentas o teu filho, e ele que se desenrasque. Se o dinheiro dele é “pessoal”, então que vá usar esse dinheiro pessoal em restaurantes, já que se julga tão cheio dele.
Na altura, limitei-me a suspirar. Dizer “não lhe faças comida” parecia fácil. Mas ele era meu marido. Era, ou tinha sido, uma pessoa da minha vida.
Só que, na manhã seguinte, acordei com uma clareza estranha, quase fria. João dormia esparramado na cama, ocupando mais de metade do colchão, a ressonar sem qualquer pudor. Olhei para ele e não encontrei dentro de mim nem ternura, nem pena, nem vontade de me levantar para lhe preparar o pequeno-almoço. Apenas uma irritação funda, baça, como uma pedra no peito.
Levantei-me, fiz papas para o Pedro e preparei café para mim. João apareceu na cozinha cerca de uma hora depois, ainda amarrotado de sono.
— Então e as minhas tostas? — perguntou, olhando para a frigideira limpa como se ela o tivesse traído.
— Estão no supermercado, João — respondi, bebendo o café com calma enquanto passava os olhos pelas notícias no telemóvel. — Pão, ovos e leite custam dinheiro. E, este mês, o meu dinheiro não inclui as tuas tostas. As minhas prioridades são a prestação da casa e os ténis novos do Pedro.
Ele franziu o sobrolho.
— Estás a brincar comigo? Eu tenho fome.
— Come — indiquei-lhe o armário dos cereais e das massas. — Tens ali cevada. Dizem que faz bem ao estômago.
Resmungou qualquer coisa sobre “manias de mulheres” e saiu para o trabalho sem comer. Eu ainda pensei que aquilo lhe servisse de lição. Ingenuidade minha. À noite, mal entrou em casa, foi direto ao frigorífico. Lá dentro havia quase nada: um iogurte meu e um gratinado do Pedro, feito na medida certa para uma única refeição.
— Ana, isto não tem graça nenhuma! Onde está o jantar? — berrou, batendo com tachos e tampas de tal maneira que o Pedro se sobressaltou no quarto.
— Não há jantar, João. O dinheiro acabou. Hoje paguei a luz, a água e o gás, e comprei um casaco de outono para o Pedro. Ficam-me trinta euros até ao fim da semana. Isso dá para iogurtes e pão para mim e para o meu filho. Bifes para ti não cabem no orçamento.
— Tu… tu estás a gozar comigo! — gritou, com o rosto a ficar manchado de vermelho. — Eu trabalho! Chego cansado! Tenho o direito de entrar em minha casa e comer como deve ser!
— Tens, sim — respondi, sem levantar a voz. — Com o teu dinheiro pessoal. Pede comida. Vai a um café. Afinal, ganhaste-o tu, não foi? Tens todo o direito.
Durante quase duas horas, andou pela casa feito fera enjaulada. Chamou-me má esposa, acusou-me de destruir a família, garantiu que um dia encontraria uma mulher capaz de o valorizar. Eu fiquei sentada no sofá, calada, a fingir que lia um livro. Pedro, de auscultadores, jogava na consola; já se habituara demasiado às nossas discussões e aprendera a desligar-se do mundo à volta. Era triste, claro.
