— Se não querem ajudar a Beatriz, então desocupem o apartamento até ao fim do mês — disse Maria, com uma serenidade tão fria como se estivesse apenas a pedir que lhe passassem o açucareiro.
Ana levou alguns segundos a perceber o alcance daquelas palavras. Sobre a mesa havia chá já morno nas chávenas, um prato com bolos de requeijão e uma tacinha de doce. Na sala ao lado, Inês, de seis anos, estava sentada no sofá a pintar uma boneca de papel que tinha recortado de uma revista velha.
João ficou imóvel, a colher suspensa no ar.
— Mãe, estás a falar a sério?
— E qual é o problema? — Maria ajeitou o guardanapo junto ao prato. — Vivem há seis anos no meu apartamento, pagam só as despesas, mas quando chega a hora de ajudar a tua própria irmã, de repente não há dinheiro. Então não se façam de ofendidos. A casa é minha. Faço com ela o que entender.

Ana olhou para o marido. A expressão dele era a de alguém que acabava de levar uma pancada pesada, sem ter tido tempo de se defender. João demorava sempre a reagir neste tipo de conversas. Não por falta de inteligência, mas porque, até ao último instante, insistia em acreditar que as pessoas da família não seriam capazes de dizer em voz alta aquilo que há muito lhes passava pela cabeça.
Ana, pelo contrário, compreendeu tudo de imediato.
Na verdade, já esperava aquela conversa desde quarta-feira, quando Maria lhe telefonara com uma animação demasiado ensaiada:
— No sábado venham todos cá. Sentamo-nos, conversamos em família sobre um assunto. Faço umas panquecas para a Inês.
Sempre que a sogra dizia “em família”, nunca se tratava apenas de chá, panquecas e conversa amena. Significava que a decisão já estava tomada, os papéis distribuídos e aos restantes cabia apenas acenar com a cabeça na altura certa.
Foram até à casa de campo quase sem trocar palavra.
No banco de trás, Inês falava sem parar do jardim de infância, da amiga Rita, que desenhava borboletas melhor do que todos, e da canção nova que estavam a aprender.
João respondia com monossílabos, muitas vezes fora de tempo. Ana mantinha os olhos na estrada e pensava nos 12 400 euros que tinham conseguido juntar. Três anos sem férias. Três anos sem compras por impulso. Três anos de folhas de cálculo, de despesas anotadas, de renúncias pequenas e grandes, de frases como “agora não, fica para depois”.
Aquele dinheiro não era apenas uma poupança. Era a entrada para o primeiro apartamento que seria verdadeiramente deles.
Maria passava quase todo o ano na casa de campo.
A moradia era sólida, bem isolada, tinha aquecimento, uma pequena sauna adaptada e duas estufas no quintal. O apartamento T2 da cidade, esse, ela “tinha dado aos jovens” seis anos antes.
Era assim que explicava a situação aos vizinhos e aos familiares. Só Ana percebera desde o primeiro dia a distância enorme entre “dar” e “deixar morar por algum tempo”. Nos papéis, a proprietária continuava a ser Maria. Mais ninguém.
Durante o almoço, a sogra começou por perguntar à neta sobre a escola, depois queixou-se dos preços no supermercado e, sem pressa, conduziu a conversa até à filha mais nova.
— A minha Beatriz é uma rapariga de muito valor — declarou, com aquele orgulho especial que Ana já conhecia de cor. — Tem mãos de fada. Costura tão bem que parece coisa comprada numa loja. O que ela precisava era de abrir um negócio dela, em vez de andar a trabalhar para os outros por meia dúzia de euros.
Beatriz estava sentada ao lado da mãe, magra, faladora, com um corte de cabelo recente e as unhas pintadas num tom de leite-creme. Tinha vinte e seis anos. Nos últimos cinco, ora arranjava emprego numa loja de cortinados, ora se despedia; ora aceitava encomendas de vestidos infantis, ora largava tudo porque, segundo ela, “os clientes sugam uma pessoa até ao osso”.
Agora, pelo visto, surgira-lhe um novo sonho.
— Encontrei um espaço perto do mercado — disse Beatriz, de repente cheia de vida. — É pequeno, mas passa lá muita gente. Quero abrir um atelier de arranjos e ajustes de roupa.
