“Se não querem ajudar a Beatriz, então desocupem o apartamento até ao fim do mês” disse Maria com uma serenidade gelada, exigindo que Ana e João desocupassem o lar

Histórias
A decisão fria foi dolorosamente injusta e cruel.

— E também cortinados por medida — acrescentou Beatriz, já a falar mais depressa, como se o negócio estivesse aberto no dia seguinte. — Hoje em dia há muita procura. As pessoas compram menos roupa nova e mandam aproveitar a antiga.

Ana escutava sem a interromper. A ideia, por si só, não era absurda. Havia sempre quem precisasse de fazer bainhas, trocar fechos, apertar vestidos, encurtar cortinas. O problema não estava no conceito. Estava no dinheiro necessário para pôr aquilo de pé.

— De quanto é que precisas? — perguntou João.

Maria pareceu endireitar-se na cadeira. Era como se tivesse estado à espera daquela pergunta.

— Seis mil euros — disse, sem hesitar. — Máquinas, uma overloque, mesa de trabalho, letreiro, dois meses de renda adiantados e mais umas despesas pequenas. Para vocês não é impossível. Têm algum dinheiro de lado.

Ana pousou a chávena devagar, com cuidado excessivo.

— E como é que sabe quanto temos guardado?

A sogra não olhou para ela. Virou-se antes para o filho.

— O João comentou. Qual é o mal? Agora também se escondem coisas da mãe?

Ana fitou o marido. João baixou os olhos, com ar culpado.

— Eu não pensei que a conversa fosse parar aqui — murmurou ele. — Só disse que estávamos a juntar dinheiro.

— E disseste quanto — respondeu Ana, no mesmo tom baixo.

Beatriz revirou os olhos, impaciente.

— Ai, por amor de Deus, é preciso fazer um drama por tudo? Eu não estou a pedir uma prenda. Eu devolvo. Não amanhã, claro, mas vou pagando aos poucos. Afinal somos família ou não?

— Somos — disse Ana, assentindo. — Precisamente por isso é que pergunto. Beatriz, já calculaste o ponto de equilíbrio?

— O quê?

— Quantos arranjos tens de fazer por mês para cobrir apenas a renda? Não estou a falar de lucro. Estou a falar de não acabar o mês a perder dinheiro.

Beatriz ficou calada por instantes.

— Tenho uma ideia mais ou menos.

— “Mais ou menos” não é uma conta. Quanto é a renda?

— Quinhentos e vinte euros. Mas o sítio é muito bom.

— E pedem caução?

— Pedem.

— Depois tens obras, eletricidade, material, software de faturação, impostos. Se pensas contratar outra costureira, já não é só passares recibos verdes e pronto. Tens encargos, contribuições, seguros. Também puseste isso no papel?

— Ana, tu és sempre a mesma coisa — resmungou Beatriz, fazendo uma careta. — Contigo não dá para falar normalmente. Transformas tudo numa tragédia.

— Não é tragédia. São números. Seis mil euros não são meia dúzia de botões.

Maria soltou um suspiro ruidoso, como se lhe tivessem esgotado a paciência.

— Chega de interrogar a rapariga. Isto não é um banco. Ela precisa de ajuda, não de uma auditoria.

— Há muitas formas de ajudar — respondeu Ana. — Podemos ajudá-la a fazer um plano, a rever o contrato de arrendamento, a perceber a parte fiscal. Mas entregar metade das nossas poupanças num negócio que ainda nem está bem calculado, isso não podemos fazer.

— Não podem? — repetiu Maria, com a voz a endurecer. — Ou não querem?

João passou a mão pela testa.

— Mãe, é mesmo muito dinheiro. Temos de pensar.

— Pensar no quê? — Maria levantou o tom. — Há seis anos que vivem no meu apartamento. Seis anos! Se tivessem andado a pagar renda, já tinham gasto milhares de euros. Juntaram uma boa almofada à minha custa e agora ainda fazem cara feia.

— Não estamos a fazer cara feia — disse João. — Estamos a poupar para uma casa nossa.

— Uma casa vossa? — A sogra soltou uma pequena gargalhada seca. — Mas já vivem numa casa. Ou o meu apartamento não é suficientemente bom para vocês?

Foi então que Ana disse aquilo que há muito trazia preso na garganta.

— Maria, nós não vivemos numa casa nossa. Vivemos na sua casa. E hoje deixou isso perfeitamente claro.

À volta da mesa, o silêncio caiu de repente.

Depois, Maria pronunciou a frase que mudou tudo:

— Se não querem ajudar a Beatriz, então no fim do mês desocupam o apartamento.

Passaram apenas alguns segundos, mas nada ficou igual.

Ana foi a primeira a levantar-se.

— Está bem — disse. — Nós saímos.

Maria pestanejou, apanhada de surpresa.

— Eu não disse que tinha de ser hoje.

— Tem razão — respondeu Ana, com uma calma estranha. — O apartamento é seu.

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