“Se não querem ajudar a Beatriz, então desocupem o apartamento até ao fim do mês” disse Maria com uma serenidade gelada, exigindo que Ana e João desocupassem o lar

Histórias
A decisão fria foi dolorosamente injusta e cruel.

Então está na altura de começarmos a viver pelas nossas próprias regras.

— Ana, espera — murmurou João, com a voz rouca.

Mas ela já se tinha afastado da mesa e ia buscar Inês ao quarto.

A viagem de regresso pareceu interminável.

Inês adormeceu no carro, com a cabeça tombada sobre um boneco de peluche. João conduzia sem dizer palavra, agarrado ao volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Ana também não falou. Não era amuo. Era cansaço. Há conversas que não acabam quando tudo foi dito, mas quando já não resta nada que valha a pena explicar.

Em casa, depois de deitarem Inês, ficaram os dois sentados na cozinha.

— Fizeste aquilo de propósito? — perguntou João, por fim.

— Aquilo o quê?

— Disseste “está bem, nós saímos” como se já tivesses decidido tudo.

Ana pousou as mãos sobre a mesa.

— Não decidi hoje. Já tinha decidido há muito tempo. Só esperava que não fosse preciso chegar a este ponto.

Ele baixou o olhar.

— A culpa é minha. Eu nunca devia ter falado do dinheiro à minha mãe.

— Isto não é só sobre dinheiro, João. É sobre a tua mãe ter passado este tempo todo a olhar para aquele apartamento como uma forma de nos manter presos. Antes, simplesmente não lhe convinha dizê-lo em voz alta.

— Ela exaltou-se.

— Não. Ela disse exatamente aquilo que pensa. Nestas alturas, as pessoas não se enganam nas palavras. Deixam escapar a verdade.

João ficou calado durante algum tempo. Depois perguntou, quase num sussurro:

— E agora?

— Agora arranjamos uma casa arrendada por uns meses e avançamos com o crédito. Temos dinheiro para a entrada. Temos o apoio familiar que podemos usar. Vai ser apertado, claro. Mas, pelo menos, ninguém nos vai atirar à cara o preço da sua “generosidade”.

Ele permaneceu imóvel, de olhos presos no tampo da mesa. Ana via-lhe a dor no rosto. João não era um homem dominado pela mãe, nem corria sempre que ela chamava.

Mas havia dentro dele uma obediência antiga, aprendida em criança: a mãe protege-se, a mãe não se magoa, a mãe quer sempre o melhor.

— Queres mesmo ir embora? — perguntou ele.

— Quero abrir a porta com uma chave nossa e saber que ninguém nos põe na rua por causa das vontades de outra pessoa.

Uma semana depois, encontraram uma casa para alugar.

Não ficava perto do jardim de infância, não tinha a luz que Ana desejava e vinha sem a máquina de lavar loiça a que ela já se tinha habituado. Ainda assim, havia um quarto só para Inês. Naquele momento, isso bastava.

Começaram a encaixotar a vida ao fim do dia. Ana embrulhava pratos, separava copos, fechava caixas com fita-cola e escrevia nelas, a marcador grosso: “cozinha”, “livros”, “brinquedos da Inês”.

As chaves do apartamento de Maria foram entregues por João, sozinho. Voltou tarde, de rosto apagado e olhos vermelhos.

— O que é que ela disse? — perguntou Ana.

— Que sou ingrato. Que tu me viraste contra a família. Que a Beatriz, ao menos, tenta fazer alguma coisa da vida, enquanto nós só pensamos em nós.

Ana observou-o em silêncio.

— E tu?

João respirou fundo.

— Pela primeira vez, não tentei justificar-me.

O primeiro mês na casa arrendada foi duro.

De manhã, Ana levava Inês ao jardim de infância e seguia para o trabalho na contabilidade. Ao fim da tarde, ia buscar a filha, preparava o jantar e fazia contas a tudo: supermercado, renda, combustível, prestação futura.

João aceitava serviços extra sempre que podia. Trabalhava como técnico de instalação de ar condicionado e ventilação, e a época de maior procura tinha acabado de começar. Chegavam ambos ao fim do dia tão esgotados que adormeciam mal encostavam a cabeça à almofada.

Mesmo assim, o dinheiro da conta não desapareceu. E quando, no banco, a gestora lhes colocou à frente as simulações do crédito à habitação, Ana percebeu que não sentia pânico. Sentia alívio.

— A prestação fica em trezentos e dez euros — explicou a funcionária, empurrando a folha impressa na direção deles. — Já considerando a entrada que têm disponível e o apoio familiar. O prazo é de vinte anos.

Vinte anos soava a uma eternidade. Mas depender outra vez do humor de alguém parecia-lhe ainda mais assustador.

A casa certa não apareceu logo. Ana percorreu meia cidade com a agente imobiliária, visitou prédios antigos, rés do chão escuros, apartamentos caros demais e outros que exigiam obras impossíveis. No fim, ficaram com um T2 pequeno, num prédio novo, nos arredores. Era longe. Não tinha uma renovação elegante. Faltavam-lhe muitos pormenores com que Ana tinha sonhado.

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