— Joãozinho, tu prometeste que me iam ajudar! Fala com a tua mulher, porque ela recusa-se a dar-me dinheiro! — a sogra escolhera claramente humilhar a nora diante de toda a gente.
Ana estava a pôr em ordem uma pilha de documentos sobre a secretária quando Maria, a secretária, espreitou para dentro do gabinete com uma expressão assustada.
— Ana, está lá fora uma senhora à sua procura… Diz que é sua… — Maria hesitou por um instante — familiar. E insiste muito em falar consigo.
Ana levantou os olhos dos papéis. Na receção da agência de publicidade era normal haver movimento: clientes, fornecedores, parceiros de campanha. Familiares, porém, nunca apareciam ali. Um pressentimento desagradável apertou-lhe o peito.
— Que aspeto tem?

— Deve andar pelos sessenta. Traz uma gabardina bege e uma mala grande. Disse que veio de longe.
A sogra. Ana comprimiu os lábios. Helena nunca antes se atrevera a aparecer no seu local de trabalho. Ao longo de cinco anos de casamento, as duas tinham mantido uma paz frágil: sorrisos educados nas festas de família, telefonemas obrigatórios ao domingo, visitas espaçadas e cuidadosamente medidas. Mas, nos últimos seis meses, alguma coisa se tinha desviado do lugar.
Desde que Ana fora promovida a diretora artística e o ordenado quase triplicara, João passara a ir mais vezes a casa da mãe. No início, eram visitas inocentes: arranjar uma torneira que pingava, levar-lhe compras, resolver pequenos problemas domésticos. Depois começaram os pedidos de dinheiro. Primeiro, quantias pequenas — medicamentos, contas, despesas imprevistas. Ana não se opunha; compreendia que a reforma de Helena era curta.
Só que as exigências foram aumentando. Duas semanas antes, João pedira-lhe trezentos euros: a mãe precisava urgentemente de trocar o frigorífico. Ana entregara o dinheiro, embora a desconfiança já lhe roesse o espírito. O aparelho antigo funcionava perfeitamente; ela própria o vira a trabalhar sem falhas apenas um mês antes. Mais tarde descobriu que o “frigorífico” se transformara num casaco de pele novo para a sogra.
— A mãe teve vergonha de dizer a verdade — justificara-se João. — Custa-lhe pedir coisas para si.
Na semana anterior, seriam necessários mais duzentos euros para uma “reparação urgente no telhado” da casa de férias de Helena. Pela primeira vez, Ana dissera que não. João ficara ofendido, discutiram, e durante três dias quase não lhe dirigiu a palavra. No fim, retirou o dinheiro do próprio salário, apesar de ambos terem combinado poupar para as férias.
E agora Helena estava ali. No seu escritório. Entre colegas e clientes.
— Faça-a entrar — disse Ana, cansada.
Helena entrou como uma rainha que, por condescendência, visitasse a cabana de uma plebeia. Percorreu o gabinete com o olhar — móveis modernos, janelas amplas, flores frescas junto ao parapeito — e apertou a boca numa linha fina.
— Ora, ora… afinal instalaste-te muito bem — comentou, arrastando as palavras em vez de cumprimentar. — Eu pensava que era um escritório qualquer. Mas não. Tens gabinete próprio. E secretária.
— Boa tarde, Helena — Ana levantou-se de trás da mesa, mas não avançou para a receber. — Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem com o João?
— Com o meu João é que não está nada bem — respondeu a sogra, deixando-se cair numa das cadeiras para visitas sem esperar convite. — E, já agora, a culpa é tua.
Ana sentiu a irritação subir-lhe por dentro, lenta e quente, mas manteve o rosto sereno.
— A que se refere?
— Sabes perfeitamente. O meu filho sofre. A mãe pede ajuda, a mulher fecha a carteira. O pobre rapaz fica esmagado entre as duas.
— Helena, podemos falar sobre isso em casa, com calma…
— Em casa, não! — interrompeu-a a sogra, erguendo a voz. — Em casa tu dás-lhe a volta à cabeça para ele não ajudar a própria mãe! Aqui, pelo menos, vamos ver quem és de verdade.
Do outro lado da porta chegaram sons abafados. Alguém parara no corredor ao ouvir os gritos. Através da divisória de vidro, Ana distinguiu as silhuetas dos colegas: imóveis, fingiam concentrar-se nos computadores.
— Peço-lhe que fale mais baixo — disse Ana, contornando a secretária para puxar a porta quase até fechar. — Há pessoas a trabalhar.
— A trabalhar! — Helena soltou um riso seco. — A ganhar dinheiro, queres tu dizer! E ao meu João, o que lhe sobra? Aposto que passa a vida a correr atrás de ti.
— Isso diz respeito apenas a mim e ao João.
— Apenas a vocês? Quando o meu filho anda a sofrer? — A sogra remexeu na mala, tirou de lá um lenço amarrotado e encostou-o aos olhos, embora não houvesse uma única lágrima. — Eu sou mãe, sinto quando ele está mal. Ainda ontem foi ter comigo e trazia uma cara… exausto, abatido. E tudo por tua causa!
Ana recordou-se da noite anterior. João realmente fora visitar a mãe, voltara tarde, sombrio e fechado. Às perguntas dela respondera com frases curtas, quase sem a olhar, e metera-se depressa no quarto. A lembrança regressou-lhe agora com uma nitidez incómoda.
