— Eu não fui contratada para lhe servir de criada, Helena! Tem uma filha adulta a viver consigo; que seja ela a limpar-lhe a casa! Eu sou mulher do seu filho, e eu e o Miguel temos a nossa própria casa, a nossa família. Fica dito!
— Miguel, sou eu. Consegues vir cá agora mesmo? Preciso de frascos com urgência.
Na voz de Helena, ao telefone, não havia o menor vestígio de pedido. Ela não admitia recusas, nem sequer contemplava a hipótese de uma desculpa. Era aquele tom dissimulado e, ao mesmo tempo, duro como ferro, que Miguel detestava desde a adolescência.
Ele fechou os olhos, apertou a raiz do nariz com os dedos e tentou agarrar-se ao pouco sossego que ainda restava daquela noite. Os ombros, que há instantes tinham finalmente cedido depois de um dia inteiro de trabalho, voltaram a enrijecer, como se sobre eles se fechasse uma armadura.
— Olá, mãe. Já é tarde, acabei de chegar do trabalho. Que frascos são esses? Amanhã levamos isso aí — respondeu, esforçando-se por manter a voz lisa, sem irritação, porque sabia que qualquer sinal de protesto seria logo usado contra ele.

Catarina, sentada no cadeirão em frente com um livro aberto nas mãos, baixou os olhos sem querer. Não ouvia as palavras da sogra, mas conhecia demasiado bem aquela inflexão na voz do marido. Aquele tom queria dizer que a noite acabara ali. Que começava a habitual manobra de manipulação, longa e desgastante, persistente como uma dor de dentes.
— Que frascos haviam de ser? Os vazios, que estão aí na vossa varanda! Deu-me agora para pôr pepinos em conserva para o inverno, e a Inês está indisposta, não pode ir à loja — choramingou Helena do outro lado. — Está aqui deitada, coitadinha, completamente de rastos. Ou também estás cansado? Já nem tens forças para ajudar a tua própria mãe? Não te estou a pedir que carregues sacos de cimento.
Miguel ficou calado. Fixou um ponto qualquer da parede, e Catarina viu-lhe formar-se uma ruga funda na testa. Estava encurralado. Se dissesse que não, seguir-se-ia meia hora de sermão sobre ingratidão, frieza e falta de coração.
Se aceitasse, teria de se vestir de novo e atravessar a cidade por causa de um capricho que, muito provavelmente, não passava de mais um teste à sua obediência. “A Inês está indisposta” era o trunfo que Helena tirava da manga sempre que queria obter alguma coisa.
Aos trinta anos, Inês, forte como um boi, ficava sempre “indisposta” quando o assunto envolvia trabalho, tarefas domésticas ou uma simples ida às compras.
Catarina percebeu que o marido inspirava para tentar opor-se, mas sabia que era inútil. Era mais fácil perder meia hora do que assistir à cena ao telefone e depois vê-lo sentado ali, esvaziado, como se lhe tivessem espremido a última gota de energia. Fechou o livro com decisão e levantou-se.
— Vou eu — disse em voz baixa, mas suficientemente clara para Miguel ouvir.
Ele olhou para ela, dividido entre gratidão e culpa. Tapou o telemóvel com a mão.
— Catarina, não precisas. Eu vou…
— Fica sentado — interrompeu-o ela. — Eu despacho isto mais depressa.
Aproximou-se, tirou-lhe o telefone da mão e encostou-o ao ouvido. Quando falou, a voz saiu-lhe educada, quase melosa.
— Boa noite, Helena. O Miguel está muito cansado. Eu junto agora os frascos e, dentro de meia hora, levo-lhos.
Do outro lado fez-se um breve silêncio. A sogra, evidentemente, não esperava aquela mudança de rumo. O jogo dela tinha sido montado para atingir o filho.
— Ah… Catarina… Está bem, traz então, já que assim é — acabou por dizer, com uma deceção que nem se deu ao trabalho de esconder.
Na varanda havia uma caixa de cartão cheia de frascos de conserva de três litros, todos empoeirados. Eram restos de um passado de que nunca tinham conseguido livrar-se. Catarina pegou na caixa com repugnância. O vidro bateu surdamente contra vidro. Levava aquele peso como se carregasse o símbolo das obrigações do marido, das quais Miguel parecia incapaz de se desprender: pesadas, ocas e absolutamente inúteis.
A casa da sogra recebeu-a com o cheiro habitual a mobília abafada e um odor ácido vindo da cozinha. No prédio, a única lâmpada fraca do patamar lançava uma penumbra azulada sobre as paredes gastas, tornando tudo ainda mais opressivo. Catarina tocou à campainha.
Poucos segundos depois, ouviram-se passos arrastados. Assim que Helena abriu a porta e Catarina passou a soleira, percebeu de imediato que tinha entrado numa encenação cuidadosamente preparada.
A cena era tão previsível que Catarina não sentiu surpresa, apenas uma irritação antiga e baça. Na sala, inundada pela luz azulada de um programa de conversa que berrava no televisor enorme, Inês estava largada num cadeirão fundo.
A “pobre doente acamada” deslizava o dedo pelo telemóvel, cujo brilho frio lhe desenhava sombras pálidas no rosto. Ao lado dela, havia uma pequena mesa.
