“Eu não fui contratada para lhe servir de criada, Helena!” exclamou a nora, impondo limites e desencadeando tensão familiar

Histórias
Que comportamento manipulador e injusto me dilacera.

Sobre o tampo, viam-se uma chávena de chá já quase no fim e um prato salpicado de migalhas. De doente, Inês não tinha absolutamente nada. Parecia o que sempre parecia: entediada, mole, sem rumo, como se o mundo inteiro lhe devesse entretenimento.

Helena, com a postura de quem se julgava senhora de um palácio, desceu os olhos para a caixa que Catarina trazia nos braços.

— Até que enfim. Põe isso ali, no chão — ordenou, apontando para a entrada. — E vê lá se não riscas nada.

Sem responder, Catarina baixou-se com cuidado e pousou a caixa pesada sobre o linóleo. Já se preparava para se endireitar, murmurar um “boa noite” educado e sair dali antes que a paciência lhe rebentasse nas mãos. Mas a sogra, nessa noite, tinha outros planos. Não se afastou. Pelo contrário: ficou plantada diante da porta, como se lhe barrasse a passagem de propósito.

— Já que vieste, não fiques aí feita poste — começou Helena, usando aquele tom de comando que reservava para pessoas que considerava inferiores. — Estás a ver como isto está cheio de pó. A Inês anda adoentada, eu estou com as costas feitas num oito… Passa já um pano naquele aparador e depois lava também o corredor. Com essa caixa, deixaste isto tudo pisado.

Inês ergueu finalmente a cabeça do telemóvel. Ao perceber o rumo da conversa, não conseguiu esconder um sorriso de troça. Endireitou-se um pouco no cadeirão, interessada em assistir melhor à humilhação que se preparava para a cunhada. Aquilo era, para as duas, quase um passatempo: encostar a mulher de Miguel à parede, obrigá-la a engolir ordens absurdas e, depois, queixarem-se dele, dizendo que Catarina era mal-educada, fria e preguiçosa.

Catarina levantou-se devagar. Primeiro olhou para o aparador escuro, polido e coberto por uma fina camada de pó. Depois fitou o rosto satisfeito de Inês. Por fim, prendeu os olhos em Helena. Dentro dela, alguma coisa estalou. Não foi o tilintar frágil de uma chávena partida; foi antes o som surdo e definitivo de uma corda a romper-se, uma corda que durante tempo demais a mantivera presa à obrigação de ser correta, paciente e calada.

Quando falou, a voz saiu-lhe limpa. Tranquila. Sem tremor nenhum.

— Eu não fui contratada como criada da senhora, Helena. Tem uma filha adulta a viver consigo; se a casa precisa de limpeza, que seja ela a fazê-la. Eu sou mulher do seu filho. Eu e o Miguel temos a nossa casa e a nossa família. E é tudo.

Durante alguns segundos, caiu sobre a sala um silêncio tão estranho que até o ruído do programa de televisão pareceu recuar. O sorriso venenoso de Inês congelou-lhe nos lábios e, pouco a pouco, desapareceu, substituído por uma indignação incrédula.

Helena ficou sem fala perante aquela ousadia inesperada. O rosto subiu-lhe de cor até um vermelho carregado; a boca abriu-se e fechou-se em seco, sem produzir som, como a de um peixe tirado da água. Quando finalmente recuperou a voz, ela veio deformada, aguda, quase um guincho.

— Tu… como é que te atreves a falar-me assim, sua insolente? A dar-me ordens dentro da minha própria casa? Eu vou já telefonar ao Miguel! Ele divorcia-se de ti num instante! Põe-te na rua como se põe lixo!

— Acha mesmo? — perguntou Catarina, calma, quase curiosa.

Sem desviar os olhos do rosto transtornado da sogra, tirou o telemóvel do bolso. Procurou o contacto guardado como “Marido” e fez a chamada. Helena calou-se de repente, apanhada de surpresa. Catarina ativou o altifalante.

— Miguel, olá — disse, com uma serenidade que tornava a cena ainda mais cortante. — A tua mãe está a exigir que eu lave o chão cá em casa dela e ainda limpe os vidros, caso contrário diz que tu te vais divorciar de mim. Confirmas?

Do outro lado houve uma pausa breve, mas carregada de significado. Depois ouviu-se o suspiro pesado, cansado, de Miguel.

— Mãe, passa o telefone à Inês.

Helena, ainda meio atordoada, estendeu o aparelho à filha com um gesto desajeitado. Inês ficou rígida, mas pegou nele.

— Inês — a voz de Miguel chegou aos três, fria como lâmina — tens meia hora para pôr essa casa em ordem. Se eu aparecer aí e te encontrar sentada enquanto a Catarina trabalha, atiro a tua roupa toda para o lixo. E depois desenrascas-te sozinha. Acabou a conversa.

A chamada caiu.

Com um sorriso educado, Catarina retirou o telemóvel das mãos frouxas de Inês. Depois inclinou ligeiramente a cabeça para Helena, que continuava parada, sufocada pelo espanto.

— Então vou andando — disse. — Pelo visto, vocês têm uma grande limpeza pela frente.

A porta fechou-se atrás dela com um clique baixo e correto. No silêncio que ficou, aquele som pareceu rebentar como um disparo. Durante alguns instantes, Helena e Inês limitaram-se a olhar para a porta, como se ela fosse a entrada para uma realidade diferente, uma realidade à qual já não tinham acesso.

A luz azulada da televisão continuava a mexer nas paredes, indiferente, desenhando sombras sobre aqueles rostos deformados pela raiva e pela confusão.

Foi Inês quem recuperou primeiro. Deixou-se cair outra vez no cadeirão, mas a pose descontraída de antes desaparecera; agora estava tensa, hirta, com os dedos apertados em torno do telemóvel apagado.

— Então? Valeu a pena? — sibilou, num tom baixo e envenenado. — Está satisfeita? Eu bem lhe disse para não se meter com ela. A Catarina não é dessas que engolem tudo caladas.

Helena virou-se para a filha de rompante. O rosto continuava vermelho, manchado por uma fúria que começava a substituir o choque.

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