Pousei o ovo descascado dentro da taça e respirei fundo.
— Eu também pensei nisso muitas vezes — admiti, com sinceridade. — E sabe… eu também tive a minha parte de culpa. Ficar calada sempre, engolir tudo, também não resolve nada. Devia ter-lhe dito mais cedo que aquilo me magoava.
Teresa assentiu devagar. Depois deixou a faca sobre a bancada e virou-se para mim.
— Eu convenci-me de que, sendo dura, exigente, implacável até, te estava a ajudar. Achei que assim te tornarias melhor. Mais forte. Como eu tive de ser, um dia. Mas não foi isso que aconteceu… o que fiz foi ferir-te. Todos os dias.
Na voz dela não havia aquela rigidez de costume. Só cansaço. E outra coisa, mais funda, muito parecida com arrependimento.
— A Teresa queria o melhor — respondi baixinho. — Hoje consigo perceber isso.
Ela abanou a cabeça.
— Não. Eu queria que as coisas fossem como me dava jeito. E isso é muito diferente.
O silêncio voltou a instalar-se entre nós, mas sem cortar. A chaleira estalou ao desligar-se. Lá fora, caíam flocos grandes, leves, daqueles que parecem inventados para a noite de Ano Novo.
De repente, Teresa sorriu.
— Lembras-te do Pedro, no ano passado, vestido de coelhinho? Meteu-se debaixo da mesa e adormeceu em cima dos meus sapatos.
Também sorri.
— Lembro-me. A Teresa pegou nele ao colo e levou-o para o quarto. Ele ainda fala disso. Diz que a “avozinha era quentinha”.
Teresa desviou o olhar, atrapalhada.
— Nessa noite pensei… se eu tivesse permitido a mim própria ser assim com a tua mãe, talvez não tivesse passado tantos anos a tentar remendar o que estraguei.
Aproximei-me e abracei-a. Sem anúncio, sem razão prática, apenas porque me apeteceu. Ao princípio, ela ficou rígida, como sempre acontecia quando alguém a apanhava desprevenida com ternura. Depois, muito devagar, retribuiu o abraço. Com cuidado, quase como se tivesse medo de partir alguma coisa.
João apareceu à porta da cozinha, viu-nos e parou. No rosto dele abriu-se um sorriso calmo, cheio de alívio.
— Então, minhas senhoras — disse —, temos paz?
— Temos — respondi.
— Já há muito tempo — acrescentou Teresa.
E, pela primeira vez desde que eu a conhecia, riu-se sem amargura. Um riso inteiro, simples, verdadeiro.
À meia-noite, estávamos os três na varanda: eu, João e Teresa. Pedro já dormia, vencido pelas correrias, pelos doces e pela excitação da festa. A cidade estremecia com foguetes; no céu, o dourado e o vermelho abriam-se como flores enormes.
— Ao que brindamos? — perguntei, segurando o copo.
João olhou para a mãe. Teresa olhou para nós dois.
— Brindemos ao facto de, às vezes, ser preciso chegar mesmo à beira do abismo para percebermos o quanto amamos quem está ao nosso lado… e o medo que temos de os perder.
Tocámos os copos sem alarido. Não foram necessárias grandes frases.
Foi então que ela tirou do bolso um envelope pequeno e mo entregou.
— Isto é para ti, Ana. Pelo teu aniversário. Chega atrasado, eu sei, mas… antes tarde do que nunca.
Dentro havia uma chave. Uma chave comum, de casa, e um papel dobrado com uma morada escrita.
Fiquei a olhar, sem entender.
— O que é isto?
— Um apartamento aqui perto — explicou ela, num tom quase tímido. — Um T2. Comprei-o. Quero estar mais perto do meu neto… mas sem me meter na vossa vida. Vão lá quando quiserem. E eu… eu prometo que, daqui em diante, bato à porta. E pergunto se posso entrar.
Olhei para ela com atenção. Aquela mulher que durante tanto tempo me parecera feita de pedra estava ali, diante de mim, diferente. Não transformada por completo, não de um dia para o outro. Mas diferente.
— Obrigada — murmurei.
E abracei-a outra vez. Desta vez sem receio.
João envolveu-nos às duas nos braços, e ficámos assim, três adultos debaixo do céu de Ano Novo, até os foguetes se calarem e a neve cobrir a varanda com uma camada branca e macia.
Depois voltámos para dentro, para o calor da casa. Bebemos chá e comemos a minha tarte de maçã. Teresa pediu-me a receita por iniciativa própria e escreveu-a no seu caderninho antigo, com aquela letra cuidada de quem ainda acredita que as coisas importantes devem ficar no papel.
Quando se foi embora, já passava das duas da manhã. Antes de sair, voltou-se à porta.
— Ana… posso vir amanhã? Para fazermos panquecas? Deixo a massa preparada hoje à noite, como me ensinaste.
— Venha — respondi, sorrindo. — A porta estará aberta.
Ela assentiu e desceu as escadas.
João e eu ficámos ainda muito tempo sentados na cozinha, de mãos dadas, sem dizer nada. Porque há silêncios que explicam mais do que qualquer discurso.
Na manhã de primeiro de janeiro, Pedro entrou a correr no nosso quarto, saltou para cima da cama e gritou:
— A avó ligou! Disse que as panquecas já estão na frigideira! E que temos de ir todos juntos! Até comprou leite condensado para o pai!
E fomos. Os três. Até ao apartamento novo de Teresa, onde cheirava a massa quente, a baunilha e a uma coisa estranhamente parecida com lar.
Nesse momento percebi que, por vezes, as maiores mudanças começam com um único “desculpa”, dito na altura certa. E com uma simples chave, estendida por cima de uma mesa.
A vida continuava. Já não era a mesma. Mas, finalmente, parecia estar no lugar certo.
