Ana passou a palma da mão pela toalha branca. Uma migalha de pão estalou-lhe debaixo dos dedos. O salão da coletividade da terra fervilhava de vozes, cheirava a carne assada, perfume caro e álcool derramado. Quinze anos de casamento. À volta das mesas, os convidados juntavam-se em grupos, brindavam, riam alto, fingiam alegria.
João estava sentado ao lado dela, largo de ombros, metido num casaco azul-escuro. De minuto a minuto endireitava a gravata, como se o nó o sufocasse. Estaria nervoso? Ou apenas a preparar-se para o espetáculo?
Ana fazia rodar a aliança no dedo. Custava a sair. Antigamente ficava larga, quase solta; agora marcava-lhe a pele. Durante os últimos seis meses nem sequer a usara. Pusera-a naquele dia de propósito. Queria tê-la no dedo no instante em que ele dissesse aquilo que vinha ensaiando.
Porque ela sabia. Sabia há muito tempo.
João levantou-se e pegou no microfone. O burburinho morreu aos poucos. Ele endireitou as costas, percorreu a sala com o olhar e só então se virou para a mulher. No rosto trazia uma expressão estranha, meio triunfante, meio enojada.

— Ana — começou, numa voz alta, limpa, para que ninguém perdesse uma sílaba. — Esperei quinze anos por este dia. Desde a primeira noite que me metes nojo. Ouviste bem? Nojo. Nunca consegui tocar-te sem sentir repulsa. Para mim foste apenas um bilhete para uma vida confortável, nada mais. Uma farmacêutica sem graça, sempre a cheirar a medicamentos. Amanhã avanço com o divórcio. O negócio fica comigo. Para ti sobram os teus comprimidos e o vazio.
Fez-se um silêncio tão denso que se ouviu alguém engolir em seco. Manuel, o pai de Ana, estremeceu e agarrou a beira da mesa como se precisasse dela para não cair. Uma mulher soltou um gemido abafado.
Ana tirou a aliança. Devagar. Sem olhar para o marido. Depositou-a à sua frente, sobre a toalha. Depois ergueu os olhos, secos e tranquilos, e fez um pequeno sinal ao sobrinho, Pedro, que estava junto à parede com um portátil aberto.
— Põe.
O ecrã pendurado ao fundo iluminou-se. Primeiro ninguém percebeu o que estava a acontecer. Logo depois ouviu-se uma voz. Conhecida demais.
No vídeo, João aparecia sentado no gabinete da empresa de autocarros. À sua frente estava Beatriz, a rapariga ruiva da central de despachos, com uma camisola justa de gola alta.
— Tens a certeza de que ela não desconfia de nada? — perguntou Beatriz, inclinando-se para ele.
— Aquela é uma parva — riu João. — Passa os dias na farmácia a contar comprimidos. Fiz três créditos em nome da empresa e ela nem sonha. Quando nos divorciarmos, as dívidas caem-lhe em cima, e o negócio fica para mim. Depois, minha linda, finalmente vamos viver como deve ser.
Beatriz soltou uma risadinha e aproximou-se dele.
Junto à mesa, João ficou branco como cal. Virou-se de repente para Ana.
— Mas que raio é isto…
Ela não lhe respondeu. Pedro já tinha mudado para outro ficheiro.
Agora via-se no ecrã um João muito mais novo, magro, de camisa amarrotada. Estava junto aos garagens que Manuel lhe entregara no início, com um copo de aguardente na mão. Era o dia do casamento: ao longe distinguia-se a tenda da festa, e a música chegava abafada. Ao lado dele estavam dois amigos.
— Eu não a amo, nem um bocadinho — dizia João, antes de virar o copo de uma vez. — Mas o sogro tem contactos na câmara e tem terrenos. Aguento uns dez anos, ponho-me de pé, e depois arranjo uma mulher a sério. Não esta farmacêutica.
Os amigos desataram a rir. João serviu-se de mais bebida.
Manuel levantou-se lentamente. Tinha o rosto cinzento, os lábios apertados numa linha dura. Olhou primeiro para o ecrã, depois para o genro, com um peso que fez a sala inteira prender a respiração.
— João — disse ele, num tom baixo. — Isto era mesmo o que pensavas?
João sobressaltou-se e tentou abrir a boca, mas Pedro já tinha iniciado o vídeo seguinte. Desta vez surgiram documentos: contratos de crédito, extratos bancários, assinaturas, transferências. Tudo ampliado, nítido, impossível de negar. Ali estavam expostos os esquemas, um por um: a forma como João contraíra empréstimos em nome da empresa de Ana, como desviara dinheiro para as contas de Beatriz e como preparara tudo para abandonar a mulher carregada de dívidas.
