O silêncio que se abateu sobre a sala durou apenas alguns segundos. Depois, Ana ergueu a voz. Não falou alto, mas fê-lo com uma firmeza que alcançou todos os cantos do salão.
— As cópias estão nas Finanças — disse ela. — E também com o meu advogado. As garagens, o terreno, a empresa de transportes… tudo está em meu nome. Tu, João, eras apenas o gestor. E, a partir de hoje, deixas de o ser. Os créditos ficam contigo. As dívidas também. O negócio continua na família. Na minha família.
Levantou-se devagar e avançou na direção dele. João recuou um passo, depois outro.
— Achavas mesmo que eu não via nada? — perguntou Ana, num tom baixo, mas cada palavra parecia cair como uma bofetada. — Durante seis meses, observei-te a montar o teu plano. Vi-te trazer essa rapariga para dentro da minha casa enquanto eu estava a trabalhar. Ouvi-te discutir com ela quanto é que eu valia, como se eu fosse uma conta a fechar. Fiquei calada o tempo todo e fui juntando provas. Porque sabia que escolherias precisamente este dia. O meu aniversário. Querias humilhar-me diante de toda a gente. Querias mostrar o homem forte que julgavas ser.
João abriu a boca. Nenhum som saiu.
— Agora sai — ordenou Ana. — Sai deste salão, sai da minha vida. E podes dizer à Beatriz que a empresa deixou de aceitar candidatos como ela.
Ele virou-se de rompante para a saída, mas Manuel colocou-se no caminho. Não disse uma única palavra. Apenas se pôs de pé e fitou-o. João apertou os punhos, hesitou por um instante e, por fim, baixou a cabeça, passando por ele quase a correr. Atrás de si ouviu-se um assobio. Alguém gritou:
— Vergonha!
A porta bateu com força.
Só então os convidados começaram a mexer-se. Primeiro em murmúrios contidos, depois num burburinho crescente. Alguém se aproximou de Ana e apertou-lhe a mão. Algumas mulheres rodearam-na, falando todas ao mesmo tempo, oferecendo consolo, indignação, frases de apoio. Ana mal as ouvia. Tinha os olhos presos na aliança pousada sobre a mesa. Pequena, gasta, baça. Quinze anos naquele dedo — e, afinal, não significara nada.
Manuel aproximou-se e envolveu-lhe os ombros com o braço.
— Perdoa-me, filha — murmurou, com a voz rouca. — Fui eu que o trouxe para a tua vida.
— Quiseste ajudar-me, pai — respondeu Ana. — A culpa não é tua por ele ser quem é.
— Ainda assim… perdoa-me.
Ana encostou-se ao pai. Só nesse momento percebeu o cansaço que lhe pesava no corpo. A mandíbula doía-lhe de tanto a manter cerrada; os ombros estavam duros, como se tivesse carregado pedras durante horas. Mas lágrimas não vieram. Havia apenas um vazio imenso e, por baixo dele, uma estranha sensação de alívio.
— Levo-te a casa — ofereceu Manuel.
Ana abanou a cabeça.
— Não. Vou ficar. Quero que todos vejam que continuo aqui. Que não fugi. Que não me escondi.
O pai assentiu e apertou-lhe a mão.
Aos poucos, a sala começou a esvaziar. Alguns convidados ainda se aproximavam para lhe dizer palavras de coragem. Ana sorria, agradecia, mantinha-se direita. Quando já quase não restava ninguém, Maria, mulher de um dos parceiros de João, aproximou-se dela com cautela.
— Ana, posso fazer-te uma pergunta? — disse em voz baixa.
— Claro.
— Tu já sabias há muito tempo, não sabias? Sobre a Beatriz. Sobre os créditos. Então porque não foste embora antes?
Ana levantou os olhos para ela. Maria observava-a com uma curiosidade tensa, como se aquela resposta não fosse apenas para si.
— Porque, se eu tivesse saído antes, ele teria ficado com o dinheiro e com a reputação — explicou Ana, serenamente. — E eu teria ficado sem nada, além de boatos a dizerem que a culpa era minha. Esperei pelo momento em que ele próprio mostrasse tudo. Diante de todos. Para que ninguém pudesse duvidar de quem era quem nesta história.
Maria acenou lentamente. Ficou calada durante alguns segundos.
— Foste inteligente — disse, por fim. — Eu aguento o meu há quinze anos. E tenho medo de ir embora.
Ana olhou-a com atenção.
— Já começou a juntar provas?
Maria soltou um sorriso curto, amargo.
— Começo agora.
Apertou a mão de Ana e afastou-se. Ana ficou sozinha por instantes, voltou a olhar para a aliança e, finalmente, tirou-a de cima da mesa.
