Com a aliança fechada na palma da mão, Ana levantou-se, foi até à janela e abriu a bandeira. O ar frio entrou de repente, cortante, batendo-lhe no rosto como uma bofetada limpa. Ela respirou fundo, ergueu o braço e lançou o anel para a escuridão.
Pedro, que andava a recolher os equipamentos, parou a meio do gesto e olhou para ela.
— Tia Ana… o que estás a fazer?
Ela não se virou logo. Ficou a ver a noite lá fora, como se finalmente conseguisse distinguir alguma coisa para além dela.
— A libertar-me — respondeu, com uma simplicidade que até a surpreendeu.
Três dias depois, João tentou entrar de novo na empresa de transportes. O segurança barrou-lhe a passagem. Ele ficou junto ao portão, aos gritos, a exigir que o deixassem passar, como se ainda mandasse ali. Nesse preciso momento, Ana chegou de carro com o pai. Vinham entregar documentação ao novo gestor.
Assim que a viu, João precipitou-se para o veículo.
— Ana, não podes fazer-me isto! — berrou, agarrando-se quase à porta. — Este negócio também é meu! Fui eu que o pus de pé!
Ana baixou o vidro devagar.
— Com o meu dinheiro e os contactos do meu pai — disse, sem levantar a voz. — Tu administravas. Agora já não. Vai ter com a Beatriz. Talvez ela te ajude a levantar alguma coisa.
João engoliu em seco, transtornado.
— Ela desapareceu! — soltou, quase sem fôlego. — Mal percebeu que havia dívidas, sumiu-se!
Um sorriso breve, sem alegria, passou pelo rosto de Ana.
— Pois. Imagina. Se calhar também lhe metias nojo. A diferença é que ela foi mais esperta: percebeu isso antes de mim.
Ele ficou imóvel por um instante. A cara contorceu-se-lhe, tomada por uma raiva feia. Deu um passo na direção dela, mas Manuel saiu do carro. Devagar, com o peso dos anos no corpo, colocou-se ao lado da filha.
— Vai-te embora, João — disse, cansado. — Enquanto ainda estamos a falar a bem.
João permaneceu ali mais alguns segundos, como se procurasse uma última palavra que lhe devolvesse o poder. Não encontrou nenhuma. Virou costas e afastou-se, curvado, envelhecido de repente.
Ana seguiu-o com o olhar. Não sentiu pena. Também não sentiu ódio. Apenas um vazio estranho no lugar onde, durante quinze anos, tinha existido uma ferida aberta.
Nessa noite, ficou sentada na cozinha com o pai. Manuel serviu chá para si; ela mantinha os olhos presos na janela. Do outro lado do vidro, o céu ia escurecendo.
— Como estás? — perguntou ele.
— Estou bem — respondeu Ana.
Depois, passado um silêncio, acrescentou:
— Só é estranho. Durante quinze anos convenci-me de que havia qualquer coisa errada comigo. Que eu não era bonita o suficiente, nem interessante, nem mulher bastante. Achava que a frieza dele era culpa minha. Que, se ele não me tocava com carinho, se não me procurava, se me tratava como um móvel da casa, era porque eu falhava em alguma coisa. E afinal… nunca teve a ver comigo. Ele simplesmente nunca me amou. Nem no princípio.
Manuel ficou calado. Mexeu a colher dentro da chávena, embora o açúcar já se tivesse dissolvido havia muito.
— Sabes o que mais me pesa? — murmurou, por fim. — Eu também tive culpa. Fui eu que o empurrei para perto de ti. Pensei que era um rapaz direito, trabalhador, que havia de construir vida. E ele, já nessa altura, devia estar a fazer contas.
— Pai, chega — Ana pousou a mão sobre a dele. — Tu querias que eu fosse feliz. Ele queria dinheiro. Não é a mesma coisa.
O pai acenou com a cabeça, mas a tristeza continuou-lhe nos olhos.
— E agora? Que vais fazer?
Ana encolheu ligeiramente os ombros.
— Trabalhar. Viver. Tenho a farmácia, tenho-te a ti, tenho responsabilidades. Dei anos demais a uma pessoa que me desprezava. Talvez esteja na altura de aprender a viver por mim.
— E casar outra vez? — perguntou Manuel, com cuidado.
Ela soltou uma pequena gargalhada, sem humor.
— Não sei. Agora nem quero pensar nisso. Quero silêncio. Quero chegar a casa e não ouvir ninguém dizer-me que sou insuportável.
Ficaram os dois sem falar. Lá fora, alguns candeeiros acenderam-se, espaçados, tremendo na noite. Manuel acabou o chá, levantou-se e vestiu o casaco.
— Bem, filha, vou andando. Se precisares de alguma coisa, ligas. Seja a que horas for.
— Obrigada, pai.
Quando ele saiu, Ana ficou sozinha. Sentou-se à mesa, cruzou os braços e deixou a cabeça cair sobre eles. Só então, naquela cozinha vazia e silenciosa, se permitiu chorar. Não chorou de dor, nem de humilhação. Chorou de alívio. Porque já não precisava de fingir que estava tudo bem. Já não tinha de suportar toques frios, palavras ocas, desprezo disfarçado de cansaço. Já não precisava de acreditar que a culpa era dela.
Passou-se um mês. João tentou contestar os documentos, mas o advogado de Ana travou-o depressa. Estava tudo legalizado, cada assinatura no lugar certo, cada manobra posta a descoberto.
