— Daqui a uma semana chegam a minha irmã, o marido dela e os meus sobrinhos com as respetivas famílias. Já avisei toda a gente de que a casa junto ao mar passou a ser da família — anunciou a sogra, enquanto arrumava as suas coisas no roupeiro do quarto principal.
Ana ficou parada, a chávena suspensa entre os dedos. O café da manhã, de repente, soube-lhe amargo.
— Desculpe… chegam como assim?
— São oito pessoas ao todo. Não te aflijas, havemos de nos apertar. As crianças precisam de ar do mar.
Ana olhava para aquela mulher que, apenas um ano antes, chamava à casa um monte de ruínas e se ria do seu esforço para a salvar. Agora, a sogra mudava vestidos de cabide com uma segurança prática, como se estivesse a instalar-se no próprio apartamento. Em cima da cama já se alinhavam bolsas de cosmética; na mesa de cabeceira aparecera uma moldura com a fotografia dos netos. A luz entrava pelas janelas novas, pagas com as últimas economias de Ana. No ar misturavam-se o cheiro salgado do mar e o perfume das roseiras que ela própria plantara na primavera.

A pequena casa antiga à beira-mar tinha pertencido à avó de Ana. Depois da morte dela, parentes afastados, que durante anos ninguém vira nem ouvira, surgiram de repente a reclamar direitos sobre a herança.
— Nem sequer apareceram no funeral — indignava-se Ana, na altura, junto do marido. — E agora lembraram-se todos dos laços de sangue!
— Talvez fosse melhor cederes… — sugeriu João, com cautela. — Vais gastar tantos nervos com isto…
O processo arrastou-se durante quase dois anos. Ana juntou certidões, deslocou-se a audiências, pagou advogados e ouviu troças sem fim.
A sogra era, de longe, a mais insistente.
— Deixa lá esse barracão. Aquilo cai sozinho qualquer dia — dizia ela aos almoços de domingo.
— É uma recordação da minha avó — tentava Ana explicar.
— Recordações guardam-se num álbum. Faziam melhor em comprar uma casa maior.
— Mãe, a decisão é nossa — intervinha João, embora sem grande firmeza.
— Só estás a deitar dinheiro fora em advogados. Quanto já gastaste? Quinhentos euros? Mil?
Até alguns familiares de João achavam Ana teimosa e interesseira. Nas festas de família, não faltavam piadas sobre a “casa fantasma” e os “castelos no ar”.
Mas, contra tudo e contra todos, Ana ganhou o processo.
Quando finalmente os documentos ficaram regularizados, ela e João foram ver a propriedade. A casa estava abandonada e maltratada, mas a estrutura mantinha-se sólida. Das janelas, abria-se já a promessa luminosa do mar.
