No pátio, os pinheiros antigos davam sombra e enchiam o ar daquele cheiro resinoso, limpo, que se misturava com a maresia.
— Sabes uma coisa? Isto aqui até é bonito — acabou por admitir João, enquanto dava a volta ao terreno com as mãos nos bolsos.
Depois dessa visita, deixaram de falar em vender. A decisão, quase sem ser pronunciada, ficou tomada: a casa ficaria para eles.
O ano seguinte foi consumido por obras. João tratou do telhado, substituiu janelas, reforçou portas e passou fins de semana inteiros coberto de pó. Ana, por sua vez, entregou-se ao jardim, escolheu cores, tecidos, candeeiros, móveis antigos para restaurar. Aos poucos, aquela construção esquecida foi ganhando alma. O que antes parecia abandono começou a parecer refúgio.
Pela primeira vez em muito tempo, Ana sentiu que a vida lhe oferecia alguma coisa boa.
No verão, publicou algumas fotografias nas redes sociais.
A varanda branca, com cadeirões de verga e almofadas claras.
A rede presa entre dois pinheiros, perfeita para ler ao fim da tarde, quando o calor amolecia e o vento vinha do mar.
As roseiras junto ao portão, tantas e tão diferentes que formavam quase um corredor florido.
E, por fim, o pôr do sol sobre a água, visto da própria esplanada da casa.
Os comentários não tardaram a chegar. Havia dezenas deles, todos entusiasmados. As amigas queriam saber o nome do hotel. Algumas colegas insistiam que aquilo não podia ser uma casa particular, muito menos dela.
Passados poucos dias, a sogra telefonou de surpresa.
A voz vinha diferente: macia, açucarada, quase carinhosa demais.
— Aninha, vi as tuas fotografias. Que casinha maravilhosa ficou!
— Obrigada — respondeu Ana, imediatamente em alerta.
— Está irreconhecível! Parece saída de uma revista de decoração. Um dia destes temos de ir aí ver essa maravilha ao vivo.
— Sim… um dia destes.
— E o mar fica perto?
— A cinco minutos a pé.
— Que encanto! Pronto, querida, beijinhos. Dá cumprimentos ao Joãozinho.
Ana desligou com uma sensação desagradável no peito. Em três anos de casamento já aprendera a distinguir as inflexões da sogra. Aquela doçura súbita não combinava com nada. Era estranho demais passar, de um momento para o outro, do desprezo aberto ao entusiasmo meloso.
Uma semana depois, a inquietação confirmou-se.
A sogra apareceu à porta com duas malas enormes. O táxi arrancou logo, sem sequer esperar que a dona da casa abrisse. Ana estava de avental, uma vara de arames na mão, porque preparava merengue na cozinha.
— Mãe? A senhora não avisou…
— Quis fazer-vos uma surpresa! — exclamou a sogra, dando-lhe um beijo rápido na face antes de entrar.
Entrou como se aquele lugar lhe pertencesse desde sempre. Descalçou os sapatos com toda a calma, pousou a mala de mão na consola do hall e começou a circular pela casa.
Viu os quartos, tocou nos cortinados, sentou-se nos sofás para lhes testar a maciez. Depois, com ar de especialista, aprovou as obras.
— Escolheram bem o papel de parede. E os azulejos da casa de banho também ficaram muito felizes.
Só então, com absoluta naturalidade, anunciou:
— Decidi passar aqui o verão inteiro. O ar do mar faz muito bem na minha idade.
