“A casa junto ao mar passou a ser da família”, anunciou a sogra enquanto Ana ficou parada com a chávena suspensa e o café a saber-lhe amargo

Histórias
Egoísmo familiar destrói comoventes recordações.

Ana tentou contrariá-la, ainda a recompor-se da surpresa.

— Mas nós não combinámos nada… Tínhamos outros planos…

A sogra limitou-se a fazer um gesto impaciente com a mão, como se aquilo fosse uma ninharia sem importância.

— Não sejas mesquinha. A casa é grande, há espaço para toda a gente.

E, enquanto dizia isto, já empurrava a mala na direção do quarto principal. Ana foi atrás dela, cada vez mais inquieta.

Foi então que veio a segunda revelação.

— Ah, e já agora: eu já contei à família sobre a vossa casa. Ficaram todos encantados!

— A que família? — perguntou Ana, sentindo o chão fugir-lhe debaixo dos pés.

— Aos nossos, claro. À minha irmã, aos sobrinhos… Coitados, há tantos anos que não veem o mar.

Pouco a pouco, Ana percebeu a dimensão do que se passava. A sogra, sem dizer uma palavra a ninguém, tinha oferecido férias gratuitas a várias famílias. Na semana seguinte, chegariam a irmã dela com o marido, dois filhos adultos com os respetivos cônjuges e ainda dois netos.

Ao todo, oito pessoas.

E nenhuma delas tinha sequer pensado em pedir autorização à dona da casa.

Como se isso não bastasse, a sogra já tinha decidido onde cada um iria dormir. O quarto principal ficaria para ela. O quarto das crianças seria entregue aos parentes que vinham com os miúdos. O quarto de hóspedes caberia ao segundo casal.

— E eu e o João ficamos onde? — conseguiu perguntar Ana, quase sem voz.

— Na varanda põe-se uma cama dobrável. Ou então dormem no sofá da sala. Não faças drama, é só por uns dias.

Ao cair da noite, João chegou. Ana reconheceu o som do motor e aproximou-se da janela. Viu-o estacionar o carro debaixo dos pinheiros, com o ar cansado de quem vinha de um longo dia de trabalho.

A mãe dele foi a primeira a correr para a porta, alisando as pregas do vestido como se se preparasse para uma cena ensaiada.

— Joãozinho! — exclamou, atirando-se-lhe ao pescoço. — Imagina tu que eu só queria juntar a família, e a tua mulher armou logo uma confusão. Não deixa os parentes virem!

Sem dizer nada, Ana pegou no telemóvel e entregou-o ao marido. No ecrã estava aberta a conversa do grupo familiar. A mensagem, enviada nessa mesma manhã, dizia:

“Venham todos. A casa é enorme. Há lugar para todos. A Ana até fica contente por receber visitas.”

João leu a troca de mensagens até ao fim. A expressão dele foi-se fechando, linha após linha. Depois ergueu os olhos para a mãe.

— Convidaste pessoas sem nos perguntares?

— E qual é o problema? — respondeu ela, encolhendo os ombros.

— Também decidiste a distribuição dos quartos?

— Claro. Alguém tinha de organizar as coisas.

— Incluindo o nosso quarto?

— E então? Eu preciso de um sítio confortável. Tu sabes que tenho dores nas costas.

A sogra não parecia preparada para aquele interrogatório. Estava habituada a que João acabasse sempre por lhe dar razão.

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