“expectativas absurdas” disse ele, vestindo a camisa que eu lhe comprara e rompendo o silêncio do nosso décimo aniversário

Histórias
Amargamente injusto, o silêncio pesou como condenação.

A noite trazia no ar o cheiro doce e cansado de peónias murchas misturado com o aroma do jantar reaquecido. Cheguei a casa às sete em ponto, apesar de ter prometido a mim mesma ficar no escritório até acabar tudo o que estava pendente. Mas aquele dia não era um dia qualquer: fazia dez anos desde que tínhamos dito “sim” um ao outro. Dez anos durante os quais eu me transformara numa espécie de máquina multifunções com autolimpeza incluída, enquanto João continuava a ser um eterno explorador da própria vocação, provisoriamente desocupado de qualquer atividade concreta.

O ramo de rosas brancas roçava-me no braço. Tinha-as escolhido eu mesma, numa florista perto do metro, quase no mesmo sítio onde, anos antes, tremendo de frio e de felicidade, lhe comprara as primeiras gravatas em saldos. Agora, gravatas já não faziam falta. João não usava nada que não fossem calças de fato de treino e t-shirts com frases pomposas do género “Nascido para liderar”.

No hall, a luz estava acesa, mas o silêncio era estranho. Não havia o ruído da televisão com futebol ao fim da tarde, nem o crepitar de uma frigideira na cozinha. Ultimamente, era ele quem encenava grandes rituais culinários, porque eu chegava tarde demais, exausta demais, sem energia sequer para fingir que ainda era a guardiã do lar.

João estava sentado à mesa da sala. À sua frente havia uma garrafa de vinho, aquela que tínhamos trazido da nossa última viagem juntos ao Algarve, duas taças e uma pasta fina de couro. Formal de mais para um jantar de aniversário. Ameaçadora de mais para estar ali por acaso.

Ele vestia uma camisa.

Foi nesse detalhe que alguma coisa dentro de mim tilintou e se partiu. João tinha vestido uma camisa. A camisa. A mesma que eu lhe comprara três anos antes, para uma entrevista numa grande empresa de tecnologia. Ele falhara a entrevista de forma espetacular, atribuindo a derrota inteira à rapariga dos recursos humanos, que, segundo ele, tinha “expectativas absurdas”. A camisa ficara desde então pendurada no armário, como uma acusação silenciosa.

— Senta-te, Ana — disse ele.

A voz não parecia dele. Era demasiado ensaiada, demasiado colocada, como a de um ator de teatro amador que, por milagre, tivesse acabado de receber o papel principal.

— Precisamos de conversar com seriedade.

Sem dizer nada, deixei o ramo na ponta da mesa. As rosas caíram de lado, desajeitadas, algumas pétalas soltaram-se de imediato e ficaram espalhadas sobre o verniz brilhante.

— Estou a ouvir.

Ele empurrou a pasta para o centro da mesa. O gesto tinha qualquer coisa de proprietário: generoso na aparência, esmagador no fundo.

— Já tomei a minha decisão. Vou pedir o divórcio.

O mundo não explodiu. Nada desabou. Apenas ficou mais silencioso, como se alguém tivesse reduzido o volume da realidade até ao zero. Senti o sangue afastar-se devagar do meu rosto, deixando-me a expressão rígida, quase de pedra.

— Qual é o motivo? — perguntei.

E, naquele segundo, tive orgulho por a minha voz não ter tremido.

João suspirou com peso e esfregou a cana do nariz, o seu gesto típico de grande mártir, o mesmo com que costumava acompanhar os discursos sobre a forma como o universo, mais uma vez, não reconhecera o seu talento.

— O motivo és tu, Ana. Tu esmagaste-me. O teu sucesso, a tua agenda sempre cheia, o teu dinheiro. Deixaste de me respeitar. Deixaste de olhar para mim como homem. Nesta casa, eu sou um nada. Uma função. E eu não consigo continuar assim.

Fiquei a escutá-lo, tentando encontrar por trás daquela nova máscara de rei ofendido algum traço familiar. Não encontrei. À minha frente estava sentado um homem completamente estranho que, por alguma razão, vivia no meu apartamento, comia a minha comida e dormia na minha cama.

— Preparei uma minuta de acordo — prosseguiu ele, abrindo a pasta. — Vamos evitar dramas e advogados, está bem? Vamos fazer isto como pessoas civilizadas. Tu és inteligente, Ana, percebes perfeitamente.

Estendeu-me uma folha. Passei os olhos pelas primeiras linhas e, por dentro, abriu-se uma espécie de vazio gelado.

O apartamento, comprado por mim com recurso a crédito à habitação três anos antes, logo depois de a enésima start-up dele rebentar como uma bolha de sabão, passaria integralmente para o nome dele. A dívida ao banco, porém, continuaria a ser minha, porque o contrato de crédito estava em meu nome.

Havia também uma “compensação mensal por danos morais”, num valor três vezes superior ao salário mínimo nacional, que eu teria de lhe pagar até ao momento em que ele voltasse a casar.

E depois surgia uma cláusula separada: apoio financeiro a Manuela, mãe dele, “em montante equivalente às despesas atualmente necessárias para a manutenção do seu padrão de vida habitual”.

Levantei os olhos do papel.

— João, tu estás a falar a sério?

Ele assentiu. Nos olhos dele passou qualquer coisa parecida com entusiasmo. Um caçador que encurralou a presa e já imagina a divisão da carne.

— Tu és forte, Ana. Sempre foste. Nós somos pessoas normais. Não tens o direito de nos abandonar assim. Ou vais dizer que não consegues sustentar a tua querida sogra? Ela sempre te tratou como uma filha.

A última frase foi tão grotesca que quase soltei uma gargalhada.

— Como uma filha? Uma filha que, nas tuas palavras, deve “sustentar” a família?

— Não te agarres às palavras. Sabes muito bem o que eu quero dizer. Eu e a mãe habituámo-nos a um certo nível de vida. Deixar-nos sem nada agora seria simplesmente uma canalhice.

Afastei a cadeira devagar, levantei-me e fui até à janela. No vidro refletia-se uma mulher de trinta e quatro anos, olheiras escuras sob os olhos e um penteado impecável feito de manhã em piloto automático, enquanto pensava em prazos e reuniões, não na hipótese de, à noite, o marido lhe propor que se transformasse voluntariamente numa vaca leiteira depois do divórcio.

— E se eu recusar?

João fez uma careta.

— Então vamos para tribunal. Vai ser longo. E sujo. Sabes que eu também posso contratar um advogado. Tenho testemunhos de que me empurraste para uma depressão com a tua indiferença. A minha mãe confirma. Os vizinhos também podem dizer que quase nunca estás em casa. Um casamento é uma parceria, Ana, e tu falhaste nas tuas obrigações de parceira.

Virei-me para ele. As têmporas pulsavam, mas mantive as costas direitas.

— E as tuas obrigações de parceiro? — perguntei baixo. — Cumpriste-as nos últimos cinco anos?

Ele encolheu um ombro e desviou o olhar.

— Eu procurava o meu caminho. Uma crise criativa não é brincadeira nenhuma. Havias de tentar viver com alguém que, em vez de apoiar, só pergunta: “quando é que arranjas trabalho, quando é que começas a ganhar dinheiro?”. Eu não sou um projeto teu, Ana. Sou o teu marido.

Peguei numa das taças que estava em cima da mesa e, sem pressa, atirei-a ao chão. O estilhaçar do vidro cortou o silêncio como uma lâmina. João sobressaltou-se e recuou.

— O que é que estás a fazer?!

Não respondi. Saí da sala, fechei firmemente a porta do quarto atrás de mim e sentei-me na beira da cama. Tinha um zumbido nos ouvidos, o coração batia algures na garganta. Mas, lá no fundo daquele ruído, por baixo do choque e da dor, começou a despertar outro som. Frio. Calculista. Furioso.

Prendi o cabelo num rabo de cavalo, abri o portátil e entrei na nossa pasta partilhada na nuvem. Ali, dentro da pasta “Família”, João guardava digitalizações dos seus “geniais” planos de negócio e fotografias de momentos felizes. Eu guardava outra coisa: relatórios financeiros, extratos bancários, contratos de crédito, comprovativos de pagamento. Criei uma nova pasta, protegida por palavra-passe, e comecei a copiar para lá, de forma metódica, cada ficheiro.

Do outro lado da parede, ouvi João falar ao telefone com alguém. A voz dele soava excitada, quase alegre. Encostei o ouvido à superfície fria e consegui distinguir um fragmento da conversa:

— Não te preocupes, mãe, ela vai ficar mansinha. Eu aperto-a. Quem ganha dinheiro nesta casa que pague. Eu mereci o que é meu.

Fechei os olhos com força e inspirei fundo.

Então era “mãe”. Portanto, discutiam aquilo juntos. Logo, o meu casamento tinha-se transformado numa operação familiar de expropriação, e eu era a última pessoa a saber.

Muito bem, João. Muito bem, Manuela. Declararam guerra. Só não fazem ideia de com quem se meteram.

Na manhã seguinte acordei com a cabeça pesada como chumbo, mas com uma clareza absoluta sobre o primeiro passo. Eu precisava de uma advogada. Não de uma jurista qualquer, mas de uma predadora, uma daquelas pessoas capazes de rasgar qualquer argumento em pedaços e que não torcem o nariz a métodos menos limpos se a situação assim o exigir. Catarina Silva, minha amiga dos tempos da faculdade, pertencia exatamente a essa categoria. Não nos víamos havia uns dois anos, mas a nossa relação nunca precisara de rega diária. Assentava em algo mais resistente do que conversas de circunstância.

Escrevi-lhe uma mensagem curta:

“Preciso de consulta. O meu marido decidiu que o divórcio é uma excelente oportunidade para me transformar em escrava vitalícia. Posso passar no teu escritório hoje às seis?”

A resposta chegou um minuto depois:

“Vem. Traz todos os documentos. E conhaque.”

O escritório de Catarina ficava num edifício alto, com janelas enormes e vista panorâmica sobre a cidade. Quando entrei, ela estava a terminar uma chamada, enquanto mastigava um rebuçado com uma fúria quase profissional.

— Ana — soltou ela, levantando-se de trás da secretária.

Abraçou-me com tanta força que senti as costelas protestarem. Depois afastou-se um pouco, segurando-me pelos ombros para me observar melhor.

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