“expectativas absurdas” disse ele, vestindo a camisa que eu lhe comprara e rompendo o silêncio do nosso décimo aniversário

Histórias
Amargamente injusto, o silêncio pesou como condenação.

— Estás com cara de quem não dorme há uma semana e se tem alimentado apenas de ressentimento — disse Catarina, estreitando os olhos.

— Não andas longe da verdade — admiti, deixando-me cair na poltrona de couro reservada às visitas. — Desculpa aparecer assim, sem avisar, mas isto deixou de ser uma crise. Agora é guerra.

Pousei a pasta em cima da secretária, tirei o telemóvel, pus a gravação da conversa da véspera com João a tocar e contei-lhe tudo, do princípio ao fim. Catarina não me interrompeu uma única vez. Ficou imóvel, de braços cruzados, e só os músculos do maxilar denunciavam que, por dentro, a fúria lhe ia subindo de temperatura.

Quando terminei, ela encostou-se na cadeira e ficou a olhar para mim durante alguns segundos, com aquela expressão de advogada que já está a desmontar o adversário antes de ele perceber que entrou em tribunal.

— Bom — disse por fim. — O teu marido é um idiota em estado clínico.

— Essa parte já tinha diagnosticado. A minha dúvida é saber se é um idiota juridicamente informado.

Catarina soltou um riso curto, virou o portátil na minha direção e tocou no ecrã com a unha.

— Vês esta certidão comercial? A tua agência está registada como uma sociedade por quotas. A sócia que aparece aqui é Catarina Silva, ou seja, eu. Tu és gerente, com um ordenado mensal de mil euros. Lembras-te de termos montado isto há dois anos?

Assenti. Na altura, um antigo funcionário despedido tinha tentado abrir uma porta a uns oportunistas que queriam meter a mão no negócio. Catarina sugerira uma estrutura de proteção, com uma titularidade que me afastava formalmente dos bens da empresa. Para mim, na época, aquilo não passara de burocracia: mais uma camada de papelada para manter contabilistas e finanças sossegados.

— Então escuta, minha querida — continuou ela. — Quando João avançar com o divórcio, vai tentar pedir a partilha do património. Só que, do ponto de vista legal, o que te pertence é praticamente nada: não tens quotas relevantes em teu nome e recebes um salário perfeitamente comum. Os ativos da empresa, que no relatório do ano passado rondavam os oitocentos mil euros, pertencem-me a mim. Desculpa a franqueza, mas, perante a lei, tu és quase uma desgraçadinha.

Senti uma coisa estranha abrir espaço dentro do peito. Não era alegria, exatamente. Era alívio, temperado por uma ironia tão amarga que quase me fez rir.

— E a casa?

— A casa está hipotecada em teu nome. É património adquirido durante o casamento, sim, mas com um encargo bancário agarrado. Numa partilha, não se divide apenas o bem; divide-se também a dívida. Se o teu querido marido quiser reclamar metros quadrados, leva automaticamente metade do empréstimo às costas. Quanto falta pagar?

— Cento e vinte mil euros.

— Ótimo. Então que se delicie com a perspetiva: ou aceita sessenta mil euros de dívida, ou abdica de pôr as unhas na casa. Há escolhas que são uma bênção.

Catarina levantou-se, foi buscar duas copos baixos e serviu conhaque sem pedir licença. Empurrou um deles para mim.

— Mas eu não quero limitar-me a defender-te — disse, baixando a voz. — Quero que eles aprendam. Uma lição daquelas que ficam gravadas para o resto da vida. Estás disposta a representar o papel de vítima de um colapso financeiro?

Peguei no copo e ergui-o contra a luz. O líquido âmbar pareceu incendiar-se entre os meus dedos.

— Conta-me tudo.

Uma hora mais tarde, eu tinha um plano perfeitamente alinhado na cabeça e, dentro da mala, uma pequena caixa com uma pregadeira que era, na verdade, uma câmara. Catarina tirara-a do cofre com um comentário seco:

— Presente de uma cliente muito engenhosa. Hoje faz parte do conselho de administração da empresa que antes era do ex-marido.

O microfone captava conversas num raio de cinco metros, a imagem tinha qualidade suficiente para apanhar expressões faciais, e a peça, por fora, parecia bijutaria cara, discreta e elegante. Era exatamente o tipo de objeto que ninguém questionaria. Um instrumento perfeito para recolher provas sem levantar suspeitas.

Regressei a casa por volta das nove da noite e dei início ao primeiro ato da encenação. Espalhei pela mesa da cozinha um conjunto de papéis cuidadosamente preparados: supostas ações judiciais movidas por credores inexistentes, avisos de bloqueio de contas, notificações ameaçadoras e até uma carta falsa da Autoridade Tributária a anunciar uma inspeção presencial. Catarina tinha fabricado aquilo tudo em meia hora, com a ajuda de um designer conhecido dela, homem que, em tempos, falsificara diplomas para uma fornada inteira de funcionários públicos ambiciosos.

Quando João entrou na cozinha, encontrou-me sentada à mesa, com a cabeça entre as mãos, a soluçar baixinho.

— O que foi agora? — perguntou, com uma irritação mal disfarçada.

Aparentemente, o meu ar de tragédia estava a estragar-lhe o prazer antecipado da vitória.

— Acabou tudo, João — murmurei, deixando escorrer pelas faces algumas gotas de água com que, por precaução, humedecera as pestanas. — As Finanças bloquearam as contas. A agência está sob investigação por causa de uma denúncia de concorrentes. Se eu não depositar uma caução até amanhã, podem deter-me.

Ele franziu o sobrolho. Nos olhos dele não apareceu compaixão. Vi antes uma atenção prática, quase comercial.

— Que caução? De quanto estamos a falar?

— Cinquenta mil euros. Na minha conta pessoal só tenho vinte mil. O resto está preso.

João sentou-se à minha frente e ficou calado durante bastante tempo. Depois falou com cautela, como quem testa o terreno antes de pisar.

— Não consegues vender algumas joias? Tens aquele anel com esmeralda que era da tua avó.

Levantei os olhos devagar. Primeira prova superada. Ele não oferecera ajuda, não me abraçara, não perguntara se eu estava bem. Começara logo a calcular o que ainda podia arrancar de mim enquanto eu não me afundasse por completo.

— O anel é uma réplica — menti. — O original vendi-o há três anos, quando precisavas de dinheiro para lançar aquela aplicação. Não te lembras?

Se ele tinha esquecido ou se fingia, não sei. O certo é que fez apenas uma careta.

— Então tens de arranjar outra solução. És esperta, inventa qualquer coisa. Não podes pedir emprestado a amigas?

— Não tenho amigas com esse dinheiro parado à espera de me salvar.

João levantou-se e começou a andar pela cozinha, nervoso, como se a ruína fosse uma corrente de ar incómoda.

— Está bem, não entres já em pânico. Vou falar com a minha mãe. Talvez ela consiga aconselhar.

Tive de me conter para não soltar uma gargalhada amarga. Claro. A mãe. Manuela, estratega suprema e fonte de inspiração de todos os planos brilhantes do filho.

No dia seguinte, a minha sogra apareceu sem telefonar, como fazia sempre que farejava sangue. Vinha impecavelmente penteada, com uma blusa bordada, a mala pendurada no antebraço e aquele ar de senhora que acredita ter sido nomeada pela vida para corrigir os outros. Normalmente trazia consigo um livrinho de receitas de alimentação saudável; naquele dia, porém, da mala espreitava a ponta de uma brochura de teor jurídico.

Eu já estava preparada para a segunda cena. A pregadeira-câmara prendia-se ao colarinho da minha blusa. No telemóvel, o gravador funcionava em modo contínuo.

— Bom dia, Ana — cantou ela da entrada, com uma doçura venenosa. — Soube que tens tido alguns contratempos.

— Entre, Manuela — respondi, fazendo a minha melhor expressão de resignação.

Ela passou para a cozinha sem esperar convite, examinou o espaço como se lhe pertencesse e instalou-se no lugar de sempre: junto à janela, de onde conseguia dominar a divisão inteira com o olhar.

— O João contou-me tudo — começou. — O divórcio, os teus problemas de dinheiro, essa confusão com a empresa. Não penses que vim para me regozijar. Vim ajudar.

— Ajudar de que maneira?

Manuela pousou as mãos sobre a mesa, entrelaçou os dedos e inclinou-se para a frente, compondo no rosto uma máscara de sabedoria universal.

— Ana, tens de compreender uma coisa. Um casamento não é só uma assinatura num papel. É compromisso. Tu prometeste estar ao lado do João nas horas boas e nas más. Agora estás numa hora má, sim, mas ele também não tem vivido propriamente em felicidade. Tens de olhar para a situação dele.

— Olhar para a situação dele? — repeti.

— Evidentemente. Durante anos, ele suportou o teu trabalho, as tuas viagens, a tua ausência constante. Um homem precisa de uma esposa, não de uma sócia de negócios dentro de casa. Foste tu que destruíste a família e agora queres simplesmente ir embora? Não é assim que as coisas funcionam.

Fiquei calada. Quanto mais ela falasse, melhor.

— O João pediu o divórcio porque está cansado — prosseguiu. — Mas eu conheço o meu filho. Ele não guarda rancor para sempre. Se assumires agora as obrigações que ele colocou no acordo, eu posso tentar conversar com ele. Talvez mude de ideias. No fundo, tu queres salvar o casamento, não queres?

— E se eu não quiser?

Por uma fração de segundo, ela perdeu o compasso. Recuperou-o quase de imediato.

— Então és apenas uma egoísta que usou o meu filho enquanto lhe convinha e agora o descarta porque já não precisa dele. Seja como for, deves-lhe dinheiro. Pelo dano moral, pelos anos de humilhação, por ele nunca se ter realizado por tua causa.

A raiva começou a ferver-me por dentro, mas obriguei-me a respirar devagar.

— Manuela, diga-me com sinceridade. Foi a senhora que teve a ideia do pedido de divórcio para me assustar e me obrigar a assinar aquelas condições abusivas, não foi?

Ela não se atrapalhou. Nem pestanejou.

— Eu protejo o meu filho. E tu, se fosses uma mulher como deve ser, entenderias que o teu papel era inspirar o teu marido, não esmagá-lo com a tua carteira.

Olhei para ela e, de repente, vieram-me à memória todas as chamadas em que me pedira uma máquina de lavar nova, uma estadia num spa, tratamentos de fisioterapia, consultas privadas, suplementos caríssimos. De cada vez, apresentava o pedido como se fosse natural, como se fosse apenas a taxa normal por me terem permitido “entrar na família”.

— Percebi a sua posição — disse, com uma calma que até a mim me surpreendeu. — Preciso de pensar.

Quando a minha sogra finalmente se foi embora, desliguei o gravador e enviei o ficheiro a Catarina. A resposta chegou menos de um minuto depois:

“Isso é uma bomba. Continua assim. Vamos apertá-los até cederem.”

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