“Doze pessoas, João!” exclamei, em lágrimas e fúria, com a bebé a rebentar dentes no quarto ao lado

Histórias
É injusto, cruel e desesperador ser ignorada assim.

— João, desliga essa chamada — agarrei na toalha que tinha nas mãos e atirei-a para cima da mesa. — Desliga e diz-me, por favor, que isto foi uma brincadeira.

Ele piscou os olhos, genuinamente surpreendido, com o telemóvel colado à orelha. No ecrã aparecia o nome da mãe.

— Mãe, espera aí um segundo — resmungou para o aparelho, antes de se virar para mim. — Ana, que ataque é esse? Eles já saíram lá de casa. Daqui a duas horas estão cá.

— Doze pessoas, João! — a minha voz saiu num sussurro agudo e tremido, porque a nossa filha de sete meses acabara de adormecer no quarto ao lado. — Os teus pais, a tua irmã com o marido e os três filhos, o teu tio Pedro com a mulher… Já vinham a caminho? E ninguém se lembrou de me perguntar nada?

— Oh, não faças disso um drama. É a minha família — respondeu ele, com um gesto impaciente, e voltou à conversa. — Sim, mãe, está tudo bem. Estamos à vossa espera. Sim, a Ana arranja qualquer coisa. Vá, tenham cuidado na estrada.

Terminou a chamada e, como se nada tivesse acontecido, abriu o frigorífico à procura de água.

— João, o frigorífico está vazio! — eu mal conseguia conter as lágrimas, não sabia se de raiva, de humilhação ou de puro cansaço. — Há três ovos e meia embalagem de kefir. Eu ia encomendar compras ao fim da tarde. De que é que queres que eu faça comida para uma multidão?

— Ana, não comeces — ele fez uma careta, tirando uma garrafa de água mineral. — Estás em casa com a licença, não tens propriamente muito que fazer. Preparas qualquer coisa para os meus. Qual é a dificuldade? Vais ali ao supermercado da esquina. Cozes umas batatas, metes um frango no forno. As mulheres sempre se desenrascaram assim. A minha mãe passou a vida a pôr mesas para trinta pessoas e nunca andou a queixar-se.

— A tua mãe não estava fechada em casa com uma bebé a rebentar dentes, que há três noites seguidas dorme vinte minutos de cada vez! — aproximei-me dele, sentindo uma fúria surda e pesada a crescer-me dentro do peito. — Esta semana, se juntei doze horas de sono, foi muito. Que batatas? Que frango?

— Está bem, pronto, não exageres — João suspirou, olhando para o relógio, como se o incómodo fosse meu e não dele. — A Maria está a dormir, não está? Então tens tempo. Eu, por acaso, trabalho. Eu ganho dinheiro, Ana. Também fico cansado. De ti só se espera um bocadinho de hospitalidade. São os meus parentes, não os vejo há meio ano. Queres que eu passe vergonha à frente deles por causa das tuas crises?

— Portanto, aquilo que eu sinto não te interessa minimamente? — encarei o homem com quem vivia havia quatro anos e, naquele instante, tive a sensação absurda de estar diante de um desconhecido. — Eu estou mal, João. Estou esgotada. Fisicamente esgotada.

— Estás é sem nada para fazer e inventas problemas onde eles não existem — cortou ele, já a afastar-se para o corredor. — Vou tomar banho. Espero que, quando a minha mãe chegar, já tenhas voltado ao normal.

A porta da casa de banho bateu com força e, logo a seguir, ouviu-se a água a correr. Fiquei imóvel no meio do corredor, com o coração a bater-me na garganta. Nesse preciso momento, do quarto, veio um choro fino, estridente, desesperado. A Maria tinha acordado. Dormira apenas quinze minutos.

As duas horas seguintes foram um suplício. Com uma mão embalava a minha filha contra o peito; com a outra tentava cortar uns restos de legumes que encontrei esquecidos numa gaveta. Ir ao supermercado tornou-se impossível. A Maria não me largava um segundo, chorava, procurava o peito, contorcia-se de desconforto. João saiu do banho fresco, penteado, satisfeito, sentou-se ao computador e mergulhou nos assuntos dele. Quando lhe pedi que segurasse a bebé por uns minutos, limitou-se a encolher os ombros:

— Ela quer-te a ti. Comigo, berra.

Às quatro da tarde em ponto, a campainha tocou. Tocou alto, várias vezes, com uma insistência quase agressiva.

Num instante, o hall encheu-se de vozes, gargalhadas, cheiro a perfumes alheios e humidade trazida da rua. A minha sogra, Teresa, entrou primeiro e, ainda à porta, empurrou-me de lado com o ombro, sem a menor cerimónia.

— João! Filho! Então, vens receber os convidados ou não?

Atrás dela entrou o resto da comitiva. Os três filhos da irmã de João atiraram-se logo aos atacadores, arrancando os sapatos à pressa e largando casacos no chão. O tio Pedro, um homem grande, de botas pesadas, tossiu ruidosamente no meio da entrada.

— Ai, mas que silêncio é este? — Teresa espreitou para a cozinha e franziu o sobrolho. — Ana, então? Onde está tudo? Não estavam à nossa espera? O João disse que estavas em casa a preparar a mesa.

Apertei a Maria contra mim, obriguei-me a respirar e levantei os olhos para ela.

— Boa tarde — consegui dizer, muito baixo.

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