— O João só me falou disto há duas horas — acrescentei, quase sem voz, com a Maria colada ao peito, petrificada pelo barulho. — Era impossível eu ter preparado alguma coisa a tempo.
Nesse instante, o João apareceu vindo da sala, radiante, como se nada naquele cenário fosse estranho.
— Mãe! Pai! Entrem, entrem! — abriu os braços para cumprimentar toda a gente, distribuindo beijos e abraços. — A Ana não conseguiu adiantar muita coisa, mas resolve-se já. Fazemos qualquer coisa num instante.
— Como assim, não conseguiu? — A Catarina, minha cunhada, mãe de três crianças, mediu-me de alto a baixo com um ar de censura que nem tentou disfarçar. — Passas o dia em casa, não passas? E só tens uma bebé. Eu, com três raparigas pequenas, ainda conseguia pôr três saladas na mesa e fazer um prato quente quando vinham visitas.
— Catarina, há bebés e bebés — tentei responder, sentindo as lágrimas a queimarem-me os olhos. — A Maria está com os dentes a nascer e quase não dorme.
— Não vale a pena arranjares desculpas — cortou o meu sogro, entrando para a sala como se a casa lhe pertencesse. — João, liga lá a televisão, que o jogo não tarda. Teresa, Catarina, vão dar uma ajuda à rapariga na cozinha, senão ainda morremos de fome. Viemos da estrada, foram três horas de viagem.
A Teresa foi direita ao frigorífico. Abriu a porta, ficou a olhar para as prateleiras quase vazias e estalou a língua, desapontada.
— Pois, Ana… como dona de casa, deixas muito a desejar. O meu filho anda aqui a passar fome? Enfim, não há tempo para conversas. João! Anda cá!
O meu marido meteu a cabeça pela porta da cozinha.
— Sim, mãe?
— Vai ao supermercado. Traz duas embalagens grandes de ravioli, chouriço ou fiambre, queijo e pão. Já que a tua mulher não foi capaz de fazer um almoço decente, ao menos desenrascamo-nos com comida pronta.
O João lançou-me um olhar aborrecido, como se a culpa de tudo aquilo fosse minha.
— Ana, custava assim tanto descascares umas batatas? Pronto, dá-me dinheiro que eu vou lá num instante.
— Não tenho dinheiro comigo. O cartão está na mesa de cabeceira — respondi, com a voz baça.
Meia hora depois, a cozinha parecia outra casa. Havia tachos a bater, portas de armários a abrir e fechar, água a ferver, facas a raspar na tábua. Mas eu não fazia parte daquilo. A Teresa e a Catarina ocupavam o espaço inteiro, falavam alto uma com a outra e, de tempos a tempos, deixavam cair comentários como facas.
— Valha-me Deus, que facas tão cegas. Há um homem nesta casa e nem as facas ele afia — resmungou a minha sogra.
— Mãe, isto aqui é falta de organização — respondeu a Catarina, puxando uma frigideira com estrondo. — Olha para o pó no exaustor. Quando se está em casa o dia inteiro, ao menos a limpeza podia estar em ordem.
Eu estava sentada no cadeirão do quarto, a embalar a Maria, e ouvia tudo pela porta entreaberta. Cada palavra me chegava nítida, pesada, como se fosse dita mesmo ao meu ouvido. Por dentro, alguma coisa cedeu. Uma exaustão espessa, quase física, desabou sobre mim. Apetecia-me deitar-me no chão e ficar ali, imóvel, até todos desaparecerem. Mas o pior era perceber que já nem tinha força para me indignar. O pó, os ravioli, as opiniões delas… tudo isso me parecia distante. O que me feria, até me contrair o peito, era o João não ter dito uma única palavra em minha defesa. Nem uma. Pelo contrário: concordava com elas, encolhia os ombros e sorria com aquele ar culpado de quem prefere sacrificar a mulher a contrariar a família.
Perto das seis da tarde, chamaram-me para a mesa. Ou melhor: o João espreitou para o quarto e gritou de onde estava:
— Ana, anda. Já está tudo pronto. Deita a Maria, deixa-a dormir.
— Ela não está a dormir, João.
— Então traz-a contigo. Senta-te um bocado com o pessoal.
Na sala mal se conseguia circular. À volta da mesa extensível estavam sentadas doze pessoas. Havia travessas cheias de ravioli, pratos de enchidos e queijo, pão cortado às pressas e uns frascos de conservas que a Teresa trouxera de casa. O barulho era ensurdecedor. O tio Pedro já tinha servido um copo para si e outro para o meu sogro.
— Então, à nossa reunião! — anunciou ele, levantando a voz por cima de todos.
Sentei-me na ponta de uma cadeira, com a Maria ao colo. Ela rabujava, torcia-se, agarrava-me o cabelo com as mãozinhas e puxava. Tentei esticar o braço para alcançar uma fatia de pão, mas a Teresa reparou logo em mim.
— Ana, devias pôr um gorro à menina. Vem frio da janela. E, já agora, porque é que ela ainda não come sopa nem papa? O meu João, com sete meses, já comia da nossa panela.
— O leite materno chega-lhe — respondi baixo, sem levantar os olhos do prato.
— Ai, agora são essas modernices — disse a Catarina, afastando a ideia com um gesto enquanto mastigava. — Ouvem meia dúzia de especialistas da internet e depois admiram-se que as crianças andem pálidas. João, queres mais? Porque, se ficares à espera que a tua mulher se lembre, bem podes esperar sentado.
O João sorriu, estendeu o prato à mãe e disse, num tom quase infantil:
— Põe mais um bocadinho, mãe. A tua comida é sempre a melhor. Até quando é comprada, contigo fica mais saborosa.
A sala inteira rebentou numa gargalhada. Aquele riso entrou-me pelos ouvidos como uma bofetada.
