“Doze pessoas, João!” exclamei, em lágrimas e fúria, com a bebé a rebentar dentes no quarto ao lado

Histórias
É injusto, cruel e desesperador ser ignorada assim.

Olhei para João. Nem sequer se virou na minha direção. Estava absorvido numa conversa com o tio Pedro sobre carros, como se nada à sua volta tivesse importância. Para ele, a noite corria lindamente: a família reunida, a mesa cheia, gente a rir, comida no prato. E a mulher dele, sentada na ponta da cadeira, com olheiras fundas de noites mal dormidas e a tentar engolir o choro, era apenas um detalhe sem valor. Afinal, “estava em casa com a bebé, sem nada para fazer”.

De repente, Maria estremeceu no meu colo e desatou a chorar com força.

— Ana, leva lá a miúda daqui — resmungou o meu sogro, fazendo uma careta. — Assim não se consegue falar, temos de gritar uns por cima dos outros.

Levantei-me. Sem pressa. Sem dizer uma palavra. Fui até ao corredor, deitei a minha filha no carrinho e comecei a apertar-lhe o fato acolchoado. Maria, surpreendida com a mudança brusca, calou-se por instantes. Depois entrei no quarto, peguei no meu casaco, na mala com os documentos e nas coisas da bebé, que eu mantinha sempre prontas numa mochila para qualquer ida ao centro de saúde.

Calcei as botas.

João apareceu no corredor, atraído pelo silêncio estranho que se instalara.

— Ana, mas onde é que pensas que vais? — perguntou, franzindo o sobrolho. — Vais passear a esta hora? Já está escuro.

— Vou-me embora, João — respondi, com uma calma tão fria que nem eu reconheci a minha própria voz.

— Como assim, vais-te embora? Para onde? Para casa da tua mãe? — soltou uma risadinha curta, mas os olhos denunciaram-lhe a confusão. — Deixa-te de disparates e volta para a mesa. As pessoas vão achar isto tudo muito estranho.

— O que as pessoas vão achar deixou de me interessar — disse, colocando a mochila ao ombro e segurando no guiador do carrinho. — Tu tinhas razão. Eu, em casa com a bebé, não faço nada. Por isso vou dar uma volta. Fica tu a entreter a tua família. Serve-os, dá-lhes de comer, lava a loiça, arruma tudo. As chaves deixo na caixa do correio.

— Tu perdeste completamente a cabeça! — João agarrou-me pelo braço, e manchas vermelhas subiram-lhe pelo rosto. — Estás a estragar-me a noite! Por uma coisa sem importância, armas este espetáculo à frente dos meus pais! Volta já para dentro, ouviste?

— Larga-me — disse eu, baixo, mas de uma forma que o fez abrir imediatamente os dedos. — Eu já não consigo mais. Tu não me escutas. Pior: tu nem sequer me vês. Para ti, sou uma espécie de acessório gratuito que tem de funcionar sem falhas, sem descanso e sem se queixar. Vive sozinho uns tempos. Descobre como é isso de “não fazer nada”.

Abri a porta e empurrei o carrinho para o patamar.

— Ana! — gritou ele atrás de mim.

Eu já estava a chamar o elevador.

Do apartamento continuavam a chegar vozes altas, gargalhadas, o barulho da televisão ligada. Lá dentro, ninguém percebeu que eu tinha saído. Ou, se percebeu, não achou importante o suficiente para se levantar.

Fui para casa da minha amiga Inês, que tinha uma sala livre. Ela não me encheu de perguntas. Limitou-se a pôr água ao lume, servir-me uma chávena de chá quente e tirar-me Maria dos braços. Deu-lhe banho, mudou-lhe a roupa e deitou-a num silêncio que me pareceu quase sagrado.

Eu adormeci assim que encostei a cabeça à almofada. Pela primeira vez em muitos meses, dormi seis horas seguidas, sem sobressaltos, sem choros, sem me levantar a correr.

Tinha desligado o telemóvel ainda dentro do elevador. Só o voltei a ligar às onze da manhã do dia seguinte.

O ecrã acendeu-se como se tivesse explodido. Trinta chamadas perdidas de João. Cinco da minha sogra. Uma avalanche de mensagens.

Abri a conversa com ele. As primeiras eram furiosas.

“Estás parva?”

“Volta imediatamente.”

“A minha mãe ficou em choque com a tua atitude.”

“Fizeste-me passar vergonha à frente do tio Pedro.”

Mas, mais tarde, perto das três da madrugada, o tom começava a mudar.

“Ana, onde está o leite da Maria? Eles já foram embora e eu estou sozinho.”

“Ana, porque é que a cozinha está neste estado? A mãe e a Catarina foram-se embora sem lavar nada. Disseram que isso era responsabilidade tua.”

“Ana, responde.”

“Não estou bem.”

“Ana, por favor.”

A última mensagem tinha chegado meia hora antes.

“Vou ter contigo. A Inês disse-me que estás aí. Por favor, não vás embora antes de me ouvires.”

Vinte minutos depois, a campainha tocou. Inês foi abrir. Eu fiquei sentada no sofá, com Maria ao colo, acordada, alimentada e tranquila.

João entrou na sala.

Quase não o reconheci. Ele, que andava sempre arranjado, direito, seguro de si, parecia agora completamente desfeito. O cabelo estava em desalinho, tinha sombras escuras debaixo dos olhos, o casaco vinha aberto e as mãos tremiam-lhe de forma visível.

Parou junto à entrada, como se tivesse medo de dar mais um passo. Olhou para mim. Depois para a filha.

— Olá.

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