“Sua ingrata miserável!” — Helena atirou a chávena ao chão, espalhando estilhaços pela cozinha e humilhando a nora entre gritos

Histórias
Crueldade gratuita, silêncio aterrador e cobardia.

— Sua ingrata miserável! — Helena atirou a chávena contra o chão com tanta força que os estilhaços se espalharam por toda a cozinha. — Cala-te de uma vez! Vais dar ordens lá na tua terrinha; aqui quem manda somos nós, mais ninguém!

Ana estava parada no meio da cozinha, de roupão húmido, o cabelo em desalinho e as mãos a tremer. Momentos antes, tentara explicar à sogra que naquele dia não tinha condições para se pôr a preparar conservas para o inverno. Estava com febre, a cabeça parecia prestes a rebentar, e ainda tinha de aguentar aquela cena histérica.

— Helena, eu já lhe disse… estou doente. Amanhã trato disso, prometo.

— Amanhã! — a voz da sogra subiu para um guincho. — Amanhã os tomates já estão estragados! Ou achas que comprei três caixotes para entreter cães?

João permanecia sentado à mesa, de olhos colados ao telemóvel, fingindo que não ouvia o escândalo. Nem sequer levantara a cabeça quando a mãe partira a loiça. Um cobarde, era isso. Três anos de casamento, e continuava sem aprender a defender a própria mulher dos ataques da mãe.

— João… — Ana virou-se para o marido, com uma esperança desesperada na voz. — Diz-lhe alguma coisa…

— Não metas o meu filho nas tuas guerrinhas de mulheres! — cortou Helena, antes que ele respondesse. — E, já agora, quem pensas tu que és para mandar aqui? Vives na minha casa, comes à minha mesa e ainda vens exigir direitos!

Foi aí que Ana perdeu a pouca paciência que lhe restava. Sentiu o sangue subir-lhe ao rosto; nas têmporas, uma pancada surda começou a martelar.

— Na sua casa? Nós comprámos metade deste apartamento! Ainda estamos a pagar o empréstimo!

Helena torceu a boca, como se tivesse engolido um limão inteiro.

— Compraram, foi? E quem é que comprou, diz lá? O meu filho é que trabalha. Tu fazes o quê? Ficas sentadinha num escritório, a fingir que te cansas. Uma inútil!

— Mãe, chega — murmurou finalmente João, mas disse-o tão sem firmeza que aquilo nem soou a apoio.

— Não chega coisa nenhuma! — A sogra virou-se para ele, indignada. — Olha bem a cobra que trouxeste para dentro de casa! Eu criei-te sozinha durante trinta anos, carreguei contigo às costas, e agora aparece esta e já se acha dona de tudo!

Do outro lado da parede ouviram-se vozes abafadas das vizinhas. De certeza que Sofia já encostara o ouvido à porta; adorava depois comentar no prédio as desgraças alheias.

Ana sentiu uma onda de enjoo. Talvez fosse da febre. Talvez fosse daquele circo todo.

— Sabe uma coisa? — apoiou-se no frigorífico para não cambalear. — Faça as suas conservas sozinha. Eu vou deitar-me.

— Não te atrevas a virar-me as costas, sua mal-agradecida! — berrou Helena, agarrando numa tábua de cortar que estava em cima da mesa.

Nesse preciso instante, a campainha tocou. Um toque seco, insistente.

Os três ficaram imóveis. A campainha voltou a soar.

— É o Manuel — disse João, olhando de relance para o relógio. — Eu tinha-lhe pedido para passar cá por causa da casa de campo…

Helena mudou de expressão num segundo. Alisou o rosto, compôs o cabelo desgrenhado e endireitou os ombros.

— João, vai abrir. E tu — lançou a Ana um olhar venenoso — arranja-te. Não envergonhes a família à frente das pessoas.

Ana ainda quis responder, mas Manuel já surgia à entrada da cozinha. Era irmão do falecido sogro, um homem ainda robusto, de olhos espertos e com o velho hábito de se meter onde não era chamado.

— Ora, ora… que ambiente animado! — comentou, observando os cacos espalhados pelo chão. — Estavam a resolver assuntos domésticos?

Helena abriu um sorriso tenso.

— Nada de especial. Pequenas coisas. Entra, Manuel, faço já um chá.

Mas Manuel não parecia disposto a fingir que não tinha visto nada. Caminhou até à mesa, sentou-se e fitou Ana com atenção. Ela tinha os olhos vermelhos e o rosto marcado pelas lágrimas.

— Então, afinal, que se passou aqui? Ouviam-se os gritos do patamar.

Ana percebeu, naquele momento, que a situação podia tomar um rumo inesperado.

— Não aconteceu nada de importante — apressou-se Helena, indo buscar a chaleira. — A Ana está um bocadinho constipada, mas as tarefas da casa não desaparecem só porque alguém se sente mal.

— Um bocadinho constipada? — Manuel soltou um riso curto, desconfiado. — E por causa disso gritavam como se o prédio estivesse a arder?

Ana sentiu as faces incendiarem-se. Tinha vergonha de que uma pessoa de fora presenciasse aquela cena suja, humilhante. Ainda assim, já não conseguia calar-se.

— Manuel — disse, sentando-se do outro lado da mesa —, estou com trinta e oito de febre. Só pedi para deixarmos as conservas para amanhã.

— E qual é o drama? — perguntou ele, encolhendo os ombros.

Helena quase deixou cair a chaleira.

— Manuel! Tu sabes perfeitamente como eu sou com a casa! Tenho tudo organizado, tudo no seu tempo! E agora ela…

— Agora a tua nora ficou doente — interrompeu-o Manuel. — E depois? O mundo acaba por causa disso?

João remexeu-se na cadeira, desconfortável. Pela primeira vez desde o início da discussão, parecia não saber onde se enfiar.

— Tio Manuel, a mãe só está preocupada…

— Preocupada, dizes tu? — Manuel tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu um sem pedir licença. — A mim parece-me é que está descontrolada.

Helena ficou petrificada, com uma chávena na mão. Claramente, não esperava aquela reação.

— O que queres dizer com isso, Manuel?

— Quero dizer que te estás a comportar como uma peixeira aos gritos no mercado — respondeu ele, dando uma passa e soltando o fumo devagar. — Estás a humilhar uma rapariga doente por causa de uns tomates.

— Uns tomates?! — A voz de Helena voltou a trepar perigosamente. — Passei o dia inteiro no mercado à procura dos melhores!

— E então? Amanhã também é dia.

Ana olhava para Manuel sem conseguir disfarçar o espanto. Nunca ninguém se atrevera a falar assim com a sogra. Nem mesmo o filho, que sempre se estendia diante dela como um capacho.

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