“Sua ingrata miserável!” — Helena atirou a chávena ao chão, espalhando estilhaços pela cozinha e humilhando a nora entre gritos

Histórias
Crueldade gratuita, silêncio aterrador e cobardia.

— Ouve lá, Helena — disse Manuel, sacudindo a cinza do cigarro diretamente para o pires. — Não achas que já era altura de começares a olhar para a tua própria vida? Passas o tempo metida na dos outros.

— Na dos outros?! — Helena quase ficou sem ar. — É o meu filho! Esta é a minha casa!

— O teu filho é um homem feito. Escolheu mulher, formou família. Mas tu continuas a puxar-lhe os cordelinhos como se ele fosse uma marioneta.

Nesse instante, ouviu-se uma pancadinha cautelosa vinda do corredor. Logo depois, uma voz feminina anunciou-se:

— Posso entrar? Sou eu, a Sofia…

— Entra, entra — Manuel fez um gesto com a mão, sem grande cerimónia. — Chegaste mesmo a tempo. Faz falta uma testemunha.

Sofia espreitou para dentro da cozinha, viu a desordem, os rostos carregados e aquela espécie de tribunal familiar montado à pressa.

— Ai… não estou a interromper?

— Já interrompes há muito tempo — rosnou Helena. — Vives colada à parede, sempre com o ouvido à escuta.

Sofia endireitou-se, ofendida.

— E a culpa é minha por as paredes deste prédio serem finas? O prédio inteiro ouve as vossas discussões.

— O prédio inteiro? — perguntou Manuel, agora com um interesse evidente.

— Claro! — Sofia animou-se, como se lhe tivessem dado autorização para falar. — A Teresa, do primeiro andar, diz que todos os dias há alguma coisa. Ora a dona Helena grita, ora se ouve loiça a bater…

— Sofia! — Helena explodiu. — Vieste aqui espalhar mexericos?

— Mexericos? — Sofia cruzou os braços, pronta para o confronto. — A verdade incomoda, não é? Se calhar estava na altura de pensarem por que razão todos os vizinhos só têm coisas más para dizer desta casa.

João ficou lívido. Ana tapou o rosto com as mãos. Para ela, ver a vida íntima da família exposta diante de gente de fora era mais do que conseguia suportar.

Manuel, por seu lado, observava tudo com uma atenção fria, enquanto dava mais uma passa no cigarro. De repente, sorriu de lado.

— Sabes uma coisa, Helena? Talvez esteja na hora de nós os dois termos uma conversa a sério. Sem plateia.

— Conversa sobre quê?

— Sobre o teu futuro — respondeu ele, levantando-se da cadeira. — João, leva a tua mulher para o quarto. Ela precisa de descanso. Sofia, tu vais para casa. E eu fico aqui com a Helena.

— Mas eu queria só…

— Eu disse: para casa.

Havia na voz de Manuel uma firmeza tão seca, tão habituada a ser obedecida, que Sofia desapareceu no corredor sem mais uma palavra. João, apressado e envergonhado, ajudou Ana a sair da cozinha.

Helena ficou a sós com o cunhado, sentindo por antecipação que o que vinha a seguir não lhe traria qualquer conforto.

— Senta-te — ordenou Manuel, indicando a cadeira com o queixo. — E não faças essa cara de mártir. Vamos falar como adultos.

Helena obedeceu, mas manteve o corpo hirto, os ombros tensos, como se estivesse pronta a saltar e a defender-se a qualquer segundo.

— Escuta, Helena. O teu Carlos, que Deus o tenha, pediu-me antes de morrer que eu não tirasse os olhos da família. Eu prometi-lhe. Mas aquilo que tu andas a fazer aqui não é uma família. É um manicómio.

— Eu estou a proteger o meu filho!

— De quem? Da mulher dele? — Manuel abanou a cabeça, incrédulo. — A rapariga é decente, trabalha, esforça-se. Que raio tens tu contra ela?

— Decente? — Helena soltou uma gargalhada curta e amarga. — Ela quer pôr-me fora da minha própria casa!

— Isso é disparate. Ela só quer viver em paz com o marido. És tu que não lhes dás um minuto de sossego.

Helena levantou-se de rompante e começou a andar de um lado para o outro pela cozinha.

— Manuel, tu não percebes! O João é tudo o que eu tenho! Dei a minha vida por ele!

— Pois deste. E agora queres que ele viva também a tua, no teu lugar?

A frase acertou onde doía. Helena parou a meio da cozinha, como se tivesse embatido contra uma parede invisível. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.

— E o que é que me resta? Tenho cinquenta e oito anos. Estou sozinha…

— Estás sozinha porque escolheste estar — respondeu Manuel, sem suavizar a voz. — Lembro-me muito bem de, depois da morte do Carlos, aparecerem homens sérios, vizinhos, conhecidos, gente disposta a fazer vida contigo. Mandaste todos embora. Dizias que o teu filho não precisava de padrasto.

— E dizia muito bem!

— Muito bem? O miúdo cresceu, casou, tem a vida dele. E tu? Ficaste sentada a azedar contra o mundo inteiro?

Helena soluçou, mas Manuel não se comoveu. Pelo menos, não o mostrou.

— Tens estudos, tens saúde, tens mãos para trabalhar. Podias ter arranjado uma ocupação, podias ter reconstruído a tua vida, podias até ter encontrado companhia. Mas não. Era mais fácil agarrar-te ao João e envenenar a casa onde ele tentou formar uma família.

— Tu és cruel…

— Não. Sou direto. E vou dizer-te outra coisa: se não mudares, vais acabar completamente só. Mais cedo ou mais tarde, o João não aguenta. Pega na mulher e vai-se embora. E depois? Vais passar o resto dos teus dias fechada neste apartamento, a falar com as paredes?

O silêncio caiu pesado sobre a cozinha. Helena ficou de pé, abraçada a si própria, chorando em surdina, sem encontrar resposta.

No quarto ao lado, João ajudava Ana a deitar-se.

— Anda, amor. Deita-te. Tens de baixar essa febre.

Ana obedeceu, exausta, mas agarrou-lhe a mão antes que ele se afastasse.

— João, eu já não consigo viver assim. Todos os dias há uma discussão. Todos os dias a culpa de tudo cai em cima de mim…

— Aguenta só mais um bocadinho — murmurou ele, acariciando-lhe o cabelo. — Nós vamos sair daqui em breve.

— Em breve quando? Andamos a dizer isso há um ano, e continuamos exatamente no mesmo sítio!

João suspirou, pesado. No fundo, sabia tão bem como ela que aquela vida era insustentável. Mas a mãe continuava a ocupar nele um lugar sagrado. Como deixá-la para trás, sozinha?

— Sabes — disse Ana, fitando-o com uma seriedade triste —, o Manuel tem razão. A tua mãe não é uma velhinha frágil que precisa de ser protegida de tudo. É uma mulher forte, habituada a mandar e a controlar toda a gente à volta.

— Ana, por favor…

— Por favor, nada. Isto tem de ser dito. Ela vai destruir-nos se nós não pararmos isto a tempo. Olha para ti, João. Tens medo até de abrir a boca.

Ele baixou a cabeça. Dentro dele, a verdade já lá estava, inteira e dolorosa. Ana tinha razão. Mas admitir isso parecia-lhe uma traição à própria mãe. E essa era uma fronteira que ele ainda não conseguia atravessar.

Da cozinha chegavam vozes abafadas. Manuel continuava a sua conversa dura com Helena, sem lhe permitir fugir ao que precisava de ouvir.

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